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Segunda-feira, Setembro 11, 2006

Reportagem sobre Dom Pedro I

O Herói sem caráter que fez a Independência - Biografia de Dom Pedro I mostra contradições do príncipe e apresenta bastidores da vida pública no século XIX

Há exatamente 184 anos, um príncipe ao mesmo tempo mal-educado e cativante, xucro e inteligente, corrupto e popular garantiu a Independência do país.

- Ele é o personagem mais fascinante da História do Brasil - diz a historiadora Isabel Lustosa, autora de "D. Pedro I".

Lançada em abril pela Companhia das Letras, a biografia já vendeu 5.500 exemplares ao mostrar a trajetória de um homem que aos 22 anos já governava o país, aos 23 fez a Independência e aos 36 morreu cercado de glórias em Portugal.

O livro, com 344 páginas, é um riquíssimo e ilustrativo passeio pelos bastidores da vida pública brasileira no século XIX. Mostra, por exemplo, que custou caro ao Brasil ter a Independência reconhecida. Pelo acordo, o país assinou uma cláusula secreta em que pagou à Inglaterra 1,4 milhão de libras esterlinas. O dinheiro saldava as dívidas de Portugal com os ingleses. O detalhe é que os portugueses pegaram o empréstimo com os ingleses justamente para se armar e atacar o Brasil.

O dia 7 de Setembro é narrado com detalhes. Às 16h30m, afetado por uma disenteria que o obrigava a todo momento a apear-se do cavalo, declarou: "Amigos, as cortes portuguesas querem escravizar-nos e perseguem-nos. De hoje em diante nossas relações estão quebradas. Nenhum laço nos une mais." Mas só no ano seguinte é que aquele dia foi decretado como o da Independência.

- Havia outras opções. O 9 de janeiro, que é o dia do Fico. O 3 de maio, quando é instalada a Assembléia Constituinte. O 14 de setembro, quando ele chega ao Rio e é aclamado. O 12 de outubro, seu aniversário, em que é aclamado imperador. Todos esses episódios vão se sucedendo e só no ano seguinte, possivelmente por decisão dele, aquele dia é sacramentado - diz ela, que, como parte da pesquisa, chegou a comprar pela internet num sebo do interior da França uma biografia sobre ele escrita em 1955 por uma francesa.

D. Pedro I é um personagem ambíguo. Administrava o Império como se fosse um prefeito, mas deixou uma Constituição para o Brasil que vigoraria por mais de 60 anos. Foi arrogante e despótico ao longo do Primeiro Reinado, mas se misturava com o povo e era abolicionista. Chegou a escrever num texto: "Eu sei que o meu sangue é da mesma cor que o dos negros".

Era imoral e corrompido, mas teve energia para desafiar as Cortes portuguesas, que tentavam reduzir o Brasil novamente ao estágio de colônia. Foi um marido péssimo e cruel para Dona Leopoldina, mas, quando partiu para São Paulo, instituiu a princesa como regente provisória, fazendo com que ela se tornasse a primeira mulher a ocupar no Brasil a direção do governo.

A complexidade do biografado faz com que ela pegue emprestada a expressão de Mário de Andrade a seu Macunaíma e chame D. Pedro I de "Um Herói sem nenhum caráter" - "mas um Herói com H maiúsculo", frisa ela, que mostra no livro toda a importância de José Bonifácio para a Independência.

A figura de Dom Pedro I tinha algo de quixotesco e parecia saída de um folhetim, diz Isabel.

- Montava seu cavalo, causava arrebatamentos, foi para o campo de batalha, morreu jovem, levou o liberalismo para um Portugal mergulhado na Inquisição - explica ela. - Seu legado foi positivo, quando você pensa na unidade do país e na governabilidade que se tornou possível com a Constituição.

D. Pedro não tinha perfil de governante, mas nos momentos de tensão, como na Independência e na luta contra o irmão Miguel, foi brilhante. Em 1832, atacou Portugal numa guerra que duraria dois anos e arruinaria sua saúde. Seu exército contava com sete mil homens e um punhado de navios velhos. O do irmão, que tinha apoio popular, somava 80 mil homens e uma frota moderna. Mesmo assim, venceu. Mas, ao fim da guerra, estava acabado. Como escreve Isabel, "morreu em 24 de setembro de 1834, aos 36 anos, o rei, filho e neto de reis, defensor das instituições livres na América e na Europa, que dera constituições às suas duas pátrias e que deixou a filha reinando em Portugal e o filho, no Brasil".

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