| DizVentura II |
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Sexta-feira, Julho 08, 2005
Reportagem sobre as três irmãs do filme "A pessoa é para o que nasce" Visão acurada - Documentário sobre irmãs cegas lança nova luz sobre a cegueira Uma mulher interrompe a caminhada e pergunta: - Não são as ceguinhas da novela? Um rapaz suspende o passeio de bicicleta, outros diminuem o passo, algumas crianças se aproximam e, em pouco tempo, Maroca, Poroca e Indaiá são o alvo da curiosidade geral. Naquela manhã de sol ameno e vento frio na Praia do Arpoador, em pleno feriado de Corpus Christi, as três mulheres de Campina Grande, na Paraíba, cumprem o desejo de Maroca que, no documentário "A pessoa é para o que nasce", explica porque aceitou participar do filme dirigido por Roberto Berliner: "Fazendo isso eu vou ficar conhecida por todo canto." Pois antes mesmo da estréia do filme, na sexta-feira, as três já se tornaram celebridades. Fizeram uma participação na novela "América", receberam do presidente Lula a medalha de Honra ao Mérito, conheceram Pelé, tiraram fotos ao lado de Deborah Secco - a pedido da atriz - foram aplaudidas por quatro mil pessoas no festival de percussão PercPan, colheram elogios de Fafá de Belém, Naná Vasconcelos e Otto e foram homenageadas em música por Gilberto Gil. Nada mal para três irmãs analfabetas, cegas de nascença, que passaram a vida pedindo esmola nas ruas e experimentaram todo tipo de provação, do estupro sofrido por Poroca ao assassinato do marido de Maroca. "A pessoa é para o que nasce" cobre sete anos da vida das três, de 1998 a 2005. Berliner, da produtora TV Zero, ouviu falar pela primeira vez das "ceguinhas cantadoras" em 1997, quando fazia o programa "Som da rua" para a TVE. Foi a Campina Grande e, do encontro, resultou ainda um premiado curta-metragem. Mas ele logo percebeu o potencial dramático da história e fez um longa-metragem que revela toda a grandeza das três pequenas mulheres. As irmãs falam abertamente dos problemas, remexem as feridas, mas não se deixam abater e extraem humor até dos momentos de dor. Neste desnudamento total, o espectador oscila entre o riso e o nó na garganta. A certa altura, Maroca faz troça ao falar de seus dois casamentos, que terminaram com a morte dos maridos: "O primeiro marido eu passei 11 anos casada com ele. E agora esse outro passei só dois anos. Se eu arrumar outro de novo, vou passar só um mês." Em outra passagem, ela ironiza o diretor: "Ele está pensando que está conversando com criança." - Meu tempo de neném já terminou - diz hoje Maroca, que se tornou avó há seis meses. E, de fato, elas são bem mais perspicazes do que se pode supor. - Elas tiveram uma percepção muito clara do que era o filme. Durante a filmagem, Maroca começou a entender o cinema como espetáculo. Ela percebia pelo barulho se a câmera era de vídeo, que ficava ligada todo o tempo, ou de cinema, que registrava só alguns momentos. Então guardava as coisas importantes para esta última: "Vou falar sobre isso? Então eu quero quando a câmera de cinema estiver ligada." Indaiá, apelido de Francisca da Conceição Barbosa, e Poroca, nascida Regina Barbosa, costumam usar roupas iguais, mas Maria das Neves Barbosa, mais conhecida como Maroca, faz questão de se vestir diferente das irmãs, como na hora de posar para as fotos na praia: -- Quando fica tudo igual o povo pensa que a gente é gêmea - diz ela, de 60 anos, um a menos que Poroca e seis a mais que Indaiá, enquanto toma uma água de coco, molha os pés na água e se surpreende com a força das ondas. Elas começaram a cantar embolada e a tocar ganzá nas ruas quando Indaiá tinha 7 anos. São canções, muitas delas anônimas, algumas improvisadas, outras decoradas, e que agora vão virar disco. Junto com o filme, será lançado um CD duplo, que traz as canções originais e recriações feitas por nomes como Zé Renato, Lenine, Teresa Cristina, Elba Ramalho, Paralamas do Sucesso, Pato Fu, Braulio Tavares e Fausto Fawcett. O filme escancara o envolvimento afetivo entre diretor e personagens - a tal ponto que o próprio Berliner se torna personagem. Ele relutou