| DizVentura II |
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Segunda-feira, Dezembro 11, 2006
Lamento sertanejo - Músicos rebatem críticas do futuro secretário estadual de Cultura, Luiz Paulo Conde Luiz Paulo Conde abriu a porteira de críticas aos músicos sertanejos: - Gosto muito de música, mas música de qualidade, seja popular ou erudita - disse o futuro secretário estadual de Cultura, em entrevista ao Segundo Caderno na segunda-feira passada. - Tudo menos Sula Miranda e Chitãozinho e Xororó. Essas coisas passam ao largo para mim, não quero nem saber. São Paulo deu uma contribuição negativa à cultura brasileira com esse folk fake, uma música caipira que não tem nada a ver com a cultura do país, é coisa americana. Conde acionou seu berrante, mas os sertanejos não se comportaram como gado e abaixaram a cabeça. Ao contrário: eles reagiram em alto e bom som aos berros queixosos do secretário. - O mercado fonográfico só não parou por completo porque nós, sertanejos, conseguimos vender CDs originais em época de pirataria - diz Bruno, da dupla Bruno & Marrone, que nos últimos seis anos vendeu mais de oito milhões de discos. Os principais atingidos insinuam que o secretário talvez esteja alheio ao que se passa além de seu gabinete refrigerado no Centro da cidade. - A música sertaneja é a voz e a melodia que vêm do interior, das fazendas, do gado, da gente simples. Quem sempre viveu numa grande cidade provavelmente não conhece essa outra cara do nosso tão rico Brasil, com toda sua diversidade cultural - lamenta Chitãozinho. Na entrevista, o atual vice-governador completou: - Cultura brasileira é Chico Buarque, Edu Lobo, Tom Jobim... - Cultura brasileira é Chico Buarque, Edu Lobo, Tom Jobim, Sula Miranda, Zezé Di Camargo e Luciano, Chitãozinho e Xororó, e muito mais. Inclusive Tonico e Tinoco, que são os maiores representantes da música caipira do país, e nos deram o título de "dupla Coração do Brasil" por representarmos a verdadeira música sertaneja brasileira - devolve Xororó, lembrando que a dupla ganhou um Grammy latino por um CD que tem várias influências musicais, como a participação do rapper Cabal. Em suas declarações, Conde ficou sozinho - a exemplo da rês desgarrada da música "Lamento sertanejo", de Gil e Dominguinhos, que caminha a esmo "nessa multidão boiada". - Puseram o rótulo de música popular brasileira em músicos e cantores clássicos como Chico, Djavan, Caetano e Ivan Lins - diz Sérgio Reis. - Mas, na realidade, popular significa populoso, de grande alcance. E não há nada mais popular que a música sertaneja, que representa o sertão brasileiro, o que significa o Brasil todo, do Norte ao Rio Grande do Sul. Não somos considerados representantes de música popular brasileira devido a rótulos e preconceitos, quando, na verdade, somos os grandes representantes da MPB, pois nosso alcance e nossa popularidade atingem todas as partes e classes sociais do Brasil. Os sertanejos argumentam que o secretário tem todo o direito de ter suas preferências musicais, mas daí a desprezar publicamente o gênero que melhor traduz o modo de vida do homem do campo há léguas de distância. - Pena uma pessoa que só pensa em suas origens e gosto pessoal ocupar um cargo de interesse comum de um estado - diz Bruno. - Talvez ele seja tão centrado em seu universo que não tenha tido tempo de perceber o quanto o segmento popular, na concepção exata da palavra, seja importante. O secretário tem por obrigação se preocupar com a cultura do estado. Espero que ele tenha a humildade de sair de seu acervo pessoal e descubra o acervo do povo. Povo que ele tem a obrigação de servir, gostando ou não do estilo musical. A jornalista Rosa Nepomuceno, autora do livro "Música caipira - Da roça ao rodeio", concorda. - Subentende-se que um secretário de Cultura seja um cara aberto. Tenha suas preferências pessoais, mas saiba dar valor às coisas. Ele pode não ser um apreciador da música rural, não ter tido contato com ela por ser urbano, mas tem que respeitá-la, já que ela está na raiz da nossa música popular brasileira. Ela diz que se trata de uma "música-mãe", que nasceu da mistura da música indígena com a portuguesa, e que influencia outros gêneros: - Tom Jobim, Edu