| DizVentura II |
|
Terça-feira, Maio 10, 2005
Os 80 anos de Rubem Fonseca Rubem Fonseca aproximou-se do balcão e pediu apenas um café pingado. Bebeu apressadamente, pagou o R$1,40 com moedas, percorreu três quadras e entrou de volta em seu prédio, não sem antes cumprimentar o rapaz que consertava o canteiro. Na manhã da quinta-feira passada, o maior escritor brasileiro vivo passeou incógnito pelas ruas do Leblon, como faz todos os dias. Não foi reconhecido ou importunado por ninguém. Exatamente como queria. Conhecido pelos amigos como Zé Rubem, ele esquiva-se com bom humor das abordagens, como quando uma dona de casa perguntou: - O senhor não é escritor? - Sou, sim. Meu nome é Ruy Castro. É assim, com um apego extremo à privacidade, que José Rubem Fonseca tem vivido seus 80 anos, a serem completados na próxima quarta-feira. Brincalhão entre amigos, desinibido diante de auditórios lotados no exterior, o escritor se fecha num mutismo inabalável na hora em que algum repórter tenta arrancar uma entrevista. Como tem muitos amigos jornalistas, é ao mesmo tempo dócil e fugidio, afetuoso e arisco, o que acaba criando uma situação curiosa: volta e meia um deles recebe a promessa de que, se um dia falar, será ele o escolhido. O escritor que antecipou com seus contos a escalada de violência no país, que inaugurou a literatura urbana moderna no Brasil e que retratou como ninguém as entranhas da sociedade é, como se define, um dendrólatra. Dendrolatria, ensina o dicionário, é a adoração ou culto das árvores. Ele fica furioso quando vê uma delas ser maltratada. Na praça perto de sua casa, meninos que jogam bola e crianças, mesmo as acompanhadas por babás, destroem sem piedade as árvores recém-plantadas. Das últimas oito, só restaram os buracos. Já brigou com as babás, fez preleções aos garotos, tudo sem qualquer resultado. Ele culpa também a Fundação Parques e Jardins, que deixa as árvores sem proteção, escoradas apenas por "bambus periclitantes". Mas Fonseca está otimista: a praça foi adotada por uma empresa, e ele agora espera que as árvores recém-plantadas do Leblon tenham o mesmo tratamento que as da Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, "devidamente protegidas dos moleques que jogam bola e das crianças acompanhadas de babás". A grande arte de despistar - Desinibido entre amigos, expansivo no exterior, fechado no Brasil, escritor nega reclusão e só se chateia com a celebridade O cinema Leblon estava vazio àquela hora do dia, e o diretor Tony Vanzolini não escondeu sua frustração quando viu sua poltrona preferida ocupada por um homem de boné. - Tanto lugar na sala e o sujeito foi sentar logo aí - lamentou. Mas logo reconheceu a silhueta e falou: - Zé Rubem! - Depende - respondeu Rubem Fonseca, cheio de desconfiança. A obstinação com que Fonseca preserva sua intimidade desconcerta até fãs como o repórter Luiz Carlos Azenha. Ele estava na Alemanha quando da queda do Muro de Berlim e resolveu entrevistar um casal que falava português. O homem se identificou como José Fonseca e alegou que não podia tirar o boné por causa de um machucado na cabeça. No Brasil, os parentes e amigos de Rubem Fonseca assistiram atônitos pela TV Manchete a um certo José Fonseca dizer que aquele era um momento histórico. Só no dia seguinte Azenha descobriu que tinha entrevistado o homem que não dá entrevistas. Não faltam teorias para explicar seu recolhimento. Ele mesmo, numa conversa com amigos, disse que não era recluso, apenas se chateava com a celebridade. "Ainda bem que não sou célebre. Fico pensando em pessoas realmente célebres, como Chico Buarque. Um dia saí de casa e tive uma queda de pressão. Para não cair, porque achei que ia desmaiar, me apoiei numa árvore e sentei num cubo de metal baixinho que tinha em volta para protegê-la. Pus a cabeça entre as mãos e fiquei descansando. Aí chega uma mulher e pergunta: 'Você não é o Rubem Fonseca?'