muito em aparecer, mas a relação que se estabelece entre uma das três irmãs e ele, na cena mais surpreendente do documentário, fez com que aceitasse a sugestão da equipe do filme. - Eu acho que apareço muito - reconhece ele, meio de brincadeira, meio a série. - Mas tirei muita coisa minha. No filme, uma delas explica a cegueira: "O povo fala que nasceu assim porque a mãe é casada com um primo. Mas eu acho que não é, não. Foi porque Deus quis mesmo." Elas chegaram a sustentar com o dinheiro conseguido nas ruas 14 pessoas, o que motiva um irônico comentário: "Lá em casa os que não eram deficientes não trabalhavam em nada. Agora os que eram deficientes viviam trabalhando só para sustentar eles. Trabalha o feio para o bonito comer." Maroca parou de pedir esmola nas ruas depois de ser operada. As duas irmãs continuam, mas não estão nada contentes. - Tô vivendo muito chateada - diz Indaiá. - O povo passa reclamando, dizendo que a gente está ganhando dinheiro com o filme, achando que recebemos cachê com a novela. Dizem que a gente enricou e que não precisa pedir mais. Mas até agora ninguém ficou rico, não. - Quem tem boca diz o que quer - ensina Poroca. - Desde criança que a gente sofre no meio do mundo. E a cota de sofrimentos inclui humilhações, decepções amorosas, traições em família e apertos financeiros. Maroca sente falta do último marido, assassinado a facadas em 1996. - Ainda hoje eu sinto essa dor sem fim - conta ela, antes de começar a cantar para o repórter uma das músicas de seu repertório, uma canção triste e pungente que diz: "Ai, ai, ai, meu Deus/ Eu não tenho amor/ Eu não tive sorte/ Sinto em meu peito esta dor." Mas ela logo se recompõe e avisa: - Não quero mais falar do passado, não. Quero falar do presente. Um presente que não cessa de surpreender as três irmãs, como festeja Maroca no filme: "Desde que eu era pequena que eu vivia assim, com uma bacia na mão, pedindo esmola e o ganzá cantando. Pra hoje, depois de já cair na idade, eu ser estrela de cinema." Comente aqui: Reportagem sobre a briga no cinema brasileiro Polêmica divisão de bens - É melhor concentrar o dinheiro público em poucos filmes ou pulverizar os recursos? O mês de junho vai se encerrar com boas novas para quase 30 cineastas brasileiros. No dia 30, a Petrobras anuncia a lista de filmes que serão contemplados com um total de R$19,6 milhões. A empresa, maior patrocinadora do cinema brasileiro, vai dividir a verba em bolos de R$600 mil, R$800 mil e R$1 milhão. Por trás do montante, esconde-se uma polêmica: as estatais devem investir em poucos filmes, mais caros e com chances de conquistar mercado, ou distribuir a verba entre um número maior de produções, mais baratas e experimentais? Em resumo: deve-se concentrar ou pulverizar os recursos? O produtor Luiz Carlos Barreto foi o primeiro a reclamar. Segundo ele, de 2002 para cá os recursos das estatais foram pulverizados e se voltaram para primeiros filmes, longas experimentais e produções regionais. - São filmes que devem ser feitos, sim, mas com outras formas de financiamento. Do jeito que está, vamos bater o recorde de produção de filmes inéditos, que não chegam ao mercado. Estão sendo feitos menos filmes competitivos. De acordo com o produtor, isto justificaria a queda de freqüência do cinema brasileiro, que em 2003 chegou a ocupar 22% do mercado, em 2004 caiu para pouco mais de 14% e, este ano, vai despencar para cerca de 10%. A declaração, publicada semana retrasada no GLOBO, provocou controvérsia. - A queda se deve ao fato de que este pretenso cinema comercial é de muito baixa qualidade e não encontra público - diz Gustavo Acioli, que está fazendo seu primeiro longa. - "O casamento de Romeu e Julieta" (de Bruno Barreto, filho do produtor) não teve o público esperado (até a semana passada, 968.839 espectadores) e é merecido que não tenha tido. Não tem como empurrar goela abaixo da platéia. As afirmações de Barretão causaram reações no 15º Cine Ceará, encerrado na sexta-feira. Alguns cineastas do chamado cineminha, por oposição ao cinemão, lançaram um manifesto apoiando a descentralização de verbas, que