DizVentura II

Quarta-feira, Fevereiro 15, 2006

Reportagem sobre dois teatros famosos que foram demolidos


Cai o pano - O fim de um mistério: a história da ascensão e queda de dois palcos que marcaram a vida da cidade

Duzentos operários, munidos de pás, picaretas e máquinas, encerraram de forma melancólica, em setembro de 1937, a trajetória de um dos mais luxuosos teatros que o Rio já viu. Mas a demolição do Theatro Casino - e do prédio vizinho, o Casino Beira-Mar - inaugurou também uma das mais misteriosas histórias da crônica cultural carioca.

Durante seus 11 anos de existência, o Theatro Casino e o Casino Beira-Mar, que ficavam nas extremidades do Passeio Público, no Centro, viveram altos e baixos. No apogeu, representaram uma época efervescente da vida da cidade, e abrigaram a cantora e dançarina americana Josephine Baker, bandas americanas de jazz, o pianista polonês Arthur Rubinstein, a cantora Carmen Miranda, os atores Procópio Ferreira e Paulo Gracindo, e o Teatro de Brinquedo dos atores Eugênia e Álvaro Moreyra - face modernista do teatro nacional. Também lançaram no país o gênero cabaré. Nos períodos de decadência, foram fechados.

A ascensão e queda das duas construções permaneceu esquecida até abril de 2004, quando, durante uma reforma no Passeio Público, foram descobertas as fundações do Casino Beira-Mar. A partir daí, a arquiteta Jane Santucci pesquisou o tema e recuperou uma história recheada de cenas glamourosas, episódios curiosos e pontos obscuros.

O Theatro Casino e o Casino Beira-Mar eram ligados por pérgulas e ficaram conhecidos como os pavilhões da esplanada do Passeio Público. Tudo começou durante as comemorações do centenário da Independência, em 1922, quando se planejou a construção de um restaurante destinado a recepcionar turistas da Exposição Internacional de arquitetura. Não deu tempo e a idéia desdobrou-se em dois prédios gêmeos, em estilo eclético.

Apesar dos nomes, não funcionavam como casa de jogo. Do lado esquerdo, ficava o Theatro Casino, batizado assim pelo escritor Coelho Neto. Com 500 lugares e três pavimentos, era freqüentado pela elite social e intelectual carioca. Como escreveu a "Revista da Semana", às vésperas da inauguração: "Vai o Rio ser dotado de uma sala de espetáculos na verdade digna dessa sociedade elegante e culta."

À sua direita, estava o Casino Beira-Mar. Seus salões funcionavam como casa noturna e serviam de palco de espetáculos internacionais. Virou ponto de encontro, freqüentado por "mulheres com seus vestidos de soirée cobertos de lantejoulas brilhantes e cabelos cortados à la garçonne", como diz Jane em "Os pavilhões do Passeio Público - Theatro Casino e Casino Beira-Mar" (Editora Casa da Palavra, R$25). O livro, fartamente ilustrado e com patrocínio da Secretaria municipal das Culturas, vai ser lançado hoje, às 19h30m, na livraria Dantes, no Cine Odeon - nas proximidades de onde ficavam os prédios.

A inauguração do Theatro Casino, em 18 de junho de 1926, com a peça "Sorte grande", de Bastos Tigre, encenada pela Companhia Jaime Costa, foi um acontecimento na vida carioca. "A nova casa se transformou na atração da cidade", escreve Jane. "Ambiente requintado, modernas instalações, um conjunto completo composto de um teatro sofisticado e com excelente acústica, disposto ao lado de salões luxuosos, abertos a terrasses de onde se podia vislumbrar a paisagem da Baía de Guanabara, ou, se voltados para o jardim centenário, a exuberante vegetação." O Casino Beira-Mar abriu no 31 de julho de 1926, com as dançarinas parisienses do Bat-Ta-Clan.

No ano seguinte, o Theatro foi adaptado e virou cinema. A MGM alugou o espaço para fazer pré-estréias. Foi um sucesso, mas depois o local mostrou-se inadequado para exibição de filmes, e, meses mais tarde, voltou a abrigar espetáculos. Seu ponto alto foi quando sediou o Teatro de Brinquedo. "Naquele momento havia a lacuna de um teatro que satisfizesse a classe média, evidenciando a necessidade de trazer gente de maior formação intelectual para as artes cênicas", detalha Jane. Era o teatro de vanguarda, que reuniu nomes como Di Cavalcanti, Lúcio Costa e Osvaldo Goeldi.

Paralelamente, no prédio ao lado, Renato Viana criava o projeto Caverna Mágica, que contou com o poeta Paschoal Carlos Magno e o ilustrador Roberto Rodrigues, irmão de Nelson. "No momento em que o gênero de revistas dominava a cena brasileira, o grupo apostava no teatro sério, pautado em textos literários", escreve Jane.

O auge do sucesso do Theatro aconteceu em 1933, com "Deus lhe pague", de Joracy Camargo, com Procópio Ferreira. Outro momento marcante se dá com o Teatro-Escola do teatrólogo Renato Vianna. Chancelado pelo presidente Getúlio Vargas, ele implantou sua idéia de renovação cênica e criação de um teatro brasileiro oficial. O Theatro tornou-se a sede do projeto, que estreou em 1934 com a peça "Sexo". No elenco, Itália Fausta, Jaime Costa e Zilka Salaberri, além da dançarina Eros Volúsia.

A peça, que tratava de temas como aborto e adultério, teve ótima repercussão de público, mas gerou reação dos moralistas. Houve protestos no Senado, passeatas e artigos furiosos de jornalistas. Vianna, com seu estilo centralizador, também criou atritos com a classe teatral. Alguns meses depois, a três dias da estréia de seu drama "Deus", ele recebeu intimação pedindo a desocupação imediata do imóvel, baseada em laudo técnico de que o prédio ameaçava desabar. Um decreto do prefeito dizia ainda que havia necessidade de resolver o congestionamento no tráfego de bondes, com o alargamento das vias do entorno do Passeio.

Durante os anos de 36 e 37, os dois prédios permaneceram abandonados, até que, às 14h de um sábado, os operários iniciaram a derrubada. A idéia era terminar o serviço logo, em 24 horas, usando picaretas. Mas, contrariando o laudo de que os prédios ameaçavam desabar, o Theatro Casino e o Casino Beira-Mar resistiram bravamente por cerca de três semanas. Foram necessárias várias cargas de dinamite para pô-los abaixo, numa demolição que o crítico Mario Nunes chamou de criminosa. Jane diz que não houve uma única causa, e sim uma soma de fatores, como o arrependimento do governo de entregar o teatro para Vianna, o fato de que na época as coisas do passado eram consideradas ultrapassadas e a visão dos modernistas de que a arquitetura eclética não tinha valor. Além disso, para o regime político em ascensão - no mês seguinte viria a ditadura do Estado Novo - era preciso acabar com os símbolos antigos.

