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Sábado, Novembro 20, 2004
Reportagem sobre o livro "Meu querido canalha" Papo canalha - Aldir Blanc, Carlos Heitor Cony, Geraldinho Carneiro, Marcelo Madureira e Ruy Castro lançam livro de contos e, a convite do GLOBO, reúnem-se para discorrer sobre a arte da canalhice Se eles fossem mesmo canalhas, teriam marcado a entrevista e dado um bolo no repórter. Mas, na hora combinada - com um ou outro ligeiro atraso - estavam todos lá, no Bar Lagoa. - Se a gente fosse canalha, teria combinado às cinco, mas só chegaria às seis e meia, porque teria aparecido uma mulher no caminho - diz o humorista Marcelo Madureira. Ele é autor, junto com Aldir Blanc, Carlos Heitor Cony, Ruy Castro e Geraldo Carneiro, do livro de contos "Meu querido canalha", que chega amanhã às livrarias. A convite do GLOBO, eles se juntaram para falar sobre a arte da canalhice. Na hora do brinde, o escritor Cony brinca: - Além de canalhas, bêbados. Foi um papo regado a sexo (verbal, é bom frisar), chope e bom humor. A relação entre canalhas e mulheres dominou a conversa. - O canalha é capaz de ir para cama com uma mulher que está com problema conjugal e salvar aquele casamento - explica o escritor Ruy. - O canalha é o único ser humano que conhece o sentido da vida, que é enfileirar mulher, comer gente - detalha Madureira. É do tipo que não poupa nem mulher de amigo. - Dependendo da mulher é um favor que você faz ao amigo - diz o humorista. - O canalha tem um plantel de fêmeas, um haras, um stud, e vai administrando aquilo. - Mas eu acho que só se pode ter sete em cada cidade. Para dedicar um dia a cada uma - ressalta Ruy. E qual a mulher ideal para o canalha? - Todas - diz um. - A próxima - corrige outro. Cony faz uma pergunta, que já tem embutida a resposta: - Quem não foi chamado de canalha por uma mulher? O letrista e escritor Aldir dá detalhes: - Apesar de não ser canalha, fui chamado de canalha só 12 vezes. E de corno, quatro. Em todos os contos do livro, aliás, há uma mulher - em geral várias. - E eu ia pensar em quê? - pergunta Aldir. - A visão que tenho do canalha não tem nada a ver com yuppie, Naya e serial killers da nação. Mas como classificar então os políticos que roubam os cofres públicos? - Não são canalhas. São ladrões - diz Ruy. Alguém observa que a editora queria um autor de São Paulo, mas não encontrou nenhum. - O canalha não é um chato. Em São Paulo não tem canalha por isso - brinca Cony. - É um fenômeno tipicamente carioca. O habitat ideal para ele é o Rio, com a praia, a sensualidade - complementa Madureira. Ruy tem uma teoria, que ele tratou de explicitar, entre goles de Coca-Cola Light - é o único que não bebe - e muitas risadas. - No Rio, se passa uma mulher gostosa, você se vira para olhar sua bunda. Ela percebe e vai embora, tratar da vida. Este gesto maravilhoso não rendeu um centavo para a economia da cidade, porque você não a convidou para tomar um café, nem para ir ao motel. Em compensação, você e ela se sentiram bem, e a cidade também, porque duas pessoas se sentiram melhor. A economia não foi alterada, mas todo mundo lucra. Mas, afinal, qual a diferença entre o canalha e o cafajeste? - O canalha é integral. É que nem burro. Nasce canalha e morre canalha. Pode viver 200 anos, ganhar o prêmio Nobel, que será canalha até o fim - defende Cony. - O cafajeste é episódico. Qualquer pessoa faz uma cafajestagem num determinado ponto da vida. Eu já fiz algumas e recebi outras. Como no dia em que usei pela primeira vez camisa vermelha. Meu pai falou: "Parece um cafajeste." Ele tinha razão. Naquela época, usar camisa vermelha era coisa de cafajeste. E o que separa o canalha do malandro? - O malandro é inteligente, criativo, como Cyro Monteiro, Geraldo Pereira e Ismael Silva. O canalha é estéril, não produz nada - diz Cony. Tentou-se fazer um tratado dos canalhas: - O canalha é um espada convicto e praticante - começa Madureira, enfatizando que só os heteros são canalhas. - É sincero até quando mente - diz Ruy. - O canalha dá rosas e urso de pelúcia, faz soneto - segue Aldir. - Ele pega um soneto do Aldir e diz que é dele - completa o poeta Geraldinho. Os autores levantam alguns nomes e discutem se são canalhas ou não. Jorginho Guinle ("Não, o canalha ideal tem que ser posto à prova na selva da sobrevivência e ele sempre foi rico"), Juscelino ("Ele interrompia qualquer coisa importante para comer alguém", diz Madureira), Papai Noel ("Aquela história da chaminé, das renas..."), bispo Edir Macedo ("É o canalha metafísico"; "Não, ele é muito focado em dinheiro"). Bush ficou de fora. Clinton, não. Afinal, diz o humorista, toda a trajetória política dele tinha um único objetivo: sexo oral com a estagiária no salão oval. Ruy acha que cada autor deveria ter dedicado seu conto a seu canalha favorito. O dele é o produtor e compositor Ronaldo Bôscoli, "um cara adorável, um canalha maravilhoso". - A atitude dele em relação a qualquer mulher era: "Se me deixar falar, eu como." - Meu canalha favorito é Ricardo III, que canta a cunhada - lista Geraldinho. - Ele foi o primeiro Palhares da história da literatura mundial - completa Aldir, referindo-se ao personagem de Nelson Rodrigues. - O canalha de que a gente está falando aqui é um sujeito que percebe em si a fibrilação da libido e acha que a sexualidade exuberante é um problema de caráter, quando não é - teoriza o poeta. - Na terceira sessão de análise, se fizesse análise, o canalha deixaria de ser canalha. - Como fala o Aldir, o canalha só faz análise para comer a psicanalista - diz Madureira. Nesta hora, Aldir volta do banheiro e diz: - Quando vai fazer xixi e sente aquele estranho perfume, o canalha tem uma profunda nostalgia de todos os puteiros que freqüentou. O conto mais pornográfico, "Agnus dei", é o de Madureira, mas ele se defende: - Sou um cara puro. Não escrevo, só psicografo. Sou um médium de espíritos maléficos. - Como se diz em canalhês carioca, isso é caô - goza Geraldinho. Nenhum deles se assume como canalha. No máximo, canalha cálido, como diz Aldir, já que pretendem "ganhar dinheiro com direito autoral da venda do livro no Natal". Geraldinho concorda: - Isso é o cúmulo da canalhice. Você vender o livro com o nome de canalha no Natal e ganhar uma grana! - É a nossa vingança. Já que a gente não come ninguém e não pode ser canalha, escreve um livro para ver se fatura um troco em cima desses caras - explica Madureira. Conto de Ruy deu idéia para livro - Autores "navegam sem cerimônia" pelo mundo dos bons canalhas O livro "Meu querido canalha" (R$ 25,90), que vai ser lançado no próximo dia 29, no Bar Lagoa, começou a surgir quando Ruy Castro mostrou o conto "La petit mort" para Isa Pessoa, diretora editorial da Objetiva. - Ali estava um personagem irresistível, um tipo que o Rio produz com desenvoltura peculiar, o cafajeste de boa linhagem, sexy e astuto - diz Isa. Mas Ruy disse que não conseguiria desenvolver outros contos centrados na mesma idéia e a editora resolveu compor uma seleção de autores que pudessem "navegar sem cerimônia no mundo dos bons canalhas". Geraldinho optou por adaptar uma sinopse escrita por um amigo, o autor de novelas Bráulio Pedroso, morto em 1990. Como se lê no livro, até os canalhas têm limites. O personagem de Cony diz: "Se eu era um galinha, não chegava a ser um cafajeste." O de Geraldinho ressalva: "Embora vigarista de profissão, eu era um romântico." Após quase três horas de conversa, Geraldinho lembra a partida entre Brasil e Equador: - Canalha não perde jogo da seleção e estamos a 15 minutos do pontapé inicial. Mas, mesmo não sendo canalha, quero encerrar dando um conselho canalha às novas gerações, tanto varões como raparigas: comam todo mundo que vocês puderem. - Olha o Geraldinho passando o bastão... - diz Madureira. - Um verdadeiro canalha não passa o bastão: passa o rodo - devolve o poeta. Comente aqui: Quinta-feira, Novembro 18, 2004
