| DizVentura II |
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Sexta-feira, Fevereiro 25, 2005
Reportagem sobre cinema no Pará A primeira sessão de cinema - Em meio às más notícias, Pará celebra projeto da atriz Dira Paes que leva o cinema brasileiro a todo o estado Dira Paes recebeu convite para passar o último fim de semana na Ilha de Caras, mas trocou os dias de folga e de paparicação por um sábado e um domingo de trabalho na Ilha do Cumbu. Isso mesmo: Ilha do Cumbu, uma localidade sem energia elétrica e tratamento de água no norte do Pará, em plena Floresta Amazônica. A Solineuza de "A diarista" tinha sido chamada pela revista para ir à ilha de Angra dos Reis, junto com outros nomes paraenses, como Fafá de Belém, a modelo Caroline Ribeiro e os integrantes do grupo Mestres da Guitarrada, mas tinha um compromisso inadiável: o lançamento do projeto Circuito Festcine Belém, que vai levar o cinema brasileiro às regiões mais remotas do Pará. A idéia dos organizadores - a própria Dira e o produtor cultural Emanoel Freitas - é desbravar culturalmente um estado marcado por notícias negativas, como conflitos de terra e o assassinato da freira americana Dorothy Stang. Na estréia, no sábado, foi projetado no Igarapé Cumbu o longa-metragem "Como fazer um filme de amor", de José Roberto Torero. No domingo, foi a vez de se exibir no centro comunitário do Furo do Piriquitaquara "O casamento de Louise", de Betse de Paula. - Juro que não é um festival pornô - brinca a atriz, referindo-se às duas localidades escolhidas para inaugurar o circuito, Cumbu e Furo do Piriquitaquara. - Vou exibir meu filme no Furo do Piriquitaquara? Não dá para botar no currículo - gracejava Betse. As piadas surgiam a todo instante e o nome de um dos lugarejos foi logo transformado em Furo da Periquita. As duas sessões eram de fato incomuns, assistidas por um público pouco habituado ao cinema e realizadas em salas ao ar livre, com 500 cadeiras de plástico espalhadas no meio do mato para receber os espectadores da própria ilha e de Belém do Pará. Francinaldo pegou seu pequeno barco a motor - batizado de Fé em Deus - e veio com a mulher, quatro filhos, cinco sobrinhos e a mãe. Isabel Pantoja, de 15 anos, enfrentou a resistência da mãe, chegou sozinha e teve que tomar quatro ônibus e mais uma lancha até atingir seu destino. Teve gente que optou pela canoa ou até pelo jet ski. Na tarde de domingo, mais de 20 embarcações tinham aportado no píer de madeira de Piriquitaquara. Era a primeira vez que Francinaldo e seus 11 parentes - entre 3 e 63 anos - iam ao cinema. - Se não estivesse aqui, estaria dormindo - diz ele. Era difícil não se comover com cenas como a chegada de Joana Nascimento, que pôs sua melhor roupa e viajou num barquinho a remo conhecido como casquinho, segurando a sobrinha de 8 meses no colo, enquanto protegia a menina com uma sombrinha. Junto, iam ainda duas outras sobrinhas, de 5 e 10 anos, e um filho, de 14, que remava sozinho levando a família de ribeirinhos rumo à sua primeira sessão de cinema. Jane Lima Correia, de 15 anos, também fazia sua estréia. De batom, brincos vistosos e visual caprichado, ela deu um chá de cadeira em três amigos. - Esperamos à beça ela se maquiar - reclamava Júnior. Foi um acontecimento memorável para aquela população miserável, pouco acostumada a receber qualquer tipo de agrado. No começo, o público se mostrou reticente e demorou a ocupar as cadeiras, como que desconfiando do presente inesperado. Mas, aos poucos, os moradores foram se chegando, com filhos no colo ou sacos de pipoca nas mãos. Mesmo quem veio de Belém elogiou a iniciativa. - Vi hoje um brilho inédito no rosto da minha filha - conta o arquiteto Ronaldo Ramos, de 40 anos, acompanhado da menina de 8. - Nunca vi carregarem uma parafernália tão grande para levar divertimento ao povo - impressionou-se o engenheiro sanitarista Carlos Benedito da Silva, de 49 anos. E deu trabalho carregar a tal parafernália até Cumbu. O caminhão que saiu de São Paulo na quarta-feira retrasada com o projetor