- O Theatro Casino representava as idéias inovadoras e revolucionárias. Era necessário não deixar vestígios e mostrar que aquele era um novo momento - diz Jane. - Foi um ato extremamente arbitrário. Comente aqui:
Reportagem com livro sobre o escritor Antônio Maria

Biografia de Antônio Maria mostra ao leitor o outro lado do ringue - Marido opressor no livro de Danuza, ele reaparece com todas as suas facetas

É bem verdade que Antônio Maria andava com dor-de-cotovelo, mas não deixa de ser impiedosa a autocrítica que faz após a separação de Danuza Leão, em 1964: "Sou um mulato gordo. Quando tiro a roupa, a mulher sempre ri. Depois se acostuma, mas eu não agüento aquele primeiro riso novamente".

A falta de atributos físicos nunca o impediu de conquistar mulheres exuberantes - caso da própria Danuza. Apenas lhe dava mais trabalho, como quando se comparou a um amigo: "O Luís Carlos come a mulher com a cara. Eu, para uma mulher se interessar por mim, é preciso três horas de conversa até ela esquecer da minha cara."

O cronista reaparece de corpo e alma em "Um homem chamado Maria" (Editora Objetiva, R$32,90), do jornalista e escritor Joaquim Ferreira dos Santos. Na boate Vogue, conta Joaquim, os homens vestiam elegantes ternos do London Taylor¿s. Maria, que usava alpargatas e tinha o colarinho seboso, "vestia London Taylor¿s no papo".

Perfil fez justiça a um autor que andava esquecido

O livro foi lançado originalmente em 1996 pela Relume Dumará, na coleção Perfis do Rio, mas estava esgotado há um ano. Com o sucesso da autobiografia de Danuza, "Quase tudo" (Companhia das Letras), Joaquim achou que valia a pena atualizar o texto e reapresentar o personagem. O livro está com quase 50 páginas a mais, entre fotos inéditas e novas informações, recolhidas em depoimentos de parentes, em conversas com amigos do escritor, numa entrevista feita com Danuza e no diário que Maria escreveu em 1957.

Maria sai-se mal das páginas do livro de Danuza. Símbolo do homem que entendia as mulheres e que tão bem conhecia a alma feminina, ele aparece ali como vilão. Um marido opressivo e ciumento que transformou a vida a dois numa gaiola.

- Uma das graças deste livro de agora é que ele mostra o outro lado do ringue de um grande sucesso literário - conta Joaquim, que já tinha lançado duas coletâneas do cronista. - Danuza apresenta um Antônio Maria visto da intimidade do quarto. Eu trago a originalidade de um escritor genial. Se como marido ele não foi exatamente o melhor, lamenta-se a sorte da esposa, mas o grande escritor permanece acima de qualquer conflito conjugal.

Quando lançou o perfil de Maria, Joaquim fez justiça a um autor que andava esquecido desde sua morte, em 1964, aos 43 anos, vítima de enfarte. Era cardiopata e não se cuidava. Dizia-se "cardisplicente, isto é, homem que desdenha do próprio coração". O livro é a cara de Maria: uma bem dosada mistura de humor, melancolia e reflexão que envolve o leitor e o conduz a um saboroso passeio pelo Rio boêmio dos anos 50 e 60.

A biografia recupera um dos personagens mais queridos do Rio de seu tempo, dono de uma alegria exuberante, uma conversa sedutora, um papo irresistível e uma capacidade incomum de fazer amigos - e de depois brigar com eles. Estão lá o menino grande que fazia traquinagens e passava trotes, o homem da noite que batia ponto na Vogue, o repórter policial que perfilava os pés-de-chinelo da cidade e lhes dava grandeza, o workaholic que vivia às voltas com compromissos de trabalho, o profissional que se tornou o mais alto salário do rádio do país, o consultor sentimental que aplacava dúvidas dos leitores, o locutor esportivo que deixou para a posteridade a gravação do gol de Ghigia na Copa de 50, o tipo polêmico que adorava arrumar brigas pelo jornal e ao vivo, o autor de sambas-canções como "Ninguém me ama" e "Manhã de carnaval", o compositor de jingles e o pernambucano que, até firmar-se como cronista no Rio, passou fome, sofreu humilhações e foi preso.

Em relação à obra de 1996, o novo livro não mudou só de título - chamava-se "Noites de Copacabana". Ganhou também várias passagens. No capítulo "Danuza", Joaquim mostra a relação entre Maria - um pré-Shrek, com sua gordura, excesso de suor e falta de sofisticação - e um mito da sociedade carioca. O livro conta que os amigos ficaram enciumados com o recolhimento do escritor no período mais calmo de sua vida. Mas a relação se deteriorou e, segundo o livro, quem conviveu de perto com o casal ficou surpreso com as confissões de Danuza.

- O que eles criticam é ela ter valorizado os momentos ruins. O comportamento público mostrava um casal muito feliz, não havia pistas da infelicidade a dois.

Danuza seguiu para Paris, onde estavam o ex-marido, Samuel Wainer, e os filhos. "Encerrava-se uma impressionante história de amor. Maria não soube. Danuza também não colocou em seu livro. Uma semana depois de sair da casa da Fonte da Saudade, fugida em pânico, ela descobriu que estava grávida de Antônio Maria. Mas era tarde demais". Foi a forma elegante que Joaquim encontrou para tratar de um tema delicado: o aborto feito por Danuza.

Joaquim mostra como a fossa que tomou conta de Maria transbordou em crônicas amargas, sofridas, desesperadas. É com uma bela metáfora que ele faz um retrato do autor às vésperas da morte: "Naquele mês de outubro, que costuma dar os mais belos dias do ano, choveu tanto naquelas crônicas que dava a impressão de Maria, que tanto gostava de dirigir, ter embicado o Gordini rumo à Macondo de Gabriel García Márquez."
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Reportagem com as atrizes Íris Bruzzi e Carmen Verônica

Variações sobre a frescura - Ex-Certinhas do Lalau, Íris Bruzzi e Carmen Verônica brilham em 'Belíssima'

Ao telefone, a atriz Carmen Verônica sugere uns modelitos para usar nas fotos.- Estava pensando em levar uma calça preta, uma camisa com estamparia, um terninho verde-água e uma blusinha com babadinho branco - propõe. - São variações sobre a frescura.

Frescura é uma palavra muito apropriada para a atriz de gestos largos, voz marcante, jeito exagerado e um enorme óculos escuros com armação de oncinha.

- Carminha é um veado operado - brinca Íris Bruzzi, colega de novela e amiga da atriz desde os tempos das Cruzadas, como gosta de brincar Carmen.

"Não te contei, não?". Este era o bordão que Carmen usava num programa de humor dos anos 70. Nem é preciso contar que as duas estão roubando a cena na nova novela de Silvio de Abreu, "Belíssima", no papel das ex-vedetes Mary Montilla e Guida Guevara.

Íris chega para a entrevista com um poncho cobrindo o braço direito, quebrado em dois lugares, após uma queda num caixa eletrônico de um posto de gasolina.

- Não tenho crença nenhuma, mas ganhei da minha comadre Vera um galho enorme de arruda e botei num vaso lindo no meu quarto. Mal não faz, e tem um cheiro muito agradável - diz Íris. - Todo mundo fala que esse meu tombo é olho grande. Acho que o pessoal não imaginava que a gente ia agradar tanto.