Reportagem sobre o novo filme de João Moreira Salles Diários de uma campanha - 'Entreatos' traz os bastidores da chegada de Lula à Presidência O cineasta João Moreira Salles achou que estava tudo acabado quando, numa reunião privada, José Dirceu interrompeu a fala, olhou desconfiado para a câmera e perguntou: "Tá gravando isso aí? De quem é esse pessoal?". Alguém se apressa em explicar que é a equipe de João Salles, que está fazendo um documentário sobre a campanha de Lula à Presidência da República. "Quem é João Salles?", quer saber o então presidente do PT, ouvindo de volta que eles são de confiança absoluta. "Não existe confiança absoluta porque a fita do Lula sobre Pelotas acabou na mão do nosso inimigo", retruca, referindo-se a uma brincadeira de bastidores feita em 2000, quando o petista disse que a cidade gaúcha era pólo exportador de veados. Nem ao ouvir que as fitas são guardadas todo dia num cofre, Dirceu se dá por satisfeito: "Vai nessa..." Em entrevista para divulgação do filme, o diretor revelou sua preocupação: "Ali eu pensei que o filme tinha acabado." Ao contrário do que Salles temia, as filmagens puderam continuar. E, ao contrário do que Dirceu receava, as fitas ficaram ao abrigo do público até agora. No próximo dia 26, entra em cartaz "Entreatos", documentário que acompanha Lula do dia 25 de setembro até o dia da vitória, 27 de outubro de 2002, flagrando momentos de intimidade, instantes de descontração, situações tensas, reuniões estratégicas e cenas que, vistas agora, soam curiosas. Como na hora em que Lula revela uma frustração: "Eu nunca aprendi a batucar." Ao seu lado, o marqueteiro Duda Mendonça, preso recentemente numa rinha de galo, exibe talento com as mãos. "De marketing político eu sou uma merda, mas de briga de galo e batuque...", brinca, no que é interrompido pelo então candidato: "É claro. Briga de galo não é você que briga." Foram filmadas 240 horas, que o montador Felipe Lacerda reduziu para 1h57m. Salles e o diretor de fotografia, Walter Carvalho, registraram momentos públicos - comícios, carreatas, entrevistas coletivas - e situações privadas - reuniões, camarins, encontros familiares. Mas, na edição final, privilegiaram as imagens mais reservadas. Parte do material deixado de fora - as cenas públicas - será incluído num futuro DVD. A última filmagem foi no dia 28: o telefonema de Bush para seu colega brasileiro. "A cena era ótima, mas não entrou porque concluiria o filme de modo, digamos, glorioso: o operário falando com o presidente americano. Preferi terminar de uma forma mais ambígua, com o Lula sendo engolido pela imprensa", contou Salles. Os bastidores da campanha revelam muito do perfil de Lula. Salles não esconde a afeição pelo personagem, mas não deixa de fora palavrões, brincadeiras e comentários privados. Num dado momento, Lula critica com o atual ministro da Fazenda, Antonio Palocci, as formalidades do cerimonial da Presidência: "Aqueles militares atrás de mim dando palpite, como dão lá para o Fernando Henrique Cardoso, me incomoda demais." Em outro momento, mais descontraído, Lula diz: "Aquele Palácio (Alvorada) é triste porque Fernando Henrique Cardoso nunca jogou bola. Ele não dança." O atual vice-presidente, José Alencar, completa: "Não bebe um gole." "Lula é, seguramente, um grande personagem, que a câmera gosta de filmar", disse Salles. As filmagens mostram a frustração de Lula em não ter ganho no primeiro turno, a transformação do petista radical em "Lulinha paz e amor", conduzida por Duda, e a irritação com o assédio dos fotógrafos - "Esses caras andam atrás de mim o dia inteiro, porra". Não foi fácil acompanhar os passos do candidato. A presença da equipe era negociada a todo momento, como explicou o cineasta: "¿Entreatos¿ tem uma característica de filme de guerrilha, sem luz nenhuma, entrando no avião somente com uma câmera e sem aparelhagem de som, o que explica muitas falas precisarem das legendas para ajudar na compreensão." A mania de Lula com o figurino está presente em várias cenas. "Passei 30 anos na fábrica e não me acostumei de macacão, mas (bastaram) três dias