| DizVentura II |
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Segunda-feira, Janeiro 24, 2005
Segunda parte da entrevista com o antropólogo Roberto DaMatta AEROLULA: "Muito mais sério e problemático que comprar um avião é o que se tem gasto. Fiquei assombrado. É muito funcionário, muita coisa nova, muito gasto com toalha, copo, churrasqueira, reforma do Palácio. Isso é que faz o povão olhar o Lula e dizer: 'Ele agora mudou, não é mais um de nós. Decolou.' Ele passou a ser importante. Porque você não se considera importante como operário. Sem a discussão da mudança de papéis numa democracia, você não consegue criar um sistema realmente igualitário, onde você é professor e o outro sujeito, aluno, mas num determinado contexto. Fora dali os dois são iguais. É o juiz que tem que ser chamado de doutor, o professor que tem que ser chamado de professor. Pelo amor de Deus!" ASSALTOS: "Fui assaltado duas vezes no Rio, à mão armada. Uma vez em São Cristóvão. Levaram meu salário e todos os meus documentos, que depois devolveram. E há uns três anos fui assaltado de novo, por um homem com um 38. Procedi como o brasileiro que eu critico: não dei queixa." DESCONFIANÇA:"O ponto de partida é que todo mundo vai enganar todo mundo. Se você tem sucesso, a desonestidade está embutida nele. Esse é o pressuposto da sociedade hierárquica. Agora tem a medida provisória que pega quem tem firma. Todo mundo que tem firma no Brasil vai ter que pagar um imposto maior. Quem tem sucesso, quem ganha dinheiro, quem tem uma organização que funciona, basicamente é um camarada 'que tem alguma coisa escusa'. Não dá. Se um psicanalista faz sucesso com o público, fica marcado pelos colegas. Ora, quanto mais livros um psicanalista vender, melhor para todos os psicanalistas. Quanto mais um antropólogo tem opinião e é lido, melhor para a antropologia inteira." Comente aqui: Primeira parte da entrevista com o antropólogo Roberto DaMatta O Brasil nas entrelinhas - Roberto DaMatta, o mais celebrado antropólogo brasileiro, estréia quarta como colunista do GLOBO O Brasil passou a se conhecer melhor desde que o antropólogo Roberto DaMatta debruçou-se sobre temas que costumavam ser desprezados pelas ciências sociais, como carnaval, jogo do bicho, futebol e trânsito. De volta ao Brasil há 11 meses, após 17 anos morando e dando aulas nos Estados Unidos, ele concilia o rigor profissional com um estilo acessível, como pôde ser visto em seu clássico "Carnavais, malandros e heróis". Lançado em 1979, o livro permanece atual, ao mostrar como o brasileiro oscila entre o jeitinho e a lei, entre a hierarquia e o igualitarismo. Recuperando-se de uma operação na perna direita, fruto de uma queda no Centro da cidade, ele experimentou na prática o que considera o patrimônio maior do brasileiro: a solidariedade. Numa crônica em que narra o episódio, escreveu: "Agora eu era o centro e o objeto de uma profunda generosidade." Nascido há 68 anos em Niterói, onde vive hoje, ex-professor da Universidade de Notre Dame (EUA) e atual docente da PUC do Rio, apontado por um levantamento da Unicamp como o cientista social mais citado nos trabalhos acadêmicos do país, ele passa a assinar, a partir da próxima quarta-feira, uma coluna na página 7 do GLOBO. Em seu escritório numa casa em Itaipu, cercado por postais com representações femininas e símbolos brasileiros, como carrancas e objetos indígenas, lembranças de suas pesquisas etnológicas, rodeado de netos - são oito - ele falou sobre o país que está acostumado a ler nas entrelinhas. "CARNAVAIS, MALANDROS E HERÓIS": "Na época em que escrevi o livro, em 1979, ele foi bem recebido. Teve um crítico que o incluiu como um livro de direita, o que muito me honrou, porque estava junto com Celso Furtado e Gilberto Freyre. Quando comentou o livro, a esquerda fez resenhas negativas. Não