Carmen mandou "um mimo" para Íris - flores - e diz que sua empregada, Aparecida, tem rezado "loucamente" pela recuperação da atriz.

- Estou tão zen, tão bem educada. Tem amigas que dizem: "Você está calminha, falando num tom de voz tão baixinho." Explico: "São os remédios para a dor" - graceja Íris.

O papo corre solto, as duas fazem graça, lembram de Carlos Machado e Walter Pinto, reis do teatro de revista, e trocam gentilezas - ao contrário de suas personagens na novela, que se alfinetam o tempo todo.

- Antes de ser atriz, tentei vários trabalhos e nenhum dava certo - lembra Íris.

Ela quis ser comissária, mas o problema é que tem horror de avião. Chegou a trabalhar na Companhia Federal de Abastecimento e Preços (Cofap), mas o emprego durou um mês: não recebeu e descobriu que queriam dela outra coisa. Arrumou vaga na sessão de perfumaria da loja Sloper, mas ficou metade de um dia.

- Sou muito ruim de conta. Tinha que fazer percentagem, tenho trauma disso até hoje. Falei para minha avó: "Ninguém me quer, vou para a praia."

Um dia, estava nas areias de Copacabana quando Colé e Nélia Paula, que iam estrelar a peça "Carrossel de 53", perguntaram se não queria trabalhar no teatro. Tinha saído pouco antes do colégio interno de freiras e não fazia idéia do que era. Achou que seria um teste de matemática. Na hora, pediram que botasse um biquíni, e o empresário Zilco Ribeiro perguntou "e aí?" ao coreógrafo Norbert Nardoni, que respondeu: "200%".

- Pensei na hora: "Não passei. É muita coisa, algo está errado" - diz ela, que, lembram-se?, tem trauma de porcentagem.

Logo foi convidada por Carlos Machado para trabalhar em shows. Fez também peças, várias novelas - entre elas "Pecado capital", onde contracenava com Pedro Paulo Rangel, a exemplo do que acontece em "Belíssima" - e 22 filmes, como "Amor estranho amor" e "As cariocas". Na TV, ela começou pelas mãos de Fábio Sabag, que a convidou para ser a princesa Griselda no Teatrinho Troll. A Bela Bruzzi, como era conhecida, foi durante dez anos Certinha do Lalau, como eram chamadas as mulheres eleitas por Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta.

- Eu era muito bonita - lembra Íris Bruzzi.

- Você não era, Bruzzete, você é - corrige a amiga.

Carmen, outra Certinha do Lalau por dez anos, foi igualmente descoberta na praia. Estava no Arpoador quando a convidaram para fazer um teste em um show de Carlos Machado. Falou com a mãe, que autorizou. Assim, com 16 para 17 anos, ela começou a trabalhar. Para driblar a fiscalização, aumentou a idade na carteira.

- Tenho a minha carteira falsa guardada até hoje. Não mostro para ninguém porque estou mais velha do que na realidade sou - diz ela, de 72 anos, que trabalhou em programas como "Noite de gala", "Praça da alegria", "A Família Trapo" e "Show 73", de que também fazia parte Íris.

À época, parte da família enviezou o nariz para Carmen.

- Mas depois desenviezou. E hoje é aquele prazer, aquele orgulho em dizer: "É minha parente". Mas naquele tempo havia preconceito muito grande contra os artistas. A classe era vista como pior que Aids para contaminar. As mulheres eram encaradas como vagabundas que não mereciam o mínimo de respeito - lembra ela, que só fez uma peça de teatro de revista, "Doll face", de Mário Meira Guimarães.

Da época do teatro, as duas herdaram o profissionalismo.

- Trabalhava-se muito, eram 14 sessões por semana - diz Íris. - Você vê que eu, aos 70 anos, toda quebrada, com o úmero estilhaçado, estou aqui fazendo uma reportagem. Caí na sexta-feira, fiquei no hospital das 21h às 2h, e no sábado já estava gravando. Essa disciplina a gente traz do teatro. Ele dá responsabilidade de horário, de ensaio, de representação, de respeito aos colegas.

Elas festejam o atual sucesso:

- Pena que eu espere tanto tempo para trabalhar com o Silvio - diz Carmen, que antes fez "Deus nos acuda". - Não tem o cometa de Halley? O meu é o cometa Silvio de Abreu, que passa pela minha vida de 12 em 12 anos. Só não sei se vou estar inteira na próxima novela.

Na vida pessoal, as duas têm trajetórias bem distintas.

- A Carminha é a coisa mais tradicional que existe. Eu sou mais diversificada - diz Íris.

Ela foi casada três vezes. Primeiro com Walter Pinto, depois com o ator e arquiteto Nelson Caruso e, por fim, com Jorge Dória.

- Uma vez perguntaram quantos maridos eu tive. Respondi: "Maridos, três. Entretenimentos, muitos."

Carmen é casada com um empresário francês que conheceu nos tempos de Carlos Machado.

- Eu nasci casada - brinca ela, autora de frases irreverentes como: "A bunda cai, mas o talento fica."

Chegou a hora de Carmen ser maquiada para as fotos. Mal se senta em frente ao espelho e ela leva um susto. Todos ficam preocupados, achando que se machucou. Mas a atriz abre um largo sorriso e diz:

- Assustei-me com a minha cara. Quero uma maquiagem que me faça passar de bruxinha a boneca.

Algum tempo depois, as duas estão prontas para a sessão de fotos. Íris não resiste e brinca:

- Vou quebrar outro braço depois dessa reportagem.

Autor penou para encontrar Íris Bruzzi - Atriz vivia na Flórida quando foi chamada para atuar na novela

Silvio de Abreu criou as personagens Mary Montilla e Guida Guevara e, após convidar Carmen Verônica, perguntou a ela: "Quem você sugere para viver a Guida?". Carmen falou: "Ué, e a Íris Bruzzi?". O autor explicou que procuraram a atriz, mas não a encontraram. É que Íris estava na Flórida.

- Não estava fazendo nada, então fui para lá - conta Íris.

O filho Marcelo tinha sido eleito deputado e vice-prefeito de Tampa Bay. Mas a atriz não se acostumou à região.

- Achei muito chato. Não gosto de sol, de carro conversível. E gosto de dormir às 5h, enquanto o povo de lá se deita às 21h. Tinha grilinho cantando, sapinho coaxando. Odeio isso. A Flórida não é para mim - conta Íris, que, após muita procura, foi encontrada, para felicidade de telespectadores, Silvio e Carmen. - Silvio me ligou e perguntou: "E aí, você topa?". Falei: "Estou embarcando".

- Ainda bem que ele te encontrou. Se fosse outra atriz, não seria esse acidente assim, seria um empurrão meu - brinca Carmen, referindo-se ao braço de Íris.

