| DizVentura II |
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Quarta-feira, Março 16, 2005
Reportagem com o escritor Miguel Sousa Tavares Paixão além-mar - O português Miguel Sousa Tavares faz do Brasil cenário de seu próximo romance Miguel Sousa Tavares abre um de seus raros sorrisos, pousa o cigarro na mesa do hotel Copacabana Palace e, sem precisar sequer olhar para a praia à sua frente, faz a declaração:- Juntamente com meus três filhos, minha mãe e minha atual mulher, a outra paixão da minha vida é o Brasil. E o Futebol Clube do Porto. Já se vão 27 anos desde que ele esteve aqui pela primeira vez, de férias, acompanhado da primeira mulher. - Acho que bastou abrir a porta do avião e foi daqueles amores à primeira vista, instantâneos - lembra o jornalista e escritor português, colunista de esportes do jornal "A bola", colunista político do diário "Público", comentarista da TVI e autor do celebrado romance "Equador". A visita de agora nada tem de ociosa. Ele veio a trabalho, pesquisar para seu novo livro, um romance passado entre 1915 e 1960, e ambientado na Andaluzia (Espanha), no Alentejo (Portugal) e no Vale do Paraíba. Durante três dias, percorreu cinco fazendas cafeeiras do Rio e de São Paulo, já que um dos personagens é um português que vem para o Brasil e se estabelece na região, nos anos 20. - Passei uma noite mágica numa das fazendas. Dormi de janelas abertas, numa noite de lua cheia, numa cama da época, com a renda batendo na janela. Via as nuvens passando e ouvia os gritos dos pássaros. Você precisa sentir o calor, aquele bafo, os mosquitos, o cheiro da clorofila para poder descrever. Também foi por isto que ele fez questão de passar uma noite no Copacabana Palace. - Hospedei-me aqui porque meu personagem vai dormir uns dias no hotel. Para escrever "Equador", ele visitou São Tomé e Príncipe, onde se passa a maior parte da trama. Lançado ano passado no Brasil, o livro marca sua estréia no romance. Em Portugal, já vendeu 250 mil exemplares - um feito e tanto para um país de apenas dez milhões de habitantes e baixo índice de leitura em comparação a outros países da Europa. Aqui, já está na segunda edição e foi publicado respeitando-se a grafia original, por exigência do autor. O protagonista, por exemplo, apanha um comboio, em vez de pegar um trem. - Fiz questão de que não houvesse adaptação, como foi proposto pela editora Nova Fronteira. Acho que assim a língua fica mais rica, porque brasileiros, portugueses e africanos incorporam novas palavras. Aos 53 anos, ele relembra sua única incursão pela poesia. - Eu tinha 18 anos e mostrei os textos para minha mãe. Ela leu, balançou a cabeça e disse: "Experimenta outra coisa." Eram poemas-boi - brinca ele, explicando que, em Portugal, existe a expressão cheque-boi. - É aquele cheque que o bancário pega, olha com desconfiança e murmura, com aquele barulho característico do boi: "Huummmmm." O detalhe é que Sousa Tavares é filho de Sophia de Mello Breyner Andresen, uma das maiores poetisas da história de Portugal. Mais tarde, ela acabou se tornando a maior fã do escritor. - Já no fim da vida, ela falava: "Só leio os livros do meu filho Miguel." Ela dizia que eu tinha uma escrita muito descritiva. Infelizmente, não chegou a ler "Equador". Tenho isso atravessado. Mas conversamos muito sobre a história. Ela queria que eu mudasse o final. Ele não mudou e Sophia, que morreu em julho passado, não pôde acompanhar o sucesso extraordinário do livro de seu filho. Nos próximos meses, "Equador" vai ser lançado na França, na Espanha, na Itália, na Alemanha, na República Tcheca e em outros países da América Latina. Em seguida, é a vez de Grécia, Sérvia e Montenegro, Croácia e Bósnia. E, no ano que vem, da Inglaterra e dos EUA. Foram 13 meses mergulhado dia e noite no romance - com um intervalo de cinco meses parado. - Tive um bloqueio. Virei para minha mulher e disse: "Falhei, mas pelo menos sei que não sou capaz." Era um desperdício ter encostado o livro depois de 300 páginas, mas paciência. Sousa Tavares acabou superando os obstáculos criativos e preenchendo um livro que, apesar das mais de 500 páginas, flui sem maiores embaraços. Autor diz ter prestado um serviço à leitura - Mais que escritor, Miguel Sousa Tavares, que abandonou a advocacia, define-se como um contador de histórias O novo livro de Miguel Sousa Tavares percorre 45 anos de História e termina com a inauguração de Brasília. - É uma época de grandes transformações tecnológicas e políticas. O romance começa com uma viagem para a Espanha de carruagem e termina com outra de avião dentro do Brasil. E se passa em três países que funcionam em ciclos políticos opostos. Quando há ditadura num, há liberdade em outro. A idéia surgiu quando ele voltava para Lisboa da Festa Literária de Paraty (Flip), no ano passado. O piloto do avião convidou o escritor para ir à cabine e contou-lhe a história de seu avô, que tinha emigrado para o Brasil nos anos 20. De volta a Portugal, passaram a se encontrar e ele começou a criar a trama. Sousa Tavares define-se mais como contador de histórias que como escritor. - Se você considerar que cada exemplar é lido por duas pessoas, meio milhão de portugueses leram meu livro - diz ele. - É um em cada 20 habitantes. Não sei se prestei um serviço à literatura, mas sei que prestei um serviço à leitura. Mais que uma frase