foi lido pelo diretor do festival, Wolney Oliveira. "Não podemos silenciar diante de afirmações distorcidas, feitas por uma minoria de produtores e realizadores (...), tentando desqualificar as acertadas políticas de apoio que o Ministério da Cultura tem dedicado à diversificação da indústria do cinema neste país", diz um trecho do documento, assinado pela Associação de Produtores de Cinema do Norte e Nordeste, e por várias associações de documentaristas. O texto mostra preocupação com as "articulações de uma minoria que tenta impedir o processo de democratização e afirmação da diversidade cultural e estética" e diz que as produções experimentais, regionais e primeiros filmes deram cara nova e prestígio ao cinema nacional, conquistando centenas de prêmios. O diretor Paulo Thiago é outro que, a exemplo de Barretão, pede correção de rota. - Se não permanecermos numa política de produção de filmes competitivos, perdemos taxa de ocupação, perdemos espaço para o cinema estrangeiro. Temos que renovar, experimentar, sim, mas a batalha principal é a ocupação de mercado. Cinema em queda desestimula todo mundo, do jovem cineasta ao veterano - diz ele, diretor de "O vestido", que teve 30.683 espectadores. - Dar R$60 mil para 200 produtores em vez de R$600 mil para 20 não cria democracia nenhuma. O importante é o número de cidadãos que, em vez de ver filmes estrangeiros, passam a ver filmes brasileiros. Diler Trindade, produtor que levou mais de 14 milhões de espectadores ao cinema nos últimos dez anos, observa o mesmo fenômeno notado por Barretão: - No MinC, Gil pensou em democratizar os recursos das estatais. A orientação foi apoiar filmes regionais, primeiros filmes, documentários e projetos experimentais. Esta política resultou na redução de filmes competitivos. Uma questão que fica no ar: como definir um filme competitivo? - Quem sabe julgar o que é um filme competitivo? Esta é a beleza desta atividade. Não se consegue criar um sucesso no laboratório e nem interessa criá-lo - diz Fernando Meirelles, diretor de "Cidade de Deus", que conseguiu mais de três milhões de espectadores. - Fiz "Domésticas" só com atrizes desconhecidas, sem muita trama e nenhum apelo de público. Lançamos com seis cópias, apenas R$25 mil de verba e o filme conseguiu cem mil espectadores. Se pegarmos o número de espectadores por cópia, foi melhor que "Cidade de Deus". Já "Acquaria" (de Flávia Moraes), com Sandy e Júnior, uma realização impecável e enorme verba de lançamento, não decolou. Rita Buzzar, produtora de "Olga", passou seis anos correndo atrás de patrocínio. - Diziam que "Olga" não era competitivo e acabou fazendo mais de 3,2 milhões de espectadores. Mas, quando fiz o filme, tentei mirar o público, escolhendo um diretor (Jayme Monjardim) que tivesse comunicação com a platéia e que cumprisse o cronograma. Barretão concorda que não há receita, mas diz que dá para saber se é competitivo ao olhar o projeto, a história, o diretor e o elenco. - Glauber dizia que o que interessa é fazer filme competente, seja ele artístico ou comercial. Ou é "Amarelo manga" ou "Olga". Não pode é ser medíocre. Mas o que se está instalando no Brasil, sob o biombo de palavras sedutoras como democratização e regionalização, é a miserabilização e a mediocrização do cinema brasileiro. Não se pode esconder debaixo do tapete o que está acontecendo. Senão, pelo andar da carruagem, vamos cair no ano que vem para 8%, 6% do mercado. Cinema brasileiro não se paga, dizem diretores - Cineastas e produtores afirmam que não dá para sobreviver sem dinheiro público num mercado estrangulado A queda de público dos filmes nacionais levou o ministro Gilberto Gil a pregar, no fim de maio, um "choque de capitalismo" no cinema brasileiro. "A cadeia produtiva deve se remunerar na bilheteria, não com o investimento público. Este, por sua vez, deve ser um estímulo, não a única fonte de recursos", disse o ministro. Mas diretores e produtores são unânimes em afirmar que o cinema brasileiro não sobrevive sem os recursos públicos. - Ele não é auto-suficiente. É impossível porque é um mercado pequeno, de alta