Antes da Flórida, Íris morou dez anos em Nova York:

- Eu alugava e montava apartamentos. Aluguei para 25 mil pessoas, a maioria brasileiros. Mas, com a chegada do Bin Laden, o negócio acabou. Ninguém ia mais. Fiquei com 11 apartamentos vazios durante dez meses.
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Reportagem com livro sobre o Rio

Geografia literária do Rio - Antologia reúne textos ficcionais que têm a cidade como cenário

2005 foi o ano das antologias. Quer conhecer a "voz" da periferia? Cate nas estantes o livro "Literatura marginal". Procura uma compilação de textos femininos? Folheie "25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira". Está entediado? Leia "Veneno antimonotonia". Busca histórias policiais brasileiras? Consulte "Crime feito em casa". Há outros exemplos recém-chegados às livrarias, como "A visita", "Tarja preta", "Contos sobre tela" e a série "Contos para ler...".

Natural que o ano se encerre com o lançamento de uma nova antologia, "Rio literário - Um guia apaixonado da cidade do Rio de Janeiro" (Casa da Palavra, R$ 52), que reúne 33 textos produzidos por 29 escritores entre 1960 e 2005, entre eles Rubem Fonseca, Ferreira Gullar e Antônio Torres. O livro, que será lançado terça-feira, às 19h30m, no Rio Scenarium, é ilustrado por 71 fotos de Bruno Veiga.

Em se tratando de Rio, o caminho óbvio seria recorrer à crônica, expressão literária mais identificada com a cidade. Mas Beatriz Resende, organizadora do livro, percebeu que o Rio das crônicas já é por demais conhecido. Além disso, é um gênero que identifica e detalha demais os espaços, quando a idéia era traçar não só a geografia física como também a cartografia sentimental e afetiva da cidade.

Beatriz abriu mão dos atalhos literários e reuniu poemas, contos e trechos de romances que, juntos, esboçam uma espécie de "biografia" do Rio - uma das muitas possíveis. A única crônica do livro é a que abre a antologia. Num trecho de "Estado da Guanabara", Vinicius de Moraes brinca com a fama de bon vivant que acompanha o morador da cidade: "Que outra criatura no mundo acorda para a labuta diária como um carioca? Até que a mãe, a irmã, a empregada ou o amigo o tirem de seu plúmbeo letargo, três edifícios são erguidos em São Paulo."

Ao mesmo tempo hospitaleira e hostil, tolerante e áspera, envolvente e traidora, graciosa e vulgar, a cidade do Rio, diz Beatriz, "apresenta-se inevitavelmente como espaço percebido numa relação amorosa". Nesta espécie de guia de viagem literário, o leitor encontra referências explícitas a bairros e alusões mais sutis à geografia carioca. No primeiro caso, estão, por exemplo, o Largo do Machado e o Catete, que ganham ruas e detalhes em trecho de "Um crime delicado", de Sérgio Sant¿Anna. Mas há instantes em que se dispensam nomes, como faz Antonio Cicero, que fala do museu e do aeroporto em "O parque", numa menção ao MAM, ao Santos Dumont e ao Aterro do Flamengo.

Os 25 anos que separam o primeiro texto - de Vinicius - do último - "Sexta-feira de cinzas", de Marcelo Moutinho - estão visíveis no livro com o desaparecimento do Estado da Guanabara, a transformação da Confeitaria Colombo da Rua Barão de Ipanema em agência do Banco do Brasil, a mudança de Rua Montenegro para Vinicius de Moraes e o fim do Cinema Miramar. Um Rio que também vai se perdendo está em "Carioca da gema", de João Antônio, dos anos 70, que traz uma visão hoje idealizada dos morros: "Gosto de lembrar aos sabidos, perdedores de tempo e que jogam conversa fora, que o lugar mais alegre do Rio é a favela. É onde mais se canta no Rio."

Beatriz optou também por uma escolha arriscada: incluir na seleção um punhado de autores novos.

- Quis pôr um olhar sobre a cidade que não fosse nostálgico. O livro traz uma fruição inédita, um olhar mais fresco que é difícil de achar em escritores mais consagrados - explica Beatriz, professora da Uni-Rio, pesquisadora da UFRJ e organizadora do livro "Cronistas do Rio". - E os trechos selecionados fazem com que "Rio literário" funcione como aperitivo para o leitor conhecer seus autores.

Diário da cidade ilustrado por polaróides - Fotógrafo evitou caminho documental e fez 71 imagens que complementam os 33 textos de 29 escritores

Coerente com o espírito do livro "Rio literário", o fotógrafo Bruno Veiga não seguiu o caminho documental e evitou fazer uma crônica fotográfica. Durante dois meses e meio, ele percorreu a cidade e fez as 71 fotos que acompanham os textos.

- Tentei achar as referências citadas pelos autores, mas sem ser literal e explícito. Em vez de reafirmar o texto, tentava às vezes dar uma informação complementar - diz.

Para ilustrar o trecho de "Cidade de Deus", de Paulo Lins, ele fotografou um Cristo negro no cemitério São João Batista. No caso de "O crime da Gávea", de Marcílio Moraes, o narrador vê a cara de uma baleia branca numa rocha. Veiga lembrou-se de uma firma de manutenção de piscinas que tem como marca uma baleia, e, pronto, achou sua foto. As imagens foram feitas com uma polaróide, máquina que casava bem com o projeto de Beatriz Resende.

- Ela remete ao passado e está no imaginário de cada um. O livro é como se fosse um grande diário da cidade, e as polaróides são as imagens que ilustram essas narrativas pessoais - diz ele, que critica a imposição das digitais nos dias de hoje. - Virou obrigação usar digital. Não é assim, depende do caso.

Também era mais seguro circular pelos buracos da cidade com uma câmera antiga.

- Visitei desde a Favela Rio das Pedras até o Mirante das Canoas, às 19h. Andei muito pela cidade e não fui assaltado.

Há momentos no livro em que o Rio surge escancarado, como em "Na boca do túnel", de Sérgio Sant¿Anna, que fala de São Cristóvão, "com sua tonalidade cinza, suas pequenas indústrias, oficinas mecânicas, lojas de autopeças, a Feira dos Nordestinos, o Pavilhão de Exposições".

Em outros instantes, o cenário torna-se mais vago, como no trecho de "A escola da noite", de Rubens Figueiredo, passado numa região barra-pesada da cidade: "Não se tratava propriamente de uma favela, pois os alunos e professores davam esse nome a algo que começava do outro lado de um canal, que corria em uma vala a uns duzentos metros da escola".

A feitura do livro propiciou descobertas para Beatriz.

- Descobri que alguns autores são bastante obcecados pelo Rio e a gente não via isso.

É o caso de Clarice Lispector, que aparece com dois textos. Outra surpresa foi Copacabana. Já se esperava a presença maciça do bairro na literatura, mas Beatriz espantou-se ao perceber que essa assiduidade se estende à produção recente.

- Achava que ia parar nos anos 70, mas não. Copacabana é meio como uma Manhattan brasileira.

A certa altura, ela teve que parar de selecionar fragmentos que falavam do bairro. Foi o que aconteceu com o romance "De cada amor tu herdarás só o cinismo", de Arthur Dapieve. Em vez de retirar um trecho passado em Copacabana, Beatriz escolheu um pedaço do livro ambientado na Rua Almirante Alexandrino, em Santa Teresa, durante a passagem do Bloco das Carmelitas.

Há várias leituras de Copacabana em "Rio literário".