de gravata...". Depois, ele diz: "Contrataram um costureiro famoso. O cara não acerta uma camisa minha. Todas que fazem não prestam." Em seguida, imita os trejeitos de um estilista e brinca: "O cara é chique, o cara é chique. Eu mando no meu de Jurubatuba e não falha uma." Também se vê a apreensão com o novo cargo. "É uma coisa que tá tão fora da sociologia... Não tava no livro que eu poderia chegar aonde eu cheguei. (...) O que eu sei é que a partir de segunda-feira começa uma cobrança para que eu faça tudo que eu falei esses anos todos." Num dos momentos mais inesperados, a equipe entrevista, num vôo, um rapaz que Walter Carvalho imaginava tratar-se de alguém íntimo do candidato, já que estava no mesmo jatinho. Nada disso. O passageiro estava no aeroporto de Florianópolis e tinha perdido o avião para Porto Alegre, quando viu Lula e disse: "Deixa eu te dar um abraço que eu já perdi meu dia e você é a compensação." Lula, por sua vez, ofereceu: "Então você vai com a gente." E lá estava o desconhecido. Pegando carona no jatinho particular que levava o futuro presidente do Brasil. Comente aqui: Domingo, Novembro 14, 2004
Reportagem sobre filme 'JK' Os bastidores da primeira semana de filmagens de 'Bela noite para voar', longa-metragem bombardeado pela família de Juscelino Kubitschek porque tem personagem inspirada em Maria Lúcia Pedroso, que manteve romance secreto com presidente durante 18 anos A música "Fascination", na voz de Nat King Cole, toca à exaustão no set de filmagens de "JK - Bela noite para voar".- Eles gostavam muito de Nat - explica a atriz Mariana Ximenes, enquanto é maquiada para sua primeira cena. Por eles entenda-se o mineiro Juscelino Kubitschek e a carioca Maria Lúcia Pedroso. Os dois mantiveram um romance secreto por quase 18 anos, que só terminou com a morte de JK, em 1976. O caso começou em 1958, quando ele tinha 56 anos e ela, 23. O personagem de Mariana, que no filme é chamado de Princesa, é inspirado justamente em Lúcia. As duas já tiveram dois encontros. Na sexta-feira retrasada, Lúcia saiu de sua casa, em Petrópolis, e foi jantar no apartamento da atriz. Na terça-feira passada, elas almoçaram juntas. A afinidade foi imediata. - Nunca tinha feito um personagem que está vivo. Ela é uma mulher enxuta, elegante, forte, engajada, que gosta de viver intensamente. Adoraria conseguir honrar essa pessoa encantadora - diz uma emocionada Mariana. "JK - Bela noite para voar" se passa num dia fictício de 1958. A produtora Claudia Furiati e o diretor Zelito Viana optaram por concentrar a ação em 24 horas, boa parte com o presidente em pleno vôo. Mesmo assim, o espectador vai acompanhar o momento em que JK e a Princesa se conhecem, a construção de Brasília, o Plano de Metas, as desavenças com Carlos Lacerda e encontros com João Goulart, Jânio Quadros, Luiz Carlos Prestes e Oscar Niemeyer. No filme, setores da Aeronáutica descontentes com atitudes de JK - como o rompimento com o FMI - tentam sabotar o avião presidencial. "Juscelino acaba de decretar sua sentença de morte", diz a certa altura um brigadeiro. - Queremos humanizar o mito, sem deixar de mostrar o estadista que ele foi - diz Claudia. - O filme mostra toda a grandeza dele como líder republicano, mas não encobre nenhuma faceta. "JK" é livremente inspirado na obra de ficção "Bela noite para voar", de Pedro Rogério Moreira. Em vez da primeira-dama, dona Sarah, o principal personagem feminino do livro - e do filme - é Princesa, mulher inspirada em Lúcia. A família de JK não gostou. Os parentes acusam o roteiro de ser "baixo nível" e têm feito carga contra o filme, acusando-o até de ser pornô, para espanto da produção. O GLOBO acompanhou, com exclusividade, a primeira semana de trabalhos. O dia previsto para o início das filmagens era sábado e o local, o Palácio Laranjeiras. Mas, dois dias antes, a governadora Rosinha Garotinho cancelou "temporariamente" a autorização para que sua residência oficial servisse de locação, depois de receber um pedido de parentes de JK. A