. Eu me curei logo. Moral da história: ela chegou em casa e deve ter dito: 'Encontrei o Rubem Fonseca bêbado, na sarjeta, saiu cambaleando.'" Ao longo da vida, Fonseca forneceu, a conta-gotas, outras razões. No Portal Literal (portalliteral.terra.com.br), que abriga seu site, está escrito que ele "acredita, como Joseph Brodsky, que a verdadeira biografia de um escritor está em seus livros". Já justificou que não gosta de se expor por recato. Ou que não dá entrevistas por uma "idiossincrasia inexplicável". Também já disse que o escritor Thomas Pynchton é um sortudo, porque dele só se conhece uma foto de quando tinha 14 anos. No volume da coleção Perfis do Rio dedicado a Fonseca, o escritor Deonísio da Silva preferiu se concentrar na obra e na censura ao livro "Feliz ano novo". Deonísio explica sua opção: - Ele não dá entrevista, mas é o mais entrevistado dos escritores brasileiros. É entrevistado por si mesmo nos livros que escreve. De fato, além de vários personagens funcionarem como alter ego do escritor, há o conto-entrevista "Intestino grosso", bastante revelador. A certa altura, o personagem explica que demorou muito até ser publicado pela primeira vez. "Eles queriam os negrinhos do pastoreio, os guaranis, os sertões da vida", diz. Por eles, entenda-se as pessoas que editavam os livros, os suplementos literários, os jornais de letras. "Eu não tenho nada a ver com Guimarães Rosa, estou escrevendo sobre pessoas empilhadas na cidade", completava o personagem. Aos 18 anos, levou os originais de seu primeiro livro para uma pequena editora que ficava num sobrado da Rua das Marrecas, no Centro. Quando voltou, algum tempo depois, ouviu do editor uma lição de moral: pessoas que escrevem literatura de primeira não usam nomes feitos, nem criam esses tipos de personagens. Fonseca pediu de volta o livro, o homem disse que ia procurar e nunca mais se achou o manuscrito. O escritor contou a um amigo: "O dono da editora, que era pequena e durou pouco, ficou muito consternado, jurando que nunca havia perdido um original, e eu tentei consolá-lo, dizendo que ele não se preocupasse, que eu escreveria outro. Demorei 20 anos para isso. Durante esse tempo, fiquei apenas lendo com enorme furor." O primeiro livro, "Os prisioneiros", saiu somente em 1963, quando Fonseca tinha 38 anos e era diretor da Light. Foi publicado graças a Gumercindo Rocha Dórea, dono da GRD, que conta: - Na Light, Zé Rubem tinha uma secretária, Fernanda, que um dia me disse: "Ele tem uns contos na gaveta." À revelia do chefe, ela entregou o material a Dórea. - Logo no primeiro conto, falei: "Esse nem adianta eu ler até o fim. Vou ler no livro." Dórea imprimiu na "Revista dos Tribunais" e levou as provas para Fonseca. - Falei: "Olha, um anjo misterioso me deu os originais de seu livro." Irritado, ele desabou uma catadupa de termos próprios da sua literatura. Uma semana depois, mais calmo, concordou com o livro, mas exigiu que a capa fosse feita pelo filho Zeca, de 6 anos. A "Os prisioneiros" se seguiu "A coleira do cão", e o sucesso fez com que Dórea não conseguisse mais segurar Fonseca, que teve livros editados pelas editoras Artenova, Francisco Alves, Olivé, Nova Fronteira e, desde 1988, Companhia das Letras. Se no Brasil ele recusa entrevistas e convites para palestras, no exterior mostra-se um orador desinibido. O escritor inatingível se torna uma figura expansiva. Em suas aparições, levanta-se da cadeira, avança em direção às primeiras filas, faz chistes, torna-se um showman. O escritor Antonio Callado, já falecido, contava que, numa palestra em Paris, ele dançou e sapateou, executando um breve e animado número de music-hall. Em outra ocasião, em Cuba, antes de começar sua apresentação exigiu, de cara amarrada, que fechassem as portas do