e a tela ficou preso numa barreira da Polícia Federal e até sexta à noite não tinha chegado, para desespero de Dira e Freitas. A solução era cancelar a exibição. Ou lançar mão do Plano B. Eles mandaram confeccionar às pressas em Belém uma tela, que ficou pronta ao meio-dia de sábado. E, em vez de projetar o filme de Torero em película, tiveram que se contentar com fita de vídeo. No domingo, o caminhão chegou, mas a tela de oito metros por cinco encomendada não veio - em seu lugar veio uma errada, de quatro por três. A lente tampouco era a certa, o que fez com que o filme de Betse só ocupasse parte da tela Mas os periquitaquaraenses não reclamaram. Nem mesmo quando a chuva obrigou todo mundo a se refugiar numa varanda fechada e a assistir ao filme de longe. O movimento brusco da platéia fez com que um cabo se soltasse e a sessão fosse interrompida por dez minutos. A exibição conseguiu atrair figuras normalmente arredias, como dona Angélica Quaresma, de 79 anos, que raramente sai de casa. Oito filhos, "um bocado de netos", "uns dez bisnetos" e até um trineto, como lembrou uma parente, para espanto da própria dona Angélica ("Ah, é?"), ela jamais tinha visto um filme na tela grande. - É melhor do que eu imaginava. O coração alegra muito - diz. - Mas não vão esquecer da gente, não é? Não, prometeram Dira e Freitas. Circuito faz parte do Festival de Belém - Idéia é levar filmes brasileiros às ilhas, às praias, à periferia, aos municípios do interior e a instituições sociais O circuito itinerante organizado por Dira Paes e Emanoel Freitas é um desdobramento do Festival de Cinema de Belém. A mostra foi criada ano passado e surgiu depois de uma constatação feita por eles em 2003: dos mais de 90 festivais de cinema do país, nenhum era na Região Norte. Foram atrás de patrocínio, e, em 2004, fizeram a primeira edição do Festcine Belém. Este ano, a disputa pelos prêmios Ver-o-Peso do Cinema Brasileiro - referência ao conhecido mercado da capital - acontece de 10 a 16 de junho. - Nossa idéia é quebrar este conceito de festival que dura uma semana em uma capital. A competição se dá em junho, mas o Festcine Belém dura o ano todo, graças ao nosso diferencial de levar o cinema a todo o Pará. Não é só armar o circo e ir embora - diz Freitas. Dira e Freitas conseguiram convencer a Eletrobrás, o Banco da Amazônia, a Petrobras e a Companhia Docas do Pará a entrarem no projeto do festival e do Circuito Festcine Belém do Cinema Brasileiro. O circuito é dividido em cinco partes: Cinema Vai às Ilhas (exibição para a população ribeirinha), Cinema Vai aos Bairros (para a periferia de Belém), Cinema pelo Pará (nos municípios), Cinema Vai às Praias e Mostra de Cinema Social (sessões em asilos, creches, presídios, hospitais e leprosários). Em três anos, eles esperam percorrer os 143 municípios do estado. Outro motivo que levou Dira a idealizar o Festcine foi a percepção de que nunca tinha feito tanto filme na vida - cinco entre 2001 e 2002 - e, quando voltou a Belém, ouvir perguntas sobre por que tinha parado de trabalhar. A estréia do circuito foi na Ilha do Cumbu, uma das 39 habitadas por comunidades de baixa renda no entorno de Belém. Apesar da proximidade com a capital, a população vive isolada. Antes de lançarem o projeto, Dira e Freitas já haviam exibido em 2004 filmes em cinco bairros da periferia da capital. - As pessoas não se sentavam nas 500 cadeiras. Diziam: "É para as autoridades." Nós falamos: "Não, é para vocês." Mesmo assim, só se sentavam depois que as sessões começavam - lembra a atriz. O projeto prevê a exibição de longas e curtas-metragens em 35 milímetros - na estréia, em Cumbu, foram mostrados ainda os curtas "Açaí com jabá" e "A moça que dançou depois de morta". O circuito inclui um bate-papo dos moradores com os responsáveis pelo projeto e os artistas. Este ano, serão 40 filmes exibidos em 99 sessões em 14 ilhas, 12 bairros da periferia, 12 municípios, cinco praias e 36 instituições sociais. Comente aqui:
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