decisão obrigou a equipe a transferir às pressas o local para o Clube Naval e a adiar para domingo o início das filmagens. Na quarta-feira passada, Rosinha voltou atrás, após o Conselho Estadual de Cultura defender a cessão do prédio. Uma nova data vai ser marcada. A família também telefonou para a Petrobras e a Telemar, principais patrocinadores do filme. A pressão fez com que a produção enviasse carta para as empresas explicando que "JK" é baseado numa obra literária e em fontes públicas sobre uma figura pública. O cuidado em tranqüilizar as firmas se justifica: por enquanto, os produtores só conseguiram captar metade do orçamento de R$3,9 milhões. - O espírito democrático de JK está muito forte no filme, que recupera aquele Brasil autoconfiante e feliz. Ele era um homem de tolerância e liberdade e esta ação inibidora não confere com a imagem do presidente - lamenta Claudia. Antes das filmagens, Claudia e Vera de Paula - produtora associada e mulher de Zelito - foram a Petrópolis conversar com Lúcia. - Falamos: queremos fazer uma coisa bonita, singela, doce, romântica, delicada, nada grosseira, e precisamos de você para ajudar a compor o personagem - conta Claudia. - Ela topou, afeiçoou-se ao projeto, mas se sentiu um pouco temerosa. Falou das dificuldades que seria fazer um filme não oficial, que não fosse chapa-branca. E realmente é difícil. Mas a idéia é popularizar Juscelino. Todos amamos JK, mas eles de um jeito e nós de outro. Claudia e Zelito chegaram a fazer modificações no roteiro, para evitar maiores conflitos com a família. Saiu, por exemplo, uma cena em que ele, conhecido sedutor, fazia charme para uma prefeita na inauguração de uma obra. As mudanças não aplacaram a ira da família de Juscelino. Mas o lado amoroso, frisa Zelito, é apenas parte do filme. - Tem aventura, suspense, divertimento, romance e política. E discute questões muito atuais, como o rompimento com o FMI e as disputas desenvolvimento versus juros e democracia versus autoritarismo. Juscelino é interpretado por José de Abreu, que já viveu o personagem no teatro há 15 anos. Mas o papel de agora é bem diferente. - Fui indicado na época pela própria dona Sarah e fiquei muito amigo da família. Houve um acordo tácito de que não se tocaria no lado afetivo - lembra. A peça fez sucesso e emocionou os parentes de Juscelino. Mas o JK de agora desperta sentimentos opostos. - Não estou entendendo a reação deles - surpreende-se Abreu, lembrando que o lado mundano de Juscelino já é por demais conhecido. De qualquer forma, o ator tomou suas precauções: - Fui de novo a Brasília pedir autorização ao homem para reencarná-lo. Ação se concentra num único dia - Filme sobre Juscelino tem previsão de lançamento para meados de 2005 O projeto original de um filme sobre JK era de Nei Sroulevich e Marcelo França e tinha como título provisório "De Nonô a JK". O roteiro, de José Louzeiro, concentrava-se na infância. Mais tarde, Luiz Carlos Maciel fez um novo roteiro, que mostrava o presidente mais velho, lembrando o passado. Com a morte de Nei, sua viúva, Claudia Furiati, e seu filho Daniel assumiram a empreitada. Os dois roteiros foram abandonados por questões financeiras e dramatúrgicas - eram muito abrangentes. Claudia e Zelito Viana acharam melhor concentrar a ação num único dia. O próprio Zelito escreveu o novo roteiro. As filmagens terminam no dia 8 de dezembro e a previsão é de que o longa seja lançado em meados de 2005. A atriz Mariana Ximenes rodou sua primeira cena na terça-feira passada, num palacete em Botafogo. Ao som de "Fascination", ela toma banho de espuma, enquanto segura uma medalha com a imagem de JK. O objeto foi emprestado pela própria Maria Lúcia Pedroso. Antes de começar a rodar a cena, um técnico se encarregou de reduzir o - compreensível - grande número de pessoas no set. - Tem mais gente do que precisa. Se precisar, a gente chama. A cena foi refeita várias vezes. - Está acabando a espuma - diz Zelito. Uma máquina é usada para produzir novas bolhas. A