auditório. Passados alguns segundos, entendeu-se a brincadeira: era para ninguém poder sair. Como ele não gosta de dar publicidade a seus atos, poucos sabem que ajudou a criar o Corredor Cultural do Rio, que presidiu a Fundação Rio - a convite do amigo Israel Klabin, então prefeito do Rio - sem receber qualquer remuneração pelo trabalho e que foi responsável pela troca do nome da Rua Montenegro por Vinicius de Moraes, em Ipanema. O jornalista Carlos Leonam sugeriu a idéia e Fonseca falou com Klabin. "Teve gente que não gostou, mas o Vinicius merecia a homenagem", justificou. Fonseca nasceu em Juiz de Fora, filho de imigrantes portugueses que moravam no Rio. Seu pai, Alberto Augusto, era gerente do magazine Parc Royal e sua mãe, Julieta de Mattos, estilista da loja A Moda. Mudaram-se para Minas, onde abriram o magazine Paris n¿América. Mas o negócio não deu certo e tiveram que voltar para o Rio, quando Fonseca tinha 8 anos. Julieta dizia que ele aprendeu a ler sozinho aos 4 anos. Obcecado com leitura, arrumava truques para despistar a mãe, que tinha medo de que ele não dormisse e ficasse doente. No Portal Literal, onde escreveu cinco capítulos da vida de José - na verdade uma autobiografia disfarçada - Fonseca diz: "Assim, para poder ler, José esperava que ela e o seu pai dormissem, utilizando-se de vários truques para manter-se acordado: andava dentro do quarto de um lado para o outro; deitava nu no chão frio do ladrilho." Seu primeiro emprego foi aos 12 anos, como entregador de uma pequena oficina de bolsas e carteiras de couro. O trabalho permitiu-lhe circular pela cidade toda. Fonseca cursou direito. Era advogado criminal e tinha clientes muito pobres, a ponto de certa vez ter recebido uma galinha como pagamento. Para sustentar o escritório, trabalhava como revisor do "Jornal do Brasil". Mais tarde, quis fazer concurso para juiz. Como não tinha ainda cinco anos de formado, um colega de faculdade sugeriu que fizessem exame para comissário de Polícia. Era uma forma de esperar pelo concurso, ao mesmo tempo em que aprendia direito penal e processo penal. Mas acabou desistindo de ser juiz e largou a polícia após nove meses. A curta experiência foi usada mais tarde em seus livros. - Ele fez poucas diligências, mas foi o suficiente para ficar escrevendo até hoje sobre isso, tentando expurgar uma realidade que foi tão marcante - diz a filha, Bia. O escritor morou duas vezes nos EUA. A primeira, quando ganhou, com mais nove policiais, um concurso. Mais tarde, fez mestrado em Boston, como professor-assistente da Escola Brasileira de Administração Pública, da Fundação Getúlio Vargas, com bolsa das Nações Unidas. Viúvo - sua mulher, Thea, morreu em 1997 - é pai de Bia, dona da editora Capivara, Zeca, fotógrafo, e Zé Henrique, diretor. Há dois anos, passou alguns dias internado por conta de uma perfuração no estômago. Também parou de beber e reduziu o número de charutos - hoje só fuma de vez em quando. Mantém a boa forma com caminhadas pelo calçadão. Fonseca sempre cultivou o físico. Foi capitão do time de basquete infanto-juvenil do Flamengo, tinha pesos em casa, costumava subir os nove andares do prédio da Light de escada, nadava e malhava muito antes que virasse moda. - De vez em quando ele fala: "Zeca, vamos pagar 20?". E faz as 20 flexões, com orgulho - diz o filho Zeca. Em sua casa, um busto serve de cabideiro, onde põe sua coleção de bonés - presente preferido dos amigos. O curioso é que o busto retrata o próprio Fonseca e foi feito por Thea. Vascaíno, deixou de ir aos estádios e prefere se refugiar no cinema. Gosta de escrever com a televisão ligada na MTV e, em matéria de leitura, diz-se um onívoro. Lê o que aparece na frente, mas as leituras preferidas são poesia e bula de remédio. Marçal Aquino é um de seus escritores brasileiros preferidos. A leitura só tem rival no