rotatividade, com ingresso altíssimo e ocupado basicamente por filmes estrangeiros. Por mais competitivo que um filme brasileiro seja, ele não paga seus custos. - diz o diretor Paulo Thiago. O produtor Leonardo Monteiro de Barros, da Conspiração, concorda. - Se não fossem as leis de incentivo, Cláudio Torres, José Henrique Fonseca, Andrucha Waddington e Lula Buarque de Hollanda não seriam diretores de cinema - diz, citando cineastas da produtora. - Não existe auto-sustentabilidade quando se tem apenas de 15% a 30% do mercado. Daí, ele frisa, a importância de aumentar a produção: - Se queremos crescer, o que temos que fazer é produzir mais filmes. Hoje, lançando de 30 a 40 filmes por ano, o que podemos almejar é ter 15% do mercado, não mais. Acima disso é um resultado excepcional. O diretor Fernando Meirelles tem opinião semelhante: - Temos que fazer o que está sendo feito: produzir muitos filmes. Alguns vão dar certo, outros não. Filme bom se consegue assim, com volume. Os EUA produzem atualmente perto de 600 filmes por ano, dos quais 550 são o mais puro lixo. Vinte são bons e 12, muito bons. Ou seja, 2%. Para o produtor Diler Trindade, o pequeno número de salas é o maior problema. - Em 1982, o filme nacional detinha 36% do mercado. Eram produzidos cem filmes por ano e havia mais de três mil cinemas, com uma média de 600 assentos por sala. Hoje, mal chegamos a duas mil salas, com média de 300 assentos. José Carlos Avellar, consultor da área de cinema do Programa Petrobras Cultural (PPC), também põe o foco na exibição e na distribuição. - A questão central não está em aumentar a produção, e sim a circulação de filmes no país. Em sua queixa à atual distribuição de recursos, Barretão criticou ainda o processo de escolha dos projetos: - Em algumas estatais, são constituídas comissões externas de seleção, formadas em geral por críticos, cineclubistas e pesquisadores de cinema. São pessoas sem nenhum compromisso com a política comercial, que estão estrangulando o lado industrial do cinema. Está se instituindo uma censura estética gravíssima no país, que levou o cinema ladeira abaixo nos últimos dois anos. Até ano passado, não existiam comissões externas. Os projetos a serem patrocinados eram escolhidos por comissões internas. Com o PPC, o critério mudou. Mas Avellar ressalta que só um dos sete integrantes da comissão é crítico - os demais são exibidores, produtores e realizadores. Ele rebate as críticas de Barretão dizendo que o critério primeiro é a qualidade. - Além disso, é preciso observar o conjunto dos projetos e buscar representantes das diversas tendências. Temos que dialogar com a oferta de projetos que chegam e refletir isso na escolha. Em nenhum momento houve atendimento a produções regionais superior à proporcionalidade dos projetos que chegaram. O primeiro edital de cinema do PPC, anunciado no ano passado, contemplava cineastas iniciantes em longa, como Pola Ribeiro (com "Jardim das folhas sagradas"), veteranos como Nelson Pereira dos Santos ("Brasília, 18 por cento") e jovens já consagrados, como Andrucha ("Casa de areia"). Barretão diz achar fundamental o cinema experimental e de renovação de linguagem, mas acredita que as fontes de recursos devem ser outras. Sugere uma cota nas estatais e cita a medida provisória que trata da arrecadação da Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional): - Parte é destinada à Secretaria do Audiovisual para financiar o cinema de renovação. Diler sugere políticas diversas para as duas categorias: o patrocínio a filmes orientados para o mercado viria com a Lei do Audiovisual, "que pressupõe investimento e a correspondente intenção de retorno comercial ao investidor". E para os demais ele propõe uma nova versão da Lei Rouanet, "que é de patrocínio a fundo perdido, com 100% de incentivo fiscal". Meirelles diz que é favorável a que haja muitos tipos de balcões de financiamento, com critérios de seleção diversos: - Acho bom o critério atual, onde cada empresa determina no que quer investir. O investimento em renovação, em novos diretores, é fundamental. Sem isso, aí sim, o cinema brasileiro