certa altura, a atriz se vira na banheira. - Apareceu a calcinha, vamos fazer de novo - explica o diretor. Mariana e José de Abreu encabeçam um elenco que tem ainda nomes como Marcos Palmeira (Carlos Lacerda), Cecil Thiré (marechal Lott), David Pinheiro (Celso) e André Barros (Affonso). Emílio de Mello, que faz Oscar Niemeyer, encontrou-se com o arquiteto para compor o personagem. Uma curiosidade: João Vicente Goulart interpreta seu pai, Jango. Reportagem com Maria Lúcia Pedroso 'O amor nunca foi feio' - Maria Lúcia Pedroso diz que sente saudade até hoje de Juscelino Maria Lúcia Pedroso conserva a elegância que tanto encantou Juscelino Kubitschek. Ela faz elogios ao presidente, à equipe do filme e à atriz Mariana Ximenes, que se disse encantada em conhecê-la. - O encantamento é recíproco. Não podiam ter encontrado pessoa melhor para me representar. Eu disse a ela: "Você podia ser minha filha." Lúcia ajudou a atriz a compor o personagem. Como na cena em que Mariana toma banho de espuma. - Falei: "Não molha o cabelo, não. Senão vai ficar com cara de pintinha molhada." A personagem estava se arrumando para sair e não molharia o cabelo. Graças ao conselho, a atriz filmou com o cabelo preso. Lúcia acha que a família de JK não deveria se importar tanto com as referências a ela. Para Lúcia, o importante é que as pessoas vão conhecer melhor "um homem público maravilhoso, o maior de todos os brasileiros". - Claro que o filme engrandece Juscelino. Não tem nada ali que deixe ninguém mal. O amor nunca foi feio. Todo homem tem seu lado romântico e não há vergonha nisso - conta ela. - Falei para Zelito que ele não devia ligar. Disse: "Vai para frente e faz." JK e Lúcia tiveram um caso de amor secreto que durou 18 anos. Quando se conheceram, ele era casado com dona Sarah e ela, com o deputado José Pedroso, líder do Partido Social Democrático (PSD), o mesmo do presidente. Ela fala com carinho e admiração de Juscelino. - Ele tinha um charme louco. Exercia fascínio nos homens e nas mulheres. Sinto uma saudade enorme dele. Até hoje. Comente aqui: Terça-feira, Novembro 02, 2004
Reportagem sobre lançamentos de livros inusitados Lançamentos se renovam e ganham clima de festa - Leituras dramatizadas, atores, DJs e filmes movimentam a noite e ajudam a vender livros Era difícil achar um anônimo no lançamento do livro "A comédia dos anjos" (Editora Planeta), de Adriana Falcão. Procura daqui, procura dali, e a autora lembrou-se de alguém que esteve na fila. - Uma moça veio com a tia, disse que adorava meus livros e falou: "Tomara que eu goste deste." De resto, eram todos figurinhas conhecidas, como Marieta Severo, Paulo José, Renata Sorrah, Patrícia Pillar, Guel Arraes, Domingos de Oliveira, Priscilla Rozenbaum, Bel Kutner, Drica Moraes, Christine Fernandes, Cissa Guimarães, Xuxa Lopes, Daniel Dantas, Taís Araújo, Teresa Seiblitz, Monique Gardenberg e Zezé Polessa. O evento não foi inusitado só pela lista de presença. O local era pouco usual - o restaurante 00, na quarta-feira passada - e a programação ia além da fórmula autora-autografa-livro-enquanto-convidados-tomam-vinho-branco. A começar pelos DJs: os atores Wagner Moura e Lúcio Mauro Filho. Tinha também exibição de curtas-metragens em telão e leitura dramatizada. Moura, Lúcio, Silvia Buarque, Virginia Cavendish, Lázaro Ramos, Gustavo Falcão e Rodrigo Penna leram trechos do livro, dirigidos por João Falcão. Nos últimos tempos, vira e mexe tem um lançamento incomum. No próximo dia 22, a Objetiva lança "Meu querido canalha" - com contos escritos por Ruy Castro, Carlos Heitor Cony, Aldir Blanc, Geraldinho Carneiro e Marcelo Madureira - no Bar Lagoa. E, no dia 25, é a vez de "Amor é prosa, sexo é poesia", reunindo crônicas de Arnaldo Jabor, que será lançado na butique Maria Bonita Extra, em Ipanema. A loja queria comemorar um ano e fez o convite à editora, que sugeriu o livro com crônicas amorosas de Jabor. Mas não é preciso buscar um lugar alternativo para movimentar o lançamento. A editora já tinha