de efeito, é uma constatação de que a Sousa Tavares interessa mais o encadeamento da história do que as firulas literárias. - Seduz-me mais do que tudo a estrutura da narrativa, pensar como a história vai fazer sentido e agradar aos leitores. O ímpeto criativo começou cedo. Aos 10 anos, ele escrevia três redações a cada tema que a professora primária passava. Guardava a melhor para si e vendia as outras duas para colegas. Mas levou tempo até que fizesse da vocação a profissão definitiva: Sousa Tavares trabalhou 12 anos como advogado. - Fazia muito a área criminal. O problema é que ia morrendo de fome, porque criminoso não paga a conta. E, às vezes, até leva um dinheiro emprestado. Até que ele se cansou. - Mandei um juiz à merda, despi a toga e dei meu Grito do Ipiranga. Assumiu o ofício da mãe e do pai, Francisco Sousa Tavares, que, além de advogado, era jornalista e escritor. - Você não pode contrariar os genes. Tem que arrumar uma maneira de dominá-los. Sempre soube que ia escrever. A única situação onde nunca estarei indefeso é se tiver uma caneta e um papel. Quando me zango, agarro e escrevo. Muitas vezes me arrependi daquilo que falei, mas não daquilo que escrevi. "Equador" foi escrito em apenas treze meses, mas levou dez anos para amadurecer. Quando finalmente tomou a decisão, tornou-se um recluso. - Não saía com amigos, quase que só via minha mulher nos fins de semana, não ia ao cinema e não via televisão, só futebol e os jornais nacionais. Comecei a ficar preocupado, porque só saía de casa para tomar café da manhã numa pastelaria, e, mesmo assim, já ficava ansioso em voltar para a casa. Estava me tornando anti-social, um alien. O mundo fazia-me confusão. O livro tinha que estar pronto para a Feira de Lisboa, mas agora ele não fixou prazo para terminar o novo romance. - Desta vez, não vou pôr no papel nada até que não esteja completamente satisfeito. E também não vou me preocupar com o tamanho do livro. Se tiver que ter mil páginas, terá. Sai em dois volumes, vende-se como tijolo, não sei. O fato de seu primeiro romance ter feito sucesso com suas mais de 500 páginas permite a Sousa Tavares tal luxo. Lançado em Portugal pela Oficina do Livro, "Equador" tem uma linguagem deliberadamente fílmica - "quis que lessem como se estivessem vendo um filme" - e seu autor já foi sondado para transformá-lo em longa-metragem. Ele prefere esperar as traduções em inglês. - Em Portugal, não há grandes diretores nem capacidade financeira para isso. É uma história que sai cara. Enquanto "Equador" percorre o mundo, Sousa Tavares viaja atrás de dados para seu novo livro. A ida ao Vale do Paraíba talvez tenha que ser repetida. - Não foi completa, mas valeu no sentido de que me inseri no ambiente e conheci detalhes como o fogão da cozinha, a arquitetura, os jardins, as árvores que se plantavam, os pássaros que se ouviam. Mas quero olhar mais e dormir em fazendas cafeeiras privadas, que não funcionem como pousadas. Os turistas distraem um pouco. Mas visitar o Brasil não é nenhum tormento para ele. - Só não conheço Minas. E só sei do Sul pelos romances de Erico Verissimo, que povoaram minha infância. Eu deveria virar brasileiro honorário. Mas teve uma época em que me zanguei com o país, por causa do Sarney e do Collor. Achava que os brasileiros só davam tiros nos próprios pés. Lula pelo menos é esforçado, não é um ator de cabaré como Collor - diz ele, conhecido pelas tiradas mordazes. A obsessão de Sousa Tavares com os detalhes vai levá-lo ainda a uma tourada. - Há uma cena que se passa numa arena de touros na Andaluzia. Já escrevi este capítulo, mas falta ver ao vivo para completar o texto. Tenho que ir lá sentir o cheiro dos touros, ouvir o que eles gritam, escutar as vozes. Comente aqui: Terça-feira, Março 15, 2005
Não é paranóia Quando eu digo que ninguém acerta meu nome não é paranóia. É um tal de me chamarem de Paulo, Lauro, Mário... E olha que me chamo Mauro, e não Cléverton. Mas vamos aos fatos. O escritor português Miguel Sousa Tavares passou duas semanas no Brasil. Veio fazer pesquisas para seu novo livro, que é passado no Vale do Paraíba, na Andaluzia e no Alentejo. Miguel é autor do romance "Equador", que já vendeu 250 mil exemplares em Portugal e aqui já está na segunda edição. Durante uns dias, tive o privilégio de ser uma espécie de cicerone de Miguel no Rio. Levei-o para jantar no restaurante Sobrenatural, em Santa Teresa, e apresentei-lhe uma roda de choro. Meu pai também organizou para ele um jantar tipicamente mineiro na casa de Lula Vieira e Silvana Gontijo. Miguel ficou feliz da vida em provar angu, de que tanto ouvirara falar. Falamo-nos ao telefone algumas vezes. No último dia de Miguel no Rio, consegui convendê-lo a dar-me uma entrevista, que saiu publicada no caderno Prosa & Verso do sábado passado. Afinal, trata-se de um dos principais escritores portugueses, apaixonado pelo Brasil, que vai usar o país como cenário de seu novo romance. Ao fim da conversa, ele presenteou-me com um exemplar de seu magnífico "Equador". E fez uma dedicatória caprichada, retribuindo a hospitalidade. Agradeci, nos despedimos e entrei no táxi. Demorei-me a abrir o livro, prolongando o prazer de ver o texto. Quando abro, lá está: "Ao Paulo, com amizade, Miguel." Pois é, depois dizem que eu exagero. Comente aqui:
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