- Contrabalanço, por exemplo, a Copacabana de Sônia Coutinho, que é o espaço da solidão, com a de João Paulo Cuenca, muito povoada.

Eis aí a cidade ficcional traçada pela escrita dos autores: contraditória, multifacetada, celebrada e rejeitada, sedutora e movediça, mas tendo em comum a capacidade de produzir as reações mais apaixonadas.
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Reportagem sobre filme com Betinho, Henfil e Chico Mário


A volta de Henfil e seus irmãos - Documentário refaz trajetórias do cartunista, de Betinho e Chico Mário

A vida de Henfil, Betinho e Chico Mário bem poderia ser uma ópera, como nota o compositor Fernando Brant. Mas acabou no cinema. Hoje, dia em que Betinho completaria 70 anos, a diretora Ângela Patrícia Reiniger exibe em pré-estréia para convidados, no Odeon, um documentário que conta, em 1h45m, a saga de três irmãos que nascem hemofílicos, morrem vítimas do vírus da Aids, mas, nesse intervalo, constroem uma vida intensa e admirável. É a primeira exibição pública do filme, que levou cinco anos para ficar pronto. No mesmo dia, será lançado o livro "Um abraço, Betinho", de Dulce Pandolfi e Luciana Heymann.

No filme "3 irmãos de sangue", a fisioterapeuta de Henfil diz: com a hemofilia você transforma sua vida ou num lamento ou numa apoteose. Os três fizeram a segunda opção. A doença incurável cria uma urgência que, somada ao talento individual e à indignação com a injustiça herdada da mãe, dona Maria, resulta em três figuras marcantes.

No filme, que só estréia em circuito ano que vem, Ângela entrelaça a vida dos três à do país, recuperando episódios como a Anistia e o "Diretas Já".

- O Brasil é quase como um quarto personagem - diz ela, que faz sua estréia no cinema.

As trajetórias de Betinho, com sua lucidez, de Henfil, com seu traço transgressor, e de Chico Mário, com sua luta pioneira na música independente, são costuradas através de imagens de arquivo e de depoimentos de amigos e parentes.

- Durante a montagem, eu me pegava falando: "Não posso me emocionar mais com isso, já vi cinco vezes." E ainda assim me emocionava - diz Ângela.

A grandiosidade e o drama da vida do cartunista, do sociólogo e do músico são contados em três blocos. No primeiro, "Origem", vê-se que, dos 16 filhos de dona Maria e seu Henrique, somente oito sobreviveram - cinco mulheres e três homens: Henfil, Betinho e Chico.

O segundo bloco - "Sangue verde-e-amarelo" - mostra a profunda identificação da família com o Brasil, a ponto de, no aniversário de 80 anos de dona Maria, o "Parabéns pra você" ter sido substituído pelo Hino Nacional.

O último bloco - "Aids" - lembra como a doença, contraída em transfusões de sangue, abreviou a vida dos três: Chico Mário morreu com 39 anos, Henfil, com 43, e Betinho, com 61.

A história do filme remonta a 2000, quando Marcos Souza, filho de Chico, teve a idéia e procurou a produtora No Ar, que produzia o "Mãe e cia." (GNT) e produz o "Programa especial" (TVE). As filmagens só começaram no início deste ano.

O filme mostra a militância irreverente de Henfil, relembra seu talento para criar tipos - da Graúna ao Baixim - e recupera episódios como a criação da frase "Diretas Já", durante entrevista com o senador Teotônio Vilela no "Pasquim".

Na tela, vê-se a transformação de Betinho, o "irmão de Henfil" na canção "O bêbado e a equilibrista", em referência na vida pública brasileira. Ângela conta que, um dia, o faxineiro entrou na sala de edição, viu a imagem do sociólogo e disse, cheio de intimidade: "Meu amigo!". A fragilidade física contrastava com a força de vontade do criador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia) e da Ação da Cidadania contra a Miséria, a Fome e pela Vida.

O filme exibe o talento ainda pouco conhecido de Chico Mário. Num belo trecho, Ângela alterna imagens antigas de Chico cantando num show a música "Andaime" com cenas atuais de Ivan Lins ouvindo a canção. De olhos fechados, ele não resiste e cai no choro. Em outro momento, após a morte do irmão, Betinho conta: "Chico me disse que queria viver até a última gota." Como de fato viveram os três filhos de dona Maria.
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Reportagem com Cauby Peixoto e Diogo Vilela

Nos bastidores, com Cauby - Diogo Vilela prepara-se para interpretar o cantor em musical escrito e dirigido por Flávio Marinho

Tarde dessas, o telefone tocou na casa do ator Diogo Vilela. Do outro lado da linha, uma voz inconfundível começou a cantar a música "The man that got away", do filme "Nasce uma estrela".- Fiquei superemocionado - diz Vilela. - Era Cauby Peixoto cantando Judy Garland para mim. Ele viu um show dela ao vivo, no Palace. Todo mundo chorou, inclusive ele.

Os dois têm descoberto afinidades, como a admiração pela atriz e cantora americana. O convívio, que nunca foi próximo - "Acho que só tínhamos nos encontrado uma vez", diz Vilela - tornou-se mais intenso nos últimos tempos, desde que o ator resolveu interpretar o cantor num musical escrito e dirigido por Flávio Marinho.

Vilela perdeu a conta dos shows de Cauby que tem visto. No sábado retrasado, lá estava ele de novo, dessa vez no Teatro Rival, ouvindo canções como "Bastidores", "Conceição", "My way", "Madalena", "Vou te contar" e "Garota de Ipanema" na voz de um dos maiores intérpretes da História do país.

Antes do show, os dois trocaram amabilidades.

- Cauby vai ser o primeiro a ver o espetáculo. Tenho a intuição de que ele vai ser conivente com muita coisa que achei. Só espero que ele não diga: "Não gostei de nada!" - brinca o ator, que vai usar um salto para crescer do 1,75m para o 1,86m do cantor.

Cauby observa Vilela falar, pousa a mão em seu ombro e diz, em tom de aprovação:

- Ele é sério. Alguns comediantes já tentaram me imitar. Eles exageram um pouco, fazem muitos trejeitos. Não sou isso. Canto com nuances, o grande valor que tenho é a voz.

O show está para começar, o público lota o teatro, e, nos bastidores, os dois trocam impressões sobre o musical. Cauby canta uma música, sob o olhar atento de Vilela:

- Ai, que lindo! Ele coloca a alma na voz - diz o ator. - O espetáculo é uma homenagem a Cauby. Não é para mostrar que eu canto. Quero destacar o que ele representa no nosso imaginário.

- Isso me envaidece muito - devolve o cantor.

Montagem vai mostrar época de Cauby como Ron Coby

No musical, o Cauby vivido por Vilela é entrevistado por um jovem jornalista, mas afeito a Pitty que aos ídolos da Era do Rádio. À medida que o papo se desenrola, a vida de Cauby vai sendo contada - e cantada - em cena. O passado entra no presente, e surgem nomes como Maysa, Ângela Maria, Emilinha, Paulo Gracindo e Dalva de Oliveira. A montagem vai mostrar também a época em que ele excursionou pelos Estados Unidos, quando usava um nome americanizado e foi chamado de "Elvis Presley brasileiro".