fica comprometido. O cinema argentino está dando um pulo no mundo todo apoiado numa nova geração de diretores. Gustavo Acioli está conseguindo fazer seu primeiro longa, que tem o nome provisório de "A noite tem razão", graças a um concurso do MinC que privilegia estreantes. - Salvou minha vida - diz ele, que fez quatro curtas com o dinheiro do próprio bolso. - Para gente da minha geração, os caminhos da captação são muito nebulosos. O edital do MinC contemplou dez filmes. A qualidade de produção vai subir e Barretão vai queimar a língua. Comente aqui: Reportagem sobre projeto cultural em Santa Cruz Periferia que se mostra sem caricatura - Vida de jovens carentes da Zona Oeste é transformada pelo contato com a arte Dizer que Uésley Pereira Santos, de 27 anos, enfrentava uma maratona para ter aulas de teatro não é força de expressão ou recurso gasto de escritor pouco criativo. Ele andava mais de 40 quilômetros para ir e voltar de casa até a Cidade das Crianças, em Santa Cruz. No caminho, dava umas paradinhas para descansar o corpo, olhava os pés de manga e torcia para cair alguma fruta e aplacar a fome. - Ia a pé porque não tinha dinheiro. Mas vinha feliz da vida e subia no palco como se nada tivesse acontecido - lembra-se Uésley. Hoje, ele vai de ônibus. Afinal, deixou de vender empadas na rua, estagia numa companhia de teatro e atua na peça "A comédia do coração", de Ariano Suassuna. Mas as mudanças não se resumiram à troca de profissão: - Minha visão de mundo era um pouco fechada. Não entendia as coisas com clareza e não tinha senso crítico. Hoje, espelho-me em Peter Brook, quero levar o teatro até as pessoas. Uésley é aluno do projeto Reperiferia, criado em agosto passado pelo diretor Marcus Vinicius Faustini, que, sem maiores alardes, vem transformando a vida de centenas de jovens da Zona Oeste. Para começo de conversa, Faustini e sua companhia de teatro, a CTI, romperam com a idéia de que eles devem ser submetidos a uma dieta de filmes-pipoca e comédias popularescas. A garotada estuda Brecht, discute "Vidas secas", vê "Dogville", monta textos de Suassuna e lê livros como "Épuras do social: como podem os intelectuais trabalhar para os pobres", de Joel Rufino dos Santos. - A palavra que eles mais falam aqui é dialética. Dizem: "Isso não é dialético. Vocês não botaram contradição" - conta Faustini, diretor de peças como "Capitu", "Eles não usam black-tie" e "Hoje é dia de rock", que também está finalizando o filme "Clóvis de guerra não usa sombrinha". Há poucas semanas, Faustini reuniu os alunos e fez testes para a escolha do protagonista de seu próximo longa-metragem, "Nike". É baseado na história real de um menino da favela que, ao escrever o nome, pôs Marcelo Nike da Silva. - Que mundo é este em que a gente deseja pôr no meio do nome uma marca? - surpreende-se o cineasta. No teste, Faustini pede que eles falem de sua relação com as marcas. - Tenho um colega feio pra caramba que fica geral com as meninas porque tem Adidas. Eu botei uma camisa hipercool e parece que as espinhas tinham até saído. Quero ser notado, ninguém gosta de ser invisível - diz um rapaz. Após alguns dias de testes, saiu o ator que vai viver Nike. Ou melhor, saíram, porque o personagem será interpretado por dois jovens. Um deles é Elvis. O outro também. Elvis Marcelo de Oliveira, 17 anos, mora em Santa Cruz e trabalha como camelô no trem. A mãe adora Elvis Presley. Elvis Chagas Medeiros, 23 anos, mora em Itaguaí e está sem trabalho. O pai também é fã do cantor americano. Na semana passada, os dois rodaram no Odeon as primeiras cenas, após terem visto "Os incompreendidos", de Truffaut. O câmera é Carlos Vinícius Borges, o Cavi, da locadora Cavídeo, que também dá aulas no projeto. Era a primeira vez que Elvis Marcelo ia ao cinema. - Vou mostrar para meu pai que ele estava errado em querer que eu seguisse a carreira militar. Elvis Chagas se identificou com o garoto de "Os incompreendidos" porque, como o personagem, "até agora só colecionou fracassos". "Nike" discute a sociedade de consumo através de um menino que chega a ir ao Xingu tirar satisfação com um