Lobo, Luiz Gonzaga, Alceu Valença jamais falariam isso. Todos os grandes compositores beberam nessa fonte rural. E, como dizia o genial Tião Carrero, maior violeiro da história da música de viola, só existem dois tipos de música: a feia e a bonita. Assim como pode ter a bossa nova ruinzinha, pode ter a sertaneja excepcional. Sem querer entrar em polêmica, o cineasta Breno Silveira faz coro ao dito de Carrero: - O chato é a generalização. Existe a boa e a má música sertaneja - diz o diretor de "2 filhos de Francisco", que refaz a trajetória de Zezé Di Camargo e Luciano, e levou 5.319.677 espectadores aos cinemas. - Quando eu era moleque, escutava muito outra generalização. Falavam que Roberto Carlos era cafona, brega. Breno diz que seu filme é uma história de amor, com uma temática universal, que independe da música sertaneja, mas reconhece: - O filme me deu a chance de conhecer um universo que me surpreendeu totalmente. Não esperava essa força. A última vez que os sertanejos foram laçados por tantas críticas tem 13 anos. Mais especificamente quando Lulu Santos, no "Domingão do Faustão", disse que a música sertaneja era a trilha sonora do governo Collor. À época, cunhou-se até o termo música breganeja. De lá para cá, Collor foi apeado da Presidência, vai voltar ao poder como senador, e Lulu esclarece que nunca disse que "espingarda de cano duplo serve para matar dupla sertaneja". O cantor explica que suas críticas foram confundidas como uma atitude meramente contrária à música sertaneja. - Era uma cobrança à postura política e cidadã daqueles artistas todos que, uma semana antes do impeachment do Collor, estavam na Casa da Dinda, cantando "Parabéns pra você" na festa de aniversário do presidente - garante. Lulu Santos diz que a última coisa que quer é ter uma postura preconceituosa - mês passado ele participou de show com Sandy e Júnior, filhos de Xororó. - A música caipira encontra eco muito grande no povo brasileiro, inclusive no povo do Estado do Rio. É vazio dizer que é coisa americana, como se hip hop, funk e até o samba não tivessem o mesmo tipo de input da música dos Estados Unidos - observa, antes de baixar a porteira da discussão: - Qualquer discurso de exclusão é muito perigoso. Soa mal ao ouvido. Texto de Zezé Di Camargo: Nada mais que uma preferência pessoal - Arrogância de achar que só próprio gosto seja qualidade Causa-me estranheza que um secretário da Cultura reduza sua compreensão sobre a cultura nacional a três nomes (Chico, Edu Lobo e Tom). Três gênios, é verdade, mas representantes de um gênero único diante de uma gama imensa de cores e ritmos que compõem o cenário nacional. Apegar-se à qualidade para justificar o que nada mais é que um gosto pessoal, desculpe-me a arrogância, mas soa a arrogância. É como alguém que considera que seu próprio gosto, e só ele, seja associado a qualidade. Ora, se a interferência de estrangeirismos na nossa tão prezada cultura de raízes é tão maléfica, deveríamos ignorar o que os africanos representam na música e na culinária baiana? Deveríamos refutar as interferências européias, e em especial as portuguesas? Vamos derrubar cada traço francês e inglês na arquitetura? E que tal apagarmos as contribuições do hip hop e do funk aos movimentos sociais? Não cabe na minha concepção desprezar tudo isso. É como dar as costas à miscigenação, termo essencial na riqueza da nossa cultura. E até me dá um cacoete de clichê ao repetir isso tudo, mas como eu haveria de imaginar que um secretário da Cultura se comporte, não como formador de opinião, mas como a própria expressão da opinião? Ao menos fico a imaginar, quem sabe agora, já que a questão é prezar nossas raízes, que talvez possamos enfim, depois de 506 anos, dar mais atenção à cultura indígena. Ainda estamos em tempo de salvar algumas das línguas das etnias que resistiram a tantas interferências e descaso. Aliás, a música sertaneja (mesmo com todos os acordes importados que trafegam sem resistência em outros gêneros e só são "proibidos" por falsos puristas ao som dos "caipiras") se aproximou bem mais da questão indianista do que as nossas políticas públicas - o que não é lá muito difícil, convenhamos. 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