- Apareço de Ron Coby na peça - anuncia Vilela.

- É? - surpreende-se Cauby, antes de abrir um largo sorriso no rosto e apertar a mão do ator.

Vilela acredita que Cauby poderia ter reconhecimento internacional, se não fosse o português.

- Cauby me disse, a respeito da ida aos EUA: "Eu não deveria ter voltado." Nossa linguagem nos limita profundamente. É a frustração dos trópicos. E o musical tem uma melancolia, que traduz muito a alma de um artista.

O espetáculo vai se chamar "Cauby - O musical".

- Senão vai aparecer gente perguntando: "Cadê o Cauby? Quem é esse cara aí cantando?". Vão jogar tomate em mim - diverte-se Vilela.

Mas ele tem consciência do desafio que é levar aos palcos alguém com a voz de Cauby.

- Quando falei do projeto, disseram: "Você é louco." Depois que decidi fazer, fiquei sem dormir, com azia, achando que não iria dar certo. Mas não pretendo imitá-lo, não é um musical realista.

De qualquer forma, o ator tem tido aulas de canto três vezes por semana com o professor Victor Prochet.

- Canto todo o repertório de Cauby nas aulas. E, antes de optar por esse sonho, fui analisado pelo Victor, por sua mulher, Lauricy, e pela (musicista) Liliane Secco. Cantei para eles e fui aprovado. Tenho afinação e extensão vocal. E minha voz tem semelhança de tom com a dele.

Vilela tem visto Cauby no palco "para senti-lo, não para estudá-lo":

- É uma osmose da minha parte.

Flávio Marinho usou como base para o texto o livro "O astro da canção", de Rodrigo Faour. Ele e Vilela optaram por não explorar a vida pessoal do cantor.

- Nós nos expomos mais cantando ou interpretando do que falando coisas pessoais - diz Vilela. - E você não imagina Cauby fora do camarim, na rua, esperando ônibus, fazendo coisas cotidianas.

O que tiver de íntimo tem a ver com a figura pública de Cauby, como uma frase dita pelo cantor a Vilela: "A vida toda fiz as minhas plásticas para o meu público, mas hoje eu vejo que o que as fãs queriam era a minha voz."

O projeto já tem autor, diretor, elenco e equipe técnica - o cenário, por exemplo, será de Daniela Thomas. Vilela tem corrido agora atrás de patrocínio.

- Para o musical existir, são precisos dez atores e cinco músicos. Não posso fazer um espetáculo sobre o glamour em frangalhos - diz ele, que foi procurado por uma produtora interessada em fazer um filme sobre o cantor.

Cauby aprova e anuncia outra novidade:

- Depois da peça, vamos fazer um show juntos.

Ator diz que Cauby tem teatralidade inerente - Idéia de montar espetáculo sobre a vida do cantor veio depois que Diogo Vilela viu entrevista na televisão

A idéia de levar a vida de Cauby Peixoto aos palcos surgiu durante a montagem da peça "Tio Vânia".

- As pessoas iam ver, depois tocavam no meu ombro e falavam: "Você está ótimo. Mas por que você só faz drama se você é comediante?" - diz Vilela.

Nessa época, o ator viu uma entrevista do cantor na TV.

- Identifiquei-me com a sinceridade e a delicadeza dele. E ele vive para cantar, assim como também sou casado com a interpretação - diz Vilela, ator há 35 de seus 47 anos. - Falei: "Tenho que fazer a vida dele." Ele tem uma teatralidade inerente. Então, temos que botar essa figura no teatro. Fui procurá-lo e ele me recebeu bem.

Cauby diz que é a primeira vez que o procuram para fazer um musical sobre sua vida. E está empolgado com a idéia.

- Diogo vai fazer a alma de um artista brasileiro.

Sábado retrasado, durante o show no Teatro Rival, o cantor dirigiu-se do palco a Vilela, que estava na platéia: "Diogo, faça um Cauby do outro mundo!".

Pelos planos de Vilela, o musical será encenado no meio de 2006. Atualmente, ele está no cinema no filme "O coronel e o lobisomem", de Maurício Farias, que já foi visto por quase 450 mil espectadores, e vai gravar um especial de fim de ano para a TV Globo: "Toma lá, dá cá", com Miguel Falabella, Débora Bloch e Adriana Esteves.

O ator conta que costuma ser abordado por fãs desejosos de saber seus planos. Quando diz que vai fazer um musical sobre Cauby, ouve: "Onde? Quando? Já está vendendo ingresso?".

- As pessoas ficam muito açodadas - diz, pouco antes de ser abordado no show por uma senhora perguntando justamente o que vai fazer em seguida.

Vilela fala que vai montar um musical sobre Cauby em 2006, e a mulher lamenta:

- Ah, mas não vai ser este ano, não? Puxa...
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Reportagem com o diretor Ruy Guerra

Língua e olhar afiados - Cineasta de prestígio, Ruy Guerra atira farpas nos festivais e colegas de profissão

Bloquinho na mão, a mocinha de seus 13 anos se aproximou do cineasta Ruy Guerra e perguntou:

- Você é famoso?

- Não, não sou.

Diante da negativa, ela se afastou e foi buscar autógrafo em outra freguesia. Aconteceu no Festival de Gramado, uns seis anos atrás. Ao contrário do que disse à garota, Guerra é famoso, tem seu nome ligado à história do cinema brasileiro desde "Os cafajestes", de 1962, e "Os fuzis", de 1964, mas não suporta aquele burburinho típico dos festivais de cinema.

- Gramado virou um evento social. Detesto Cannes, detesto aquela feira. Todos os festivais estão caminhando para isso - diz. - Eles deveriam ser uma espécie de prospecção de experiências cinematográficas, mas viraram vitrines comerciais. E o público não é de cinéfilos, é de turismo.

Aos 74 anos, recém-completados, Guerra conserva a língua afiada e a vitalidade. Seu novo filme, "O veneno da madrugada", baseado no livro de Gabriel García Márquez, estréia dia 25 de novembro - antes, participa da competição dos festivais de San Sebastian, Biarritz e Brasília.

Guerra já escreveu 40 páginas e seis canções do musical que está fazendo sobre Dom Quixote, a convite do diretor Ernesto Piccolo. As letras serão musicadas por Lenine.

- É um cordel, tem umas travessuras no meio - antecipa.

Além disso, está retomando um projeto antigo, a adaptação cinematográfica do livro "Quase memória", de Carlos Heitor Cony, que deverá ter José Wilker no papel principal. Também vai buscar patrocínio para "O tempo à faca", filme com idéia original sua e roteiro da ex-mulher Luciana Mazzotti. É a história de uma vingança, passada no Nordeste.

- Tenho vontade de rodar em preto-e-branco. Mas se meus filmes já são para gueto, daqui a pouco vou fazer para dez espectadores - faz a auto-ironia Guerra, que ainda dá aulas de linguagem cinematográfica na Gama Filho e trabalhou como ator em "Casa de areia", de Andrucha Waddington.

O ano que vem também promete ser movimentado. Guerra quer escrever o livro "A ciência e a malandragem do plano-seqüência" - que está no primeiro capítulo.