índio que tem desenhado nas costas o símbolo da Nike. Sua melhor amiga é uma menina cega que não entende a fixação dele com as marcas. As cenas ficcionais estão sendo criadas por gente como o autor e diretor Roberto Alvim e o escritor Julio Ludemir. Faustini voltou os olhos da Zona Sul para a periferia com um desejo de retribuição - ele é de Santa Cruz e foi ali que começou a fazer teatro, num banco de praça. Ele é responsável pelas atividades culturais da Cidade das Crianças e o bem aparelhado teatro do lugar serve ainda de sede para a CTI. - Queremos apresentar a periferia de outra maneira, sem caricatura - diz. - Além disso, precisamos de novas imagens dessa cidade. A câmera do Rio tem que sair do mar e ir para dentro. Cultura como expressão econômica - Grupo de teatro programa ir à Alemanha em 2006, para os 50 anos da morte de Brecht O projeto de Faustini, patrocinado pela Secretaria municipal de Esportes e Lazer, e com apoio da Secretaria municipal das Culturas, desdobra-se em vários braços. Ele leva para o teatro espetáculos elogiados. Mais de cem mil moradores já assistiram de graça a atrações como Boitatá, Nós do Morro, Carroça de Mamulengos, Daniel Azulay, Bia Bedram e Luiz Carlos Vasconcelos. Também se apresentam alunos de arte, numa parceria com a Secretaria municipal de Educação. Faustini criou ainda uma espécie de Fate dos pobres, numa referência ao Fundo de Apoio ao Teatro da prefeitura. - Identificamos mais de 80 grupos amadores na região. Com o Cena Oeste, vamos escolhendo alguns, que recebem R$1 mil por três meses. O diretor inaugurou ainda o Cineclube Piracema e vai lançar a revista "Poéticas da Periferia". A turma prepara a montagem de um texto inédito de Suassuna - uma versão em cordel de "Romeu e Julieta". Eles também já encenaram o espetáculo "Brecht n¿ funk" e trabalham em nova peça sobre o dramaturgo. A idéia é ir em 2006 para a Alemanha, por ocasião dos 50 anos da morte de Brecht. Achou pouco? Pois há oficinas de maracatu, circo, literatura, jongo, cinema, teatro, pandeiro e ritmos latinos. Tudo de graça - ou 0800, como os alunos dizem. Os pais, a princípio desconfiados, hoje reconhecem a importância do projeto Reperiferia. - Quando comecei, meu pai me mandou trabalhar como cobrador de ônibus e depois em obra. Tive que sair de casa. Hoje faço estágio como operador de som e luz no projeto, e estou na Companhia do Invisível, do Alexandre Damasceno (ator da CTI). Conseguir viver de um emprego que me diverte é algo inédito - diz Antonio Carlos Félix, de 20 anos, que voltou a morar com os pais. Junto com a empresa Let Consultoria, Faustini montou o projeto Cultura Dá Trabalho, e dois dos alunos do Reperiferia vão estagiar na Rede Globo. - A cultura tem que ser vista por eles como possibilidade de expressão econômica - diz o diretor, visivelmente empolgado com a oportunidade que os jovens da periferia estão tendo de mostrar seu ponto de vista. - Eu estava desiludido com o teatro. Precisei trabalhar com as estrelas, subir a montanha, ver que o ar estava rarefeito, descer e começar tudo de novo. Comente aqui: Reportagem com os 25 anos da CNN A face mais internacional dos EUA se renova - CNN celebra 25 anos planejando mudanças tecnológicas e na programação para enfrentar a concorrência ATLANTA, Georgia. O cantor Ricky Martin posou para fotos e deu um ou outro autógrafo. Mas não foi ele, nem o médico indiano Deepak Chopra, nem o presidente do Iraque - falando via satélite do Curdistão - a grande estrela da 14ª CNN World Report Conference, o encontro mundial de jornalistas que este ano celebrou o 25º aniversário da rede de notícias americana. O que todo mundo aqui queria ver eram figuras como a repórter Christiane Amanpour, o correspondente Jim Clancy e a âncora Zain Verjee, que representam hoje a cara da CNN - papel que no passado coube a Peter Arnett e Bernard Shaw. Ted Turner, fundador da emissora, não está mais no comando, mas foi o grande homenageado dos três dias de conferência, que discutiu as principais questões do jornalismo atual, como a confiança - ou falta de confiança - do público na mídia, a questão árabe