sei nem se entenderam o que queria dizer. Mas suspeito que a negatividade tenha a ver com o fato de que não abordei o Brasil através de temas que são nobres, como a história da família, da política, da economia, da História, de suas relações com o mundo ibérico. Pelo contrário, o livro aborda temas mais humildes, como o 'você sabe com quem está falando?', o carnaval, o mito do Pedro Malasartes. Teve gente que falou: 'Como você está estudando carnaval no Brasil dos anos 70? Você tem que estudar a classe operária'. Mas eu estava tentando mostrar que, no nosso caso, o buraco ficava muito mais embaixo. Não ia ser acabando com o regime militar que a gente ia criar uma sociedade democrática, porque existia uma coisa chamada 'você sabe com quem está falando?'. Aliás, o livro não é sobre o carnaval. Ele usa o carnaval como uma janela para falar do Brasil. Alguns dos resenhistas se ressentiram com o livro porque ele não tem conclusões, não é um livro normativo, que dita regras e determina o que fazer, realizando um diagnóstico, o que era muito comum nas interpretações brasileiras. Não era uma receita para o Brasil. O silêncio ou a crítica negativa cobrava esse viés opinativo, tão a gosto da nossa sociedade que delega a algumas pessoas o direito de receitar fortemente sobre ela própria. Neste livro, eu redescobri o ensaio, a obra aberta, e, como no caso de Gilberto Freyre e outros, não cheguei a nenhuma conclusão, onde você diz que deve fazer um partido tal ou um programa de ação X ou Y. O livro não apresenta isso. Por isso, creio, ele surpreendia e decepcionava. Era um livro desalinhado." OTIMISMO: "O Brasil ficou mais otimista de 1979 para cá, o que é uma mudança muito interessante. O Brasil na época do livro era mais sombrio, menos esperançoso em relação a si próprio. Vivíamos um momento de transição muito delicado em que se estavam construindo essas pontes que levariam à democracia consolidada que temos hoje. Tem mais otimismo hoje, claro, pois a esquerda está no poder. O pacto com o pessimismo foi o pacto da esquerda que apostava no quanto pior melhor, que dizia: 'Nós vamos mudar tudo que aí está'. Isto teve que ser maquiado ou modificado, porque ninguém pode governar sem amor, sem valorizar o que se governa. Essa foi uma das primeiras coisas assimiladas: você não pode ser crítico de seu próprio governo. Hoje, portanto, existe muito mais otimismo, entre outras coisas porque há a certeza de que podemos resolver certos problemas através do debate, do voto, do diálogo, da competição, e não da violência política, da qual, diga-se de passagem, a esquerda foi vítima. Este é um dado absolutamente fundamental. Estamos vivendo um momento singular em termos de situações inusitadamente favoráveis, como ocorre em algumas áreas da economia, das finanças, da mídia. Somos hoje um país consciente de sua alta criatividade em todas as mídias. E as forças contra as quais estamos lutando hoje são menos poderosas no sentido institucional do que na época em que o livro foi lançado, quando brigávamos com os velhos problemas nacionais e contra a falta de liberdade política." DIRIGISMO OFICIAL: "Hoje, felizmente, há uma vigilância muito grande. Você tem uma visão liberal do mundo entre os formadores de opinião, o que produz opiniões sensatas. Adotar o mercado não significa abrir mão de responsabilidades sociais. Daí a reação a essas agências todas, como o Conselho Federal de Jornalismo e a Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav). Só falta agora aparecer uma Agência Nacional do Turismo, porque os brasileiros estão viajando muito, como já observou um ministro. Ora, é preciso assumir que somos um país de gente livre, onde todo mundo pode viajar. Não se pode governar querendo dirigir as coisas, porque isso leva a um claro cerceamento da liberdade pela qual se lutou tanto. Esse é um paradoxo do atual governo." RAPAPÉS: "Os rapapés de que eu falo no livro não mudaram. A sociedade brasileira é extremamente preocupada, sobretudo no caso do Rio, com rapapés de alta sociedade. É extraordinária a quantidade de colunas sociais em jornais e revistas. Você tem uma necessidade de celebrização, de uma legitimação da hierarquia. O sujeito que é célebre no Brasil pode andar de sandália de dedo, de bermuda, em todos os lugares. 