"O veneno da madrugada", uma co-produção Brasil, Argentina e Portugal, é a quarta adaptação que ele faz de um livro de García Márquez - depois de "Erêndira", "A fábula da Bela Palomera" e "Me alugo para sonhar". É a história de um tenente incorruptível que é designado prefeito de uma pequena cidade onde todo mundo é corrupto, num país que vive uma guerrilha. Gabo, como o escritor é conhecido, nem sequer viu o roteiro.

- Ele só vai ver o filme agora, já pronto. Gabo sabe que cinema é uma coisa e obra literária, outra - diz o diretor, com seu inseparável charuto, em sua casa no alto do Jardim Botânico, onde sopra uma brisa nos fins de tarde. - Não digo que é o último filme que fazemos juntos, porque achei que o terceiro seria. E este livro dele, "Memórias de minhas putas tristes", é lindo.

A exemplo de "Estorvo", há um anão, personagem vivido por Fabiano Costa.

- Ele é fantástico. Fiz teste com uns 40 atores e todos eles interpretavam o personagem de anão. Fabiano se comporta como se tivesse 1,80m. Adoro anões. Tenho ternura por eles. Não gosto de trabalhar com crianças no cinema. Abaixo de 1,20m, só anão - ri.

A preferência não tem a ver com a baixa estatura que ele tinha quando adolescente, época em que media apenas 1,31m. Seu pai, preocupado, organizou uma junta médica que resolveu aplicar injeções de crescimento no menino.

- Felizmente um primo médico impediu o tratamento. Poderia dar gigantismo e debilidade mental - diz ele, que acabou crescendo naturalmente até 1,70m. - Quando eu escrever minhas memórias, o título será: "Eu já fui anão."

A amizade com Gabo vem de 1972, quando se conheceram em Barcelona. Viam-se todo dia e o escritor chegou a escrever uma crônica onde contava que ele botava uma garrafa de uísque de um lado da sala, outra de outro, e os dois só saíam depois que dessem conta das duas.

- Tem um pouco de mito - diverte-se ele, que comenta a dobradinha: - Uma vez ele escreveu que a pessoa com quem mais gosta de trabalhar sou eu porque não o considero como García Márquez quando estou trabalhando. Eu o questiono, não mitifico. As pessoas trabalham muito respeitosamente com ele.

Com Mario Vargas Llosa as relações são mais conflituosas. Os dois trabalharam juntos diariamente, durante três meses, no roteiro de um filme sobre Canudos, que acabou não saindo. Anos depois, o peruano lançou "A guerra do fim do mundo". Guerra diz que o escritor roubou a idéia, os personagens, as histórias e as situações e transformou na primeira parte de seu livro. No último Festival de San Sebastian, os dois estiveram presentes.

- Deixei de ir no Guggenheim de Bilbao porque teria que ir na van com ele.

Certa vez, o ator Gérard Depardieu criticou Guerra por não fazer filmes mais comprometidos com a realidade brasileira. O diretor explica que o problema é financeiro.

- No teatro, é a mesma coisa, com raras exceções o pessoal só faz comédia. É muito difícil encontrar financiamento para filmes que saiam dessa corrente.

Ele não gostou da declaração de Depardieu.

- Irritou-me, porque ele é um excelente ator, mas faz muita porcaria. Não sinto nenhuma autoridade para ele dizer isso. Se transmitisse essa postura crítica no cinema, tudo bem.

Guerra não gosta do que chama de cinema asséptico - prefere suor e sujeira. Em "O veneno da madrugada", seu 15º filme, que tem no elenco Leonardo Medeiros, Juliana Carneiro da Cunha, Fábio Sabag e Tonico Pereira, chove do princípio ao fim.

- É um filme muito escuro, que tem muita lama.

Não por casualidade, um dos filmes de que ele mais gostou nos últimos tempos foi o documentário "Estamira", de Marcos Prado, sobre uma mulher que tira seu sustento do lixão.

- É um documentário muito bonito. Ele embeleza um pouco, mas o personagem é fantástico e se sobrepuja a isso.

O cineasta não gosta quando o embelezamento se confronta com a realidade. Daí sua resistência a "Cidade de Deus" e "Central do Brasil".

- A câmera tem sempre uma ideologia. No caso de "Cidade de Deus", você tem imagens marcadas por uma estética que vai contra a temática do filme - diz. - A temática é marginal e a estética tem a marca consumista do videoclipe, que é um material de venda. Há uma busca por uma estética que não bate com a temática do filme. Mas o garoto (Fernando Meirelles) tem talento, não é isso que está em questão.

No caso de "Central do Brasil", ele acha um produto para exportação e vê contradição parecida.

- Quando o filme entra Brasil adentro, teria que ser uma estética suja. A câmera tem que colar com a realidade.

Guerra não viu o novo filme de Walter Salles, "Água negra", mas não entende as razões que levaram o diretor a trabalhar em Hollywood.

- Tem um certo deslumbramento filmar nos Estados Unidos - diz o diretor, que aponta uma vantagem em trabalhar no Brasil: - Não há liberdade para fazer este filme que eu fiz nos Estados Unidos. Aqui, pode-se fazer coisas contra a corrente e lá você é obrigado a se moldar.

Exatamente o que Guerra sempre evitou.
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Reportagem sobre filmes baseados na ditadura militar

Tirando o capuz - Os anos de chumbo da ditadura militar ressurgem em 14 filmes

Os guerrilheiros estão saindo da clandestinidade. Depois de chegarem ao poder, os ex-militantes de esquerda começam a ocupar uma nova trincheira: o cinema. Com exceção de uns poucos filmes, como "Pra frente Brasil", "O bom burguês", "Ação entre amigos", "Lamarca" e "O que é isso, companheiro?", os 21 anos de regime militar passaram quase em branco nas telas. Agora, 14 cineastas voltam suas lentes para o tema. Dois filmes já foram lançados: "Quase dois irmãos" e "Cabra-cega". Outros quatro estão prontos. Seis estão na fase de filmagem ou sendo montados. E dois esperam patrocínio.

- Este período é um manancial fantástico para o cinema - diz Silvio Da-Rin, que está rodando o documentário "Hércules 2456", nome do avião que levou os 15 presos políticos trocados pelo embaixador americano em 1969.

E é mesmo, a julgar pela variedade de abordagens, que mostram dos porões da tortura à Guerrilha do Araguaia.

- O que dá vida a essa safra que começa a sair agora é que se está conseguindo falar sem caricatura ideológica - diz Renato Tapajós, que vai filmar "Corte seco". - Após o fim da ditadura, houve um grande trabalho de desinformação que transformou os militantes em estudantes festivos e abobalhados ou em terroristas internacionais que fizeram curso na China ou em Cuba. Esta visão simplista contaminou o que se produziu a respeito, e o clímax disso é "O que é isso, companheiro?" (filme de Bruno Barreto).

Os anos de chumbo chegam às telas em parte a reboque da eleição de Lula.

- A eleição de um governo popular encorajou muita gente a buscar esses temas - diz Ronaldo Duque, diretor de "Araguaya - A conspiração do silêncio". - Este governo, que hoje atravessa um período triste e obscuro, abriu corações e mentes para esse assunto.