cinema, uma paixão que começou cedo. Sua babá namorava um lanterninha e aproveitava-se da sala escura para namorar, deixando Fonseca sentado por horas diante das imagens. Foi um dos primeiros críticos de cinema da "Veja" e tem mantido a média de um filme por dia, sem distinção de gênero. Dia desses, disse a um amigo: - Quem sabe ainda vou dirigir um filme? Escritor venceu ação contra União - O livro 'Feliz ano novo' foi censurado por Armando Falcão em 1976 Em 1975, Rubem Fonseca lançou "Feliz ano novo", livro de contos premonitório, que antecipou a violência que mais tarde se espalharia pelo país. A obra foi censurada em 1976 pelo então ministro da Justiça, Armando Falcão, quando já tinha vendido 30 mil exemplares, "por exteriorizar matéria contrária à moral e aos bons costumes". Fonseca moveu uma ação contra a União por danos materiais e morais, mas um juiz manteve a proibição, entendendo que o livro fazia apologia da violência. A obra foi liberada em 1985, mas o escritor só ganhou a ação em 1989, numa causa vencida pelos advogados Alberto Venâncio Filho e Antonio Fernando Bulhões de Carvalho. A União foi condenada a indenizar Fonseca. O valor foi dividido em oito prestações e, todo mês de agosto, o escritor vai à Vara Federal receber R$18 mil. Já foram pagas duas parcelas. - Acho que ele foi o mais perseguido dos escritores brasileiros. Zé Rubem fez uma coisa que marcou a luta do escritor pela liberdade: levou a União aos tribunais, obrigando-a a declinar pela primeira vez os motivos da proibição de um livro - diz Deonísio da Silva, autor de "Nos bastidores da censura" e "Rubem Fonseca: proibido & consagrado". Fonseca também teve censurado o conto "O cobrador", vencedor do concurso da revista "Status", em 1978 - mesmo problema enfrentado por Dalton Trevisan, ganhador em 76 com "Mister Curitiba". Autora do livro "Propaganda e cinema a serviço do golpe", Denise Assis diz que Fonseca fez parte do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), entidade que produziu 14 curtas de teor anticomunista. O órgão, segundo Denise, tinha o objetivo de preparar o terreno para o movimento militar de 1964. A um amigo, Fonseca disse: "Acreditando nos objetivos democráticos mencionados nos estatutos do órgão, fiz os roteiros de dois curtas que foram - criticando regimes ditatoriais - filmes que não tiveram a menor repercussão." Mandrake chega à TV e volta à literatura - Escritor prepara livro com novas aventuras de seu personagem, que em outubro estréia no canal HBO Nenhum escritor é mais cinematográfico que Rubem Fonseca, diz o argentino Tomás Eloy Martinez, autor de "Santa Evita". Tanto que suas obras inspiraram filmes como "Lúcia McCartney", de David Neves, "A grande arte", de Walter Salles, e "Bufo & Spallanzani", de Flávio Tambellini. O mexicano Paul Leduc, por sua vez, está terminando de filmar "O cobrador", com Peter Fonda e Lázaro Ramos. Na TV, o romance "Agosto" inspirou uma minissérie na Globo. E, em outubro, é a vez de seu personagem mais famoso dar as caras na televisão. Marcos Palmeira interpreta o cético e mulherengo advogado Mandrake, estrela de oito episódios que a HBO vai exibir aos domingos, às 21h. Miãle estréia na TV como o sócio de Mandrake. A produção é da Conspiração, e os episódios serão dirigidos por José Henrique Fonseca (filho do escritor), Artur Fontes, Claudio Torres, Carolina Jabor, Tony Vanzolini e Lula Buarque. Mandrake fez sua entrada no universo fonsequiano no conto "O caso de F.A.", do livro "Lúcia McCartney", de 1967, e apareceu pela última vez em 1997, na novela "E do meio do mundo só amores guardei ao meu charuto". Fonseca costuma manter segredo absoluto sobre seus livros, mas foi possível descobrir que ele está escrevendo uma novela que traz de volta justamente seu mais famoso personagem. As novas aventuras de Mandrake deverão chegar