'Eu agora virei global, ganhei.' É como ganhar o Oscar." "VOCÊ SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO?":"Podemos discutir se o carnaval mudou ou não, e onde tem mudado, mas continua no Brasil o 'você sabe com quem está falando?'. Você prende um juiz de direito bandido? Prende por um, três anos. Há uma hierarquia que diz: 'Eu sou igual a todo mundo até certo ponto, mas devido à minha corporação eu sou um cara especial. Então por que eu voltando de Cabo Frio depois de um longo fim de semana vou ter que fazer como esses babacas todos que estão aí na fila do longo engarrafamento? Eu entro no acostamento, eu tenho um carro melhor, mais possante.' Tenho esse 'direito' às avessas. 'Se eu estou com pressa para ir a uma reunião numa grande empresa multinacional onde vou apresentar uma proposta importante, por que eu vou seguir essas regrinhas aqui? Eu vou furar o sinal.' Como é que o guardinha de trânsito vai dar um sabão num senador da República ou num ministro, se ele é o 'cara que é dono da educação, que entende tudo da energia'? Você faria? Perde o emprego. Se você estruturou tudo em termos de uma hierarquia estatal, nacionalista, de salvadores da pátria, como é que você amplia o pacto democrático? Ser ou não ser igualitário (ou aristocrata no Estado), essa é a questão. Ou seja, o problema da hierarquia como um valor social e ideológico continua. É a combinação entre a proposta de ser uma sociedade legal e socialmente igualitária, como reza a Constituição, mas ao mesmo tempo continuar com suas práticas sociais hierárquicas, que, como disse no livro, constituem o dilema brasileiro. E esse dilema ainda está vivo entre nós. Mas, devo acrescentar, estamos ultrapassando, por força da igualdade como valor, certos impasses." "FRACASSOMANIA": "É triste constatar que existe muita gente que acredita que o Brasil não possa melhorar. São três os discursos fracassomaníacos. O primeiro diz que o país não tem jeito. O segundo fala que todo mundo está a fim de roubar o Brasil. É o discurso da conspiração. Outro dia vi uma teoria interessantíssima sobre as loterias esportivas. Uma pessoa me disse que a loteria é um golpe que dão no povo brasileiro. A teoria é a seguinte: eles deixariam aumentar o prêmio e aí ele sai para uma pessoa que faz parte dessa quadrilha. Em matéria de teoria conspiratória, só teve uma que se assemelhou a essa. Foi quando o Brasil perdeu o Copa de 1998 e disseram que todos teriam recebido alguns milhões de dólares para perder da França. O que eu discuti com frentista de posto de gasolina e taxista tentando mostrar o absurdo dessa teoria... E o terceiro discurso é o que todo mundo é ladrão. Algumas correntes políticas alimentam isso, para dizer: 'Eu sou o cara que vai consertar.'" CARNAVAL: "No livro 'Carnavais, malandros e heróis', fiz uma comparação do carnaval do Rio com o de Nova Orleans (EUA) para mostrar como a festa variava de acordo com o cotidiano da sociedade que o produzia. O carnaval americano hierarquiza, enquanto o brasileiro tende para a igualdade. Nos EUA, que são uma sociedade competitiva, o carnaval de Nova Orleans exclui a competição. Veja bem, além de ocorrer somente em Nova Orleans, a sociedade que abre o desfile é a mais antiga. Tudo aquilo que os americanos rejeitam no cotidiano - a idade, a senioridade como critério público, o 'não confie em ninguém com mais de 30 anos' - aparece