ou a tsunami, seis meses depois. Eram 18h de 1º de junho de 1980 quando Turner provocou risadas em quase todo mundo ao anunciar um canal de notícias 24 horas no ar. Vinte e cinco anos depois, ninguém mais ri. Quando surgiu, a CNN (Cable News Network) tinha 225 funcionários e atingia 1,7 milhão de casas. Hoje, tem 3.600 empregados e alcança 260 milhões de residências. Cerca de 1,5 bilhão de pessoas podem ter acesso a algum dos 23 serviços da CNN. De canal de notícias doméstico, virou, principalmente a partir da Guerra do Golfo (1991), um conglomerado que, com o lema "Seja o primeiro a saber", engloba serviços como CNN Internacional, CNN Airport Network, CNNRadio e CNN.com. É cada vez mais internacional, a ponto de contar com representantes de 50 países e proibir o uso da palavra "estrangeiro", sob risco de demissão. Durante o encontro, os principais executivos da rede fizeram um balanço dos 25 anos, falaram da saúde atual da emissora e fizeram projeções. - Em 2004, tivemos mais lucro do que em qualquer ano da nossa história - disse Jim Walton, presidente da CNN, sem revelar números. O modelo criado por Turner deu tão certo que cunhou a expressão efeito-CNN. A rede revolucionou a forma como a informação circula no mundo e provocou o surgimento de mais de 70 emissoras de notícias 24 horas no mundo. Mas a CNN enfrenta uma dor de cabeça, pelo menos em termos domésticos: a Fox News. A emissora de Rupert Murdoch já é líder no mercado a cabo de notícias dos EUA. Uma pesquisa do ano passado mostrou que 25% dos americanos assistem regularmente à Fox, contra 22% da CNN. Mas revelou que 32% dos telespectadores acreditam em tudo ou na maior parte do que diz a CNN, contra 25% da Fox, vista preferencialmente pelos conservadores. O público-alvo da emissora é a faixa de 5% a 10% de "cidadãos globais" que viajam, são formadores de opinião e têm o inglês como segunda língua. A concorrência - que acontece também com os canais locais e a internet - tem feito a CNN se mexer. As maiores mudanças que vêm por aí são tecnológicas. - A tecnologia vai mudar mais no próximos cinco anos do que nos 25 anteriores, em relação ao jeito como a gente consome mídia - disse Walton. - Queremos que o público tenha acesso a nossa informação em qualquer lugar do mundo, seja num cruzeiro, num ginásio, em casa ou no escritório. E em qualquer plataforma, seja telefone celular, pager, ou personal video record. Os executivos disseram que, na briga pela audiência, não vão abandonar o que chamam de princípios básicos da emissora: "dar uma informação oportuna, de forma precisa, sem preconceitos e com múltiplos ângulos, levando o telespectador aonde a notícia está". - Poderíamos aumentar a audiência sendo mais sensacionalistas e apresentando uma opinião mais engajada, mas a qualidade cairia. Felizmente para nós, o bom jornalismo é um bom negócio - disse Walton. - A imparcialidade está no nosso DNA. Chris Cramer, diretor da CNN Internacional, rebateu críticas de que a emissora mostraria uma visão americana demais: - Interessante é que aqui nos EUA ouvimos que somos um canal antiamericano e lá fora, um canal pró-americano. O que significa que estamos fazendo nosso trabalho. Durante a conferência, Turner aproveitou para dar uma alfinetada nos rumos da rede: - Eu gostaria de nos ver retornando um pouco mais à cobertura internacional, no aspecto doméstico, e ter um pouco mais de reportagens sobre meio ambiente. E talvez um pouco menos da perversão do dia - disse, numa clara referência ao caso Michael Jackson. Entre as novas atrações, está o programa "Quest", que estréia dia 9 de julho e traz Richard Quest atrás de gênios para descobrir o segredo do sucesso deles. Também estreará um programa de humor comandado por John Stewart. De olho no público mais jovem, a emissora fez uma parceria com a MTV que rendeu dois programas, um deles sobre Aids e o outro sobre a tsunami. Isso significaria que a CNN, em busca de audiência, está fazendo uma opção pelo entretenimento, transformando jornalismo em show? Cramer garante que não: - Estamos tornando interessantes histórias que já são significativas. O