promovido uma performance em abril, quando o Asdrúbal Trouxe o Trombone voltou a se reunir para a leitura dramatizada da peça "Trate-me leão", lançada em livro. Nomes como Hamilton Vaz Pereira, Regina Casé, Perfeito Fortuna, Nina de Pádua e Evandro Mesquita transformaram a Livraria da Travessa de Ipanema em palco e lembraram o maior sucesso do grupo. Este mês, a Travessa abrigou o lançamento de outro livro da editora, "Bandidos e mocinhas", de Nelson Motta. Fernanda Torres, Marília Pêra, Lázaro Ramos, Edwin Luisi e Rodrigo Penna revezaram-se na leitura. É a segunda vez que o nome de Penna aparece aqui citado. Justifica-se: ele é um dos principais incentivadores da idéia de movimentar os lançamentos. Foi ele quem sugeriu as leituras das obras de Nelson Motta e Adriana Falcão. E do livro que será lançado hoje, às 20h, também na Travessa: "PS. Beijei" (Editora Salamandra), de Mariana Verissimo - filha de Luis Fernando Verissimo - e Adriana Falcão. Mariana Ximenes - que rodou há pouco "A máquina", baseado na peça de Adriana - e Luana Piovani - musa de Verissimo - incorporarão as duas adolescentes que se correspondem por e-mail e falam de temas como o primeiro beijo. - O autor relaxa, os convidados vêem algo diferente, vira um bochicho pseudocultural. É uma brincadeira bacana, boa para o escritor, para os fotógrafos, para mim, para o público e para a casa. Não fica aquilo de fotinha, beijinho e adjetivos soltos no ar - diz Penna. Mas ele não perde de vista o objetivo principal. Tanto que, no fim da apresentação, diz: - Agora por favor comprem seus livros. O ator Lázaro Ramos elogia a experiência. - É que nem o aperitivo no restaurante. Você dá para os convidados um pouquinho do livro e os deixa com água na boca. E tira uma certa formalidade, do autor ficar sentado o tempo todo dando autógrafo. A informalidade dá o tom. No restaurante 00, o ator Bruno Garcia não pôde comparecer, mas Lúcio Mauro Filho foi. O ensaio aconteceu ali mesmo, pouco antes da apresentação. Alguém calculava que a leitura iria durar cinco minutos, outro falava em 20, acabou durando 15. Mas a noite só terminou mesmo às 3h. - Olha só que delícia - aprovou Penna. Comente aqui: Reportagem sobre a cultura no Rio Esvaziamento cultural assusta produtores - Queixas vão da falta de patrocínio e de espaços à indefinição nas leis de incentivo Quem quis ver o grupo de rock Linkin Park, a exposição de Picasso, o musical "Chicago" ou a peça "Mademoiselle Chanel", com Marília Pêra, só teve uma saída: rumar para São Paulo. É cada vez maior o número de atrações culturais que segue para a capital paulista sem desembarcar no Rio. Faltam espaços adequados, falta dinheiro, falta patrocínio, sobram violência e queixas sobre o esvaziamento cultural da cidade. - A situação do Rio parece bastante difícil - diz Maria Rita Stumpf, da Antares, que trouxe este ano a companhia de Merce Cunningham para o Teatro Municipal. - É como se estivéssemos estabelecidos no Rio, mas trabalhando para São Paulo. Pela tradição que tem, o Rio resiste a tornar-se uma cidade acessória de São Paulo, mas se nada de consistente for feito tudo indica que este é o futuro da cidade. O Rio sofre com a falta de empresas patrocinadoras - salvam-se as estatais. Como as leis federais (Rouanet e do Audiovisual) passam por reformulação, os empresários estão retraídos. - São enormes as expectativas com relação às alterações, ainda mais em um quadro crítico, de retração do mercado cultural nacional. A retração atinge particularmente o Rio, que desde 2003 vem sofrendo queda na oferta de empregos no setor e fechamento de muitas pequenas e médias produtoras - explica o produtor Ivan Fortes, da Arte com Trato. Ele diz que a lei de incentivo à cultura municipal foi, desde 2003, direcionada exclusivamente para o audiovisual, impossibilitando que todas as demais áreas tenham acesso às verbas incentivadas do município. - Para 2005, esperam-se alterações nesse quadro, mas é uma grande incógnita - diz ele, que elogia a lei estadual de