no carnaval. Muita gente criticou meu livro usando a suposição de que o carnaval estava acabando, mas é claro que isso não é tão simples. Basta ver o Centro do Rio, que fica muito festivo e iluminado. A menos que a gente queira criar uma Agência Nacional do Carnaval. Aí com certeza vai mudar tudo, porque vai ter um grupo que vai dizer como é que o carnaval deve ser celebrado." POLÍTICA: "Eu não quero mais falar de política nas minhas crônicas. Porque eu acho que o Brasil precisa que você fale de outras coisas. Você se elege deputado, depois senador, entra na Câmara, começa a ganhar bem e faz projetos. A gente precisa ultrapassar essa fase de fazer projetos. É muita receita para o país, falta engenho, falta resultado. O país está sobrecarregado de receitas. É muita coisa para a gente imitar... Agora, além de imitarmos a França, a Itália e, obviamente, os EUA, temos que imitar também a China e estamos a pique de imitar a Índia! Qualquer empresário paulista fala do grande exemplo dos Tigres Asiáticos. É muita imitação. Não seria mais interessante a gente fazer um trabalho também de introspecção, de ver que sociedade é essa? Temos que começar a batalha com o cotidiano, com a realidade do mundo diário. A gente tem que deixar de ser tão prescritivo e meter a mão na massa, cada um dentro da sua área. É o professor universitário que realmente dá aula, em vez de ficar fazendo greve. Pode protestar, deve protestar, mas de outra maneira. É evidente, além disso, que os políticos têm a obrigação de solucionar e vigiar determinadas coisas, em vez de ficarem aumentando seu próprio salário." FOME: "Um governo que entra preocupado com o Fome Zero já devia ter hoje, depois de dois anos, um programa, um cadastro preciso de todos os brasileiros que passam fome. O que o impede de fazer? Contrata mil pesquisadores e bota aqui em casa que eu faço isto para o Lula! Eu, como antropólogo, prometo que em um ano dou o cadastro de todos os que estão passando fome. Você acha que nos EUA eles não sabem onde tem gente com mais ou menos riqueza?". INGLATERRA: "O primeiro país que se preocupou com a questão da pobreza foi a Inglaterra, no século XVII. Tenho um livro sobre o assunto, que eu devo publicar em breve, comparando a construção e a descoberta da pobreza no mundo ibérico e no mundo anglo-saxão. Os ingleses se viram diante do dilema de ser a sociedade mais rica e poderosa do planeta, e o país que mais gerava riqueza, mas com áreas em Londres onde os burgueses, as pessoas de classe média, não podiam entrar, exatamente como nesse nosso Rio de Janeiro. Um dos programas que eles criaram lá foi de assistência. Deram pão para todo mundo. Era uma sociedade muito menor, mas os meios de controle eram mais complicados, porque eles não tinham conhecimento de estatística, de sociologia, como se tem hoje. Eles fizeram um recadastramento através das paróquias, incluíram os nomes e deram uma roupa com a letra 'p', de poor (pobre), e logo viram que era um problema separar o pobre honrado do pobre malandro, aproveitador." TRABALHO:"O Brasil é uma sociedade que teve escravos, mas que nunca discutiu ou politizou, melhor dizendo, as implicações da escravidão. E sobretudo da escravidão como um sistema social ou cultural. É uma sociedade onde até hoje o trabalho é discutível como uma coisa séria. Quem é que acredita que se realmente ganhe dinheiro trabalhando? Hoje a gente já começa a acreditar nisso, mas mesmo com o sucesso do agronegócio existem muitas dúvidas. Essas fórmulas de sucesso têm que ser mais disseminadas." LULA:"A figura do Lula é uma coisa extraordinária. Ele tem representatividade, tem um enorme papel simbólico. As oportunidades que ele, como ícone, oferece são muito grandes. O PT aceitou as regras do jogo eleitoral, e ele apareceu como uma figura palatável para os eleitores de classe média. Ele fez um pacto. Tanto que o grande programa do PT não foi colocado em prática. E é este pacto que o está segurando. Ele tem duas bolas nas mãos e tem que jogar. Tem o lado da hierarquia, que a meu ver é onde está a esquerda brasileira, que gosta de tudo amarrado, tudo burocratizado. O cinema, a TV, o livro, tudo engavetado. 