E os cofres também.

- A chegada do PT ao poder deu condições financeiras para isso - diz Roberto Mader, diretor de "Operação Condor", que teve patrocínio da Petrobras e da Fundação Ford.

Mas há outras explicações.

- Hoje, não há mais o risco de ser considerado revanchismo falar no tema - conta João Batista de Andrade, diretor de "Vlado, 30 anos depois".

O tempo também cicatrizou um pouco as feridas provocadas pela repressão.

- As pessoas estão mais à vontade para falar no assunto, de todos os lados. O período está longe o suficiente para se ter uma visão mais reflexiva, mas perto o bastante para ter como lição importantíssima de ser aprendida - diz Mader. - E a distância permitiu que os arquivos da época começassem a ser abertos.

O filme mostra a colaboração entre os regimes ditatoriais do Cone Sul, com enfoque nas pessoas envolvidas. Mader conseguiu cenas inéditas de repressão e entrevistou até o general Contreras, ex-chefe da polícia secreta de Pinochet.

- O distanciamento histórico permite que hoje se fale com muito mais liberdade e clareza - concorda Helvécio Ratton, diretor de "Batismo de sangue".

Se a ditadura militar, que começou em 1964, tornou-se uma passagem desbotada na memória das novas gerações, como canta Chico, será que haverá público para os filmes?

- Já passamos em 14 cidades e na platéia tem desde jovens de 16 anos a senhores de 70 - diz Duque. - Em Florianópolis, havia mil pessoas no cinema e 500 do lado de fora.

- Como tem interesse! - completa o vereador Leopoldo Paulino, autor do livro que inspira "Tempo de resistência", de André Ristum. - Temos viajado com o filme e tem escola onde fico duas horas respondendo a perguntas.

Os diretores descartam o risco de saturação e lembram o exemplo dos EUA.

- Os americanos fizeram 600 filmes sobre a Guerra do Vietnã e transformaram sua História, a conquista do Oeste, num gênero cinematográfico, o western - compara Sérgio Rezende, que vai filmar "Angel".

- Quanto mais revisitado for esse período obscuro da nossa História melhor - diz Marcelo Santiago, de "O balé da utopia".

Militantes entram em cena, sem estereótipos - Filmes de ficção e documentários de 14 cineastas apresentam diferentes abordagens da luta contra o regime militar

Nos últimos anos, o cinema abriu espaço para o movimento - como é chamado o tráfico de drogas. Filmes como "Cidade de Deus", "Carandiru" e "O invasor" trouxeram a periferia para as telas. Agora, outro movimento - a esquerda que lutou contra a ditadura - dá as caras.

- Mas sem o estereótipo dos militantes como inocentes úteis ou aventureiros porra-loucas - frisa Silvio Da-Rin.

Em "Hércules 2456", ele vai entrevistar os presos políticos - entre eles José Dirceu - trocados pelo embaixador americano. Dos 15, nove estão vivos.

- Eles vão falar sobre suas motivações, repensar a luta armada, lembrar o vôo - diz ele, que ficou preso por oito meses durante a ditadura.

Patrícia Morán preferiu outro recorte. Em "Clandestinos", ela vai ouvir os que largaram a vida pública. A idéia surgiu quando, na faculdade de história, percebeu um descompasso entre os relatos heróicos que ouvia da guerrilha e o mal-estar que percebia nos ex-militantes.

- Vi que há uma tristeza muito grande, uma falta de rumo.

O filme discute temas como liberdade, direito de ir e vir, e identidade.

- Há uma perda de identidade, porque a pessoa passa a ter diversos nomes, roupas, endereços, biografias.

Os ex-militantes também são protagonistas do documentário "Tempo de resistência", de André Ristum.

- Quisemos dar uma idéia geral do período - diz Ristum, de 33 anos, filho de ex-exilados.

Ele adaptou o livro do vereador Leopoldo Paulino, de Ribeirão Preto (SP). Dos 28 entrevistados, só um era da direita.

- Os vencidos é que contam a história. Os vencedores têm vergonha - diz Paulino.

Os vencidos também estão retratados, mas de forma ficcional, em "O balé da utopia" e "Vôo cego rumo sul". Baseado no livro de Álvaro Caldas, "O balé da utopia" marca a estréia de Marcelo Santiago na direção. Mel Lisboa vive uma aluna que, influenciada por um professor, acompanha-o na luta armada.

- Ela vem com idéias românticas e idealizadas da guerrilha, e passa a questionar o movimento quando começa a cuidar de um guerrilheiro ferido - diz Santiago.

"Vôo cego rumo sul", baseado no livro de Sinval Medina, também desvia o foco dos militantes profissionais. Mostra quatro jovens que, nos dias 1º e 2 de abril de 1964, vão para o Sul quando ouvem falar que Brizola vai organizar a resistência.

- Quando li, identifiquei-me com aqueles simpatizantes desgarrados querendo encontrar algo para ajudar na resistência - diz o diretor, Hermano Penna. - O filme tem um tom de crítica à divisão das esquerdas.

Na safra atual, há espaço também para personagens que não pegaram em armas, como os quatro jovens músicos de "Os desafinados", de Walter Lima Jr.

- O filme fala de um sonho de transformar o mundo que é tolhido por um golpe militar. Fala de um ânimo, de um entusiasmo que é sufocado - antecipa.

"Angel" mostra a luta da estilista Zuzu Angel para denunciar a morte do filho Stuart e encontrar seu corpo.

- O assunto do filme é o Brasil dos anos 60 e 70, é a vida de Zuzu - diz Sérgio Rezende, que já tinha feito "Lamarca". - Mas o tema ultrapassa esse período e tem apelo universal. Tem uma coisa de tragédia grega, de Antígona. E tem também a questão da tortura, que é contemporânea, como se pode ver com os americanos no Iraque.

A tortura vai estar presente ainda no documentário "Vlado", de João Batista de Andrade, que mostra a história do jornalista Vladimir Herzog contada por seus amigos, como o próprio diretor. Vlado, como era conhecido, foi torturado até a morte, mas a versão oficial falava em suicídio. Outra vítima de tortura foi Frei Tito, que acabou se enforcando na França e está em "Batismo de sangue", de Helvécio Ratton.

- A tortura significa se apossar do corpo. No caso dele se apossaram da alma também - diz Ratton, de 54 anos, outro ex-militante. - Frei Tito antecipou uma certa descrença que a nação vive com o fim do sonho e a morte das utopias. Mas não me interessa simplesmente narrar acontecimentos de 30 anos atrás, e sim falar de algo que permita compreender mais profundamente o sentido da vida e da condição humana. Não é um filme para se vestir a camisa de Guevara e assistir.

"Corte seco", de Renato Tapajós, passa-se quase todo numa cela e numa sala de tortura.

- A primeira versão do roteiro acabou ficando muito pessoal - diz ele, de 61 anos, que foi preso e torturado. - Fui depurando para tentar deixar de falar somente de algo que aconteceu em agosto de 69 com um grupo de classe média brasileira para tratar de uma questão mais universal, que é a capacidade do ser humano de infligir dor e humilhação a outro.

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