às livrarias também em outubro. Suas obras também chegaram ao teatro. A peça mais famosa é "Lúcia McCartney", adaptação de seu livro feita por Geraldinho Carneiro que teve direção de Miguel Falabella, e Maria Padilha no elenco. Bernardo Jablonski igualmente transpôs o autor para o palco, no espetáculo "O inimigo". O escritor de contos como "Passeio noturno", "O cobrador" e "A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro", e de romances como "Diário de um fescenino" e "O selvagem da ópera" tem uma legião de pupilos e de seguidores. Antes de lançar seu primeiro romance, "Boca do Inferno", Ana Miranda trocou cartas durante oito meses com o escritor e fez quatro versões diferentes do livro, devidamente supervisionadas por ele. A atriz Bruna Lombardi já contou que teria atirado os originais de seu livro "Filmes proibidos" no Rio Sena, em Paris, se ele não tivesse impedido. E aprendeu com Fonseca que a compaixão pela condição humana é essencial a um bom romance. Jô Soares mostrou a ele, antes de publicar, seus três livros. - Antes de escrever "O Xangô de Baker Street", liguei para ele e sugeri: "Tive uma idéia que pode render um romance." Ele respondeu: "É, mas quem vai escrever é você. Deixa de ser preguiçoso." Chico Buarque é outro que pediu orientação a Fonseca, especialmente na hora de escrever "Estorvo". "Não dá mesmo para se livrar da influência de Rubem Fonseca", disse. Patrícia Melo é da mesma opinião. - Aprendi muito lendo seus livros e também ouvindo seus conselhos. Rubem sempre leu meus romances, antes de eles serem publicados. Lembro que, quando eu estava escrevendo "O matador", numa certa altura, discutindo uma questão relacionada ao Máiquel, ele me disse: "Você é tão dura com esse rapaz. Nós, os autores, temos que amar nossos personagens. Essa é uma regra de ouro da literatura" - diz ela. - Isso mudou minha maneira de escrever. Deixei de julgar meus personagens. Fonseca consegue a proeza de figurar nas teses acadêmicas e nas listas de best-sellers. Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, lembra-se bem de quando conseguiu trazê-lo para sua editora. - Assim que ele fechou a porta de sua casa, comecei a dar pulos de comemoração. Fui do Leblon a Ipanema dando socos no ar para fora do vidro do táxi - diz ele. Logo no primeiro livro em sua nova casa - "Vastas emoções e pensamentos imperfeitos" - a "Veja" quis dar capa para Fonseca. Em troca, pedia apenas para entrar durante 15 minutos na casa do escritor, fazer uma foto e pegar alguns dados menores. Ele disse "não". - Mas ele ficou sentindo-se mal por mim, porque a editora era pequena à época - conta Schwarcz. Seus textos são pontuados por citações, referências, reflexões sobre a escrita e homenagens - uma personagem se chama Clarice Simone por causa da escritora Clarice Lispector e da cantora Simone. Tem um estilo de narrar que o acadêmico Alfredo Bosi chamou de brutalista. Segundo Tomás Eloy Martinez, ele "instala o medo ou o mal no próprio interior da linguagem" e "cada uma de suas palavras é como uma nota musical arrancada da sinfonia do mal". Sua grande arte de falar das pequenas criaturas lhe rendeu prêmios como o Jabuti, o Camões, o Juan Rulfo e o Goethe de Literatura no Brasil. Os críticos costumam considerá-lo melhor contista do que romancista - ele tem quatro textos incluídos na coletânea "Os cem melhores contos brasileiros do século". Já se disse que seu ciclo contundente e criativo estava encerrado, já se afirmou que quando acabou a ditadura ele se acomodou, já se publicou que estava escrevendo no piloto automático - profecias que acabam sepultadas depois que Fonseca escreve uma nova obra, renova-se, mostra um fôlego de iniciante e confirma o que disse Thomas Pynchon: "Cada livro dele não é só uma viagem que vale a pena: é uma viagem de algum modo necessária." Comente aqui:
|