'As crianças vão ler no curso primário os livros tais e tais'. E tome nacionalismo e Estado como uma racionalização. E há o lado igualitário do Brasil, que é o lado que a gente chama de liberal ou neoliberal, que é muito mais pragmático, que elegeu o Lula e fez do PT um interlocutor importante no cenário nacional. Esse é um lado mais voltado para resultado, para a disputa, a prova. Mas continua, no Brasil, a velha luta entre a hierarquia, representada por esta esquerda que gosta de envelopar tudo, e o liberalismo moderno, que é importante porque puxa o tapete de todos os pilares hierárquicos que tapam os nossos ouvidos das vozes dos mais humildes, que devem falar não apenas como pobres, mas como cidadãos. Os liberais são muito mais realistas. Lula tem uma liderança excepcional - a única coisa que peço a Deus é que ele não perca o bom senso que sempre teve." METÁFORAS: "Eu adoro as metáforas de futebol do Lula. Mas não dá para criar uma Agência Nacional dos Campeões de Futebol, que diga quais são os times que vão ganhar, como e quem vai escalar os jogadores... Tem que jogar primeiro. Esse ponto talvez ajude o Lula a entender melhor por que algumas pessoas como eu fizeram oposição ao Conselho Federal de Jornalismo e à Ancinav, e têm problemas também com a reforma da universidade pública. Se as universidades públicas fossem como times de futebol, seriam diferentes: teriam que jogar. Agora, ganhar sem jogar não dá." AMIGOS: "Tinha uma reportagem no GLOBO mostrando a nomeação de um amigo do Lula. Estamos no século XXI e a gente não consegue se livrar dos amigos. O Marquês do Paraná disse uma vez a um ministro do Império: 'Eu resisto a tudo, menos ao pedido de um amigo.'" DILEMA: "Nosso dilema é saber que sociedade queremos. Existem forças que puxam por um ideário normativo igualitário, democrático, moderno, mas, ao mesmo tempo, existem pressões para uma hierarquia brutal. Se compararmos o salário de uma professora primária, que é uma figura fundamental na construção de uma sociedade democrática e de gente sem fome, com o de um governador, faremos face a um absurdo. Isso tem que ser corrigido. Quem é que vai corrigir? Somos nós. Essas coisas não serão feitas por programas partidários, mas pela pressão da opinião pública. É, sem dúvida, um problema, um dilema universal, mas no caso do Brasil ele é gritante, brutal, vergonhoso, fundado na humildade de nossa população que não tem coragem de exigir essas correções porque as agendas políticas só falam das grandes receitas. Mas o dilema faz barulho. Não é possível que você tenha um estado como o Rio de Janeiro e até agora não tenha tido um encontro entre a governadora e o ministro da Justiça ou o presidente para atacar essa questão de uma vez por todas. O que é mais importante, pergunto eu e o povo todo do Rio: são os meus ressentimentos, minhas diferenças político-partidárias, ou os meus constituintes, o povo que, afinal de contas, me elegeu?". CIDADE-ESTADO: "O caso do Rio é de emergência. Tem que voltar a ser uma cidade-estado, tem que ter status especial. É uma combinação impossível a relação entre prefeito e governador. É uma relação estruturalmente conflitiva, por causa dos pesos da cidade e do estado." CARIOCA: "O Rio não é uma cidade comum. A cidadania carioca é muito light. Qualquer cara que chega ao Rio em dois dias vira carioca. Você chega a Belo Horizonte e em três anos você não virou mineiro. Mas, no Rio, você pega um sol, toma um banho de mar e vira carioca. Qual é a