que é muito diferente. *O repórter viajou a convite da CNN International CORPO A CORPO com CHRISTIANE AMANPOUR 'É tão perigoso... mas você não pode deixar de ir' ATLANTA, Georgia. Aos 47 anos, Christiane Amanpour é a repórter de TV mais conhecida do mundo. Como correspondente, cobriu guerras no Iraque, no Afeganistão, no Irã, no Paquistão, na Somália, em Ruanda e nos Balcãs. Nascida na Inglaterra, filha de pai iraniano, casada com James Rubin, porta-voz do Departamento de Estado no governo Clinton, é uma das estrelas da CNN, onde trabalha desde 1983. - Na época da guerra no Iraque, você criticou a cobertura da mídia, inclusive a da CNN. Disse que a mídia foi intimidada pelo governo Bush... CHRISTIANE AMANPOUR: E Jim (Jim Walton, presidente da CNN) respondeu que eu estava falando por mim mesmo. Mantenho o que disse. Se você olhar para o que estava acontecendo durante a guerra, vai descobrir que muitas pessoas concordam com o que eu falei. É preciso entender, no entanto, que era uma situação pós-11 de setembro, os Estados Unidos tinham sido atacados pela primeira vez, era um momento traumático. Mas acho que as coisas mudaram desde então. Se você olhar as reportagens que estão sendo feitas agora, são realmente brilhantes. Se não fosse pelo "New York Times", pelo "Washington Post", pelo "Financial Times" ou a CBS News, não se teria ouvido falar de Abu Ghraib, Bagram ou Guantánamo. - Como é cobrir uma guerra incorporada ao Exército americano? AMANPOUR: Algumas pessoas diziam que a gente talvez não devesse sequer estar no Iraque. É tão perigoso... mas você não pode deixar de ir. E o único jeito de conseguir alguma notícia significativa é estando incorporado às tropas, porque há uma certa segurança. Estar incorporado é uma coisa boa, mas você não tem a noção completa. Um dos maiores desafios é tentar ter um cobertura multidimensional. Uma coisa é estar seguro incorporado às tropas e tendo a proteção dos tanques e das instalações americanas, outra coisa é ir de forma independente e falar com os iraquianos. Eu tentei e a CNN tentou muitas vezes, com variados graus de sucesso. Nós tentamos fazer uma reportagem sobre as vítimas civis e a única maneira era ir ao hospital e gravar um dia em que os caixões e os corpos viessem, e falar com os parentes. Foi uma coisa que fomos capazes de fazer. Não fomos bem-sucedidos em conseguir números significativos e, quando tentávamos ir às casas, eles não queriam, porque viravam alvos. Era perigoso para eles. Uma das coisas que nos deixaram pasmos durante a eleição é que podíamos cobrir o povo votando. Pensamos que não seríamos capazes. - Como é ser uma correspondente de guerra? AMANPOUR: É como um médico na emergência. Você vê pessoas chegando com terríveis ferimentos e não pode fraquejar, tem que se manter inteiro. Está ficando mais perigoso porque as pessoas estão efetivamente tentando nos matar. Mas eu estou mais consciente dos perigos e tenho meu colete à prova de balas. Não quero ser seqüestrada nem morta. - Qual a sua maior conquista e o seu maior fracasso? AMANPOUR: A maior conquista foi ter ficado na Bósnia por tanto tempo e ter convencido a CNN a manter o país e os Balcãs nas manchetes por cinco anos. E a maior frustração foi Ruanda. Nós não fizemos nosso dever de casa, falhamos em manter os holofotes sobre o país e, em três curtos meses, houve um holocausto, um milhão de pessoas morreram. Foi um grave fracasso da nossa parte e da parte da comunidade internacional. Nós nunca vamos nos recuperar, mas é uma lição. E este ano, infelizmente, estamos tentando muito cobrir Darfur, no Sudão, mas não estamos conseguindo. Estamos esperando pelos vistos de entrada, mas até agora não conseguimos. É devastador. - Você tem filhos? AMANPOUR: Um menino de 5 anos. Eu o protejo, não digo a ele o que faço. Há alguns meses, nós estávamos de férias e falei: "Você é meu companheiro de viagem favorito, adoro viajar com você." Ele disse: "Sim, mamãe. Mas quando é que eu posso ir para o Iraque e o Afeganistão?". Ele acha que são destinos turísticos! Comente aqui:
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