incentivo à cultura. Bianca De Felippes, da Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro (APTR), diz que a indefinição nas leis federais gera paralisia. - Há uma crise muito grande no setor cultural do Rio. Há uma falta absoluta de patrocínio. As empresas que já patrocinam se retraíram ou estão indo para outras áreas, como o social e o esporte - conta ela, produtora do espetáculo "SoPPa de letra", um dos maiores sucessos da temporada, que levou cinco anos para ser montado. Segundo ela, o teatro do Rio captou este ano apenas R$ 5,8 milhões. - O Estado do Rio não tem dinheiro nem política cultural. A lei de incentivo estadual é bacana, mas como o estado não tem dotação orçamentária banca sua programação com o incentivo que deveria estar no mercado - diz ela, citando o caso do Teatro Municipal. Música e teatro sofrem com falta de espaços no Rio - Produtor diz que se resolver problema cidade vai voltar a ser capital cultural Musicais como "A bela e a fera", "O beijo da mulher-aranha", "Les misérables" e "Chicago" foram montados em São Paulo, mas não chegaram ao Rio por falta de espaços adequados. - Chegamos ao momento do S.O.S. - diz a atriz Maria Padilha. - Os teatros municipais são um brinco, mas os estaduais estão entregues à própria sorte. E o Estado não tem projeto cultural nenhum. Além disso, precisamos de uma política federal emergencial para o teatro. Os shows também são afetados pela falta de espaços. - É o que mais atrapalha no Rio - diz o promotor de eventos William Crunfli, responsável pela vinda do grupo de rock Linkin Park, que reuniu 80 mil pessoas em setembro no Morumbi. A banda só tinha uma data na agenda e escolheu São Paulo. - O Maracanã é muito grande, não é para qualquer atração. A Cidade do Rock é gigantesca, para movimentar se gasta muito. O Claro Hall cobra um percentual muito grande e o Canecão e a Marina são pequenos - detalha Crunfli. Resta a Apoteose, que vai abrigar, dia 7, o evento Rio Axé. Mas o local tem afugentado produtores, por causa da violência. São Paulo, ao contrário, tem várias opções, como os estádios do Morumbi, Pacaembu e Parque Antártica. Mas Crunfli frisa que o mercado do Rio é "maravilhoso". - Há um fascínio pela cidade. Tem artista que coloca a condição: só vou ao Brasil se tocar no Rio. A hora em que resolver a questão de espaço vai ser a capital cultural do país novamente. Steffen Dauelsberg, da Dell'Arte, que trouxe a BBC Symphony Orchestra - única grande orquestra a se apresentar no Rio em 2004- concorda que a cidade exerce atração sobre os artistas. - Pagamos sempre menos que São Paulo e Buenos Aires. Não são os mesmos cachês. Buscamos sensibilizar os artistas. Não tem sentido vir para a América do Sul e não vir ao Rio - conta ele, que se diz otimista: - Claro que há esvaziamento econômico e mudança do fórum decisório para São Paulo, mas vendo mais ingresso aqui que lá. O público carioca sabe o que é um produto de qualidade e prestigia. Estrategicamente, sempre começamos nossas turnês no Rio, que é a caixa de ressonância. Ele diz que a Cidade da Música, que a prefeitura está construindo na Barra, vai "esquentar a vida cultural, formando um novo núcleo, já que é difícil o público do bairro ir para a Zona Sul e vice-versa". Nas artes plásticas, o cenário é pouco animador. - Falta tudo. O Rio tem hoje poucas mostras internacionais e nenhum grande evento nacional. Atualmente, a cidade que reflete a produção nacional é São Paulo - diz o curador Marcus Lontra. - Viajo pelo Brasil todo e fico assustado em ver como os artistas e críticos do Rio não estão vendo o que está acontecendo no país. Ele acredita que a cidade é mal trabalhada. - Houve um curto-circuito dos artistas com o prefeito por causa do Guggenheim. Isso tem que acabar. Falta articulação política da prefeitura, juntando as forças produtivas, sensibilizando empresários para investir em cultura, catalizando investimentos na área e oferecendo renúncia fiscal. Comente aqui:
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