obrigação que você tem com a comunidade numa cidade voltada para o lazer? Absolutamente zero. Aí o sujeito compra maconha do menino que cinco minutos antes o assaltou." PRAIA: "O Rio é uma cidade aberta, que era capital federal, que era Cidade Maravilhosa. Maravilhosa também porque os criminosos, ou melhor, sejamos cariocas, os contraventores, patrocinavam o carnaval, e continuam patrocinando. Como é que a gente faz nessa cidade em que você chega no carnaval e na primeira página dos jornais aparecem os contraventores, as autoridades e as celebridades, todos juntos, brincando, tomando champanhe? Essa sociabilidade carioca tem a ver com a praia, jamais estudada por nenhum de nós. Nós não sabemos o que significa uma praia, um espaço inteiramente público no meio de uma cidade e uma sociedade profundamente marcadas por toda sorte de diferenças, mas permeadas por um fio comum, onde cada qual sabe o seu lugar. E quem não sabe ou leva um tiro ou vai preso. O que acontece neste espaço? Só recentemente a segurança da praia foi ameaçada pelos arrastões. Quando há algo assim, é uma coisa excepcional. Normalmente, nós nos matamos no trânsito, mas na praia não existe uma briga. Você chega de carro brigando, sai do automóvel com as crianças e vira uma flor. Como é que o brasileiro é tão organizado na praia e não pode levar essa organização para outras áreas? Essas são perguntas que estou fazendo nas minhas pesquisas no departamento de sociologia e política da PUC-Rio. Quero montar uma pesquisa sobre praia." TRÂNSITO: "O que sabemos de como dirigimos? Nada. Não quero psicologizar ou criminalizar o trânsito. Todo mundo faz isso. Quero propor a sua politização. Quero ver o que significa dirigir automóveis como um jogo de forças num sistema hierárquico. Quero ver a nossa imprudência e violência como um sintoma e uma reação numa situação impossível de ser vivenciada. O que significa dirigir um automóvel numa sociedade que se diz igualitária mas que no fundo odeia a igualdade? O que significa o espaço público numa sociedade igualitária na forma, mas profundamente aristocrática e hierárquica nos procedimentos que vão do furar a fila a arrumar emprego para amigos e parentes quando se comanda o serviço público? Significa evidentemente você ter consciência do outro como igual e não como um atrapalhador. Dá uma reportagem ver como as pessoas usam telefone público. Elas ficam 40 minutos, não estão preocupadas que seja um telefone de todos." Comente aqui: Quinta-feira, Janeiro 13, 2005
Reportagem com o cineasta Bruno Barreto Um novo olhar sobre o 174 - Bruno Barreto vai dirigir filme de ficção inspirado no documentário de José Padilha Às vésperas de completar 50 anos, em março, o cineasta Bruno Barreto, 16 filmes no currículo, 12 quilos a menos, diz, com uma voz firme e uma segurança que parece inabalável: - É a melhor história que já tive nas minhas mãos. É algo que acontece uma, talvez duas vezes na vida de um diretor. Este talvez seja o filme da minha vida, sem nenhum exagero - conta ele, que dirigiu "Dona Flor e seus dois maridos", recordista de público do cinema nacional, com 12 milhões de espectadores. Barreto está falando de seu próximo longa-metragem, inspirado em "Ônibus 174", de José Padilha. A idéia nasceu quando ele foi assistir ao documentário, na semana da estréia, em 2002, levado pela filha Helena, que trabalhou como uma das assistentes de direção do filme. Após a sessão, ligou para Padilha. - Nunca saí de um filme tão excitado e com tantas perguntas. Acho que ficamos 40 minutos no telefone - diz Barreto. Os dois conversaram principalmente sobre a mãe adotiva de Sandro do Nascimento, o bandido que fez vários passageiros de reféns num ônibus no Jardim Botânico, em 2000. - Perguntei: "Quem é essa mulher? Qual a motivação dela? Ficou com pena do cara e pronto, acolheu-o?". Padilha ficou impressionado com a ligação. - Eram perguntas que nunca tinha escutado. No mundo todo, as platéias querem saber da polícia, das cadeias, do contexto social que gerou aquele episódio. Senti que ele tinha visto uma coisa que eu não tinha visto. Padilha e o sócio, Marcos Prado, serão co-produtores, junto com Barreto. Mais que uma versão ficcional, o novo longa será apenas inspirado em "Ônibus 174". Padilha e Barreto analisam as diferenças entre os dois filmes para mostrar que um não será uma reprodução do outro. - O documentário discute a polícia, o governador, quem deu o tiro - diz Padilha. - Bruno não quer analisar a polícia do Rio de Janeiro ou resgatar a história da relação entre um menino de rua e o aparato do Estado. Ele quer falar da relação afetiva e emocional entre uma mãe procurando um filho e um filho que precisa de uma mãe. Segundo eles, não há risco de um novo "Pixote". - Não é a mesma coisa, não ficamos descrevendo o dia-a-dia dos meninos de rua. Quero falar das relações humanas entre eles. Falar dos laços afetivos das pessoas que vivem nessas condições. Não queria fazer outro "Cidade de Deus", que eu aliás adoro - detalha Barreto, diretor de filmes como "O que é isso, companheiro?", "Romance da empregada" e "Gabriela". - Os espectadores verão um filme inédito - completa Padilha. A violência não estará em primeiro plano - "ela é mais psicológica que física", como explica o diretor de "Ônibus 174". - Se fosse uma reprodução ficcional de "Ônibus 174", não teria sentido fazer. Mas o Bruno veio com uma proposta altamente interessante. É uma história humana que revela outra dimensão deste mundo que não está no documentário. Este filme, eu acho genial e sinto vontade de produzir - diz Padilha. Barreto, que começou a carreira aos 17 anos, está visivelmente empolgado com o projeto: - Nunca me senti tão jovem, com tanta energia. Roteiro é de Bráulio Mantovani - No novo filme, episódio do ônibus ocupa poucas páginas Bruno Barreto teve a idéia de chamar para escrever o roteiro Bráulio Mantovani, indicado ao Oscar por "Cidade de Deus". Mas teve que esperar um ano por ele, que estava às voltas com "Intolerância 2", de Fernando Meirelles. A espera por Mantovani compensou. - Para drama humano nunca trabalhei com ninguém tão bom assim - diz Barreto. Barreto, José Padilha e Marcos Prado começaram a conversar sobre a história em dezembro de 2003. - O roteiro está superbem construído - diz Padilha. - O fato de termos feito um documentário não esgota o assunto. O documentário gira todo em volta da cena do ônibus. No novo filme, o episódio ocupa poucas páginas do roteiro, que mostra passagens como o assassinato de sua mãe, o primeiro beijo do bandido e sua relação com o padrasto, pastor evangélico. Mas o filme não vai glamourizar Sandro. - Não vamos inocentá-lo - diz Barreto, que lança a comédia "O casamento de Romeu e Julieta" dia 11 de março em 200 cinemas do país. - A gente mostra, por exemplo, que ele roubava para cheirar - reforça Prado. Na vida real, a mãe adotiva de Sandro teve um filho e chamou-o de Alessandro. Após o parto, ficou muito deprimida e não conseguiu cuidar da criança, que foi dada para uma moça criar. Mas, cinco anos depois, recuperou-se - via religião - e foi procurar o garoto pelas ruas da cidade. Encontrou Sandro, que se disse filho dela porque precisava de uma mãe. No roteiro do filme, a mãe adotiva não consegue pagar uma dívida de drogas, é expulsa da favela pelo traficante e tem seu filho entregue para outra mulher. Duas distribuidoras - majors - já estão interessadas no projeto. - E também há interesse de distribuidoras e produtoras americanas, que já pediram para ler o roteiro - diz Padilha. A idéia é filmar no mais tardar em setembro, para lançar ano que vem. Comente aqui:
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