DizVentura II

Sábado, Outubro 16, 2004

Reportagem sobre Fernando Sabino

O último 'mineiro do apocalipse'

Marcar um encontro com Fernando Sabino não era tarefa fácil - ainda mais se fosse um pedido de entrevista. Ele se desculpava gentilmente, citando o dia em que foi pedir a opinião do poeta Augusto Schmidt e ouviu: "Ah, escreve você, coloca umas palavras bonitas na minha boca...".

O autor de "O encontro marcado" explicava que tudo que tinha a dizer estava em sua volumosa obra, que começou a ser construída aos 13 anos, quando escreveu um conto policial para uma revista da PM mineira.

À época, ainda assinava Fernando Tavares Sabino. Aos 18 anos, ouviu de Mário de Andrade, com quem se correspondeu por muitos anos, o conselho: "Se você quiser continuar sendo escritor, tem que encurtar o nome." Ele acatou a opinião do amigo, encolheu a assinatura e esticou a carreira literária ao longo de mais de seis décadas, seja como autor de romances como "O grande mentecapto", seja como escritor de crônicas que narram com humor e lirismo os desacertos e os absurdos da vida cotidiana.

Último dos "quatro mineiros do apocalipse", Sabino formou com Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos a mais produtiva e intensa amizade da literatura brasileira. Drummond, que conheceu os quatro numa mesa de bar em 1943, escreveu: "Um grupo inteiro, formado de quatro cavaleiros, não sei se da Távola Redonda ou do Apocalipse - pois de tudo vocês tinham um pouco, em mistura de sonho, desbragamento, fúria, ingenuidade, amor, pureza".

Sabino nasceu em 12 de outubro de 1923. "Dia da Criança que eu sou até hoje", apressava-se em completar. Para ele, o ser humano tinha como tarefa "recuperar a inocência perdida e tornar a olhar o mundo com os olhos lavados de pureza, de quem vê a vida pela primeira vez". Desde cedo pedira que em seu epitáfio constasse a inscrição: "Aqui jaz Fernando Sabino, nasceu homem, morreu menino."

Há dois anos, Sabino descobriu que estava com câncer no esôfago. O tratamento parecia ter dado certo, mas, há dois meses, um tumor no fígado o levou a fazer quimioterapia. No começo de setembro, disse a uma amiga que estava tendo uma visão e que iria embora brevemente. Por volta do meio-dia de ontem, na véspera de completar 81 anos, Sabino morreu em seu apartamento, na Rua Canning, em Ipanema, cercado pelos seis filhos. O quadro de saúde tinha se agravado e, desde quinta-feira, era mantido sedado. O filho Bernardo disse:

- Meu pai sempre continuou trabalhando. Só parou mesmo na fase terminal.

Seu velório, no São João Batista, reuniu amigos como os escritores Moacyr Werneck de Castro e Affonso Romano de Sant'Anna, o acadêmico Sábato Magaldi, o cartunista Ziraldo e o jornalista Wilson Figueiredo. O enterro será hoje, às 11h.

O escritor não gostava de atender o telefone. Três secretárias - duas eletrônicas, além de Fabiana - encarregavam-se de filtrar os interlocutores indesejados. Depois das críticas que recebeu pelo livro "Zélia, uma paixão", Sabino restringiu sua vida social. Mas bronqueava quando o chamavam de recluso. Se é certo que era avesso a comemorações, que vivia afastado dos holofotes e que se mantinha arredio às homenagens, ele podia ser encontrado diariamente em caminhadas pelo calçadão de Copacabana ou batendo perna por Ipanema.

A verdade é que Sabino preferia o contato com porteiros, garçons, manobristas, moradores de rua - gente comum, tantas vezes transformada em crônica. Costumava mobilizar os amigos para ajudar figuras como Barbudo e Rubem, dois vendedores de livros das ruas de Ipanema. "Eles não são mendigos, mas o rapa vem e recolhe tudo. São discretos, não atrapalham, será que não tem como conseguirmos uma licença para eles?", perguntava, pedindo que o gesto não fosse tornado público.

Certa vez, junto com Otto, foi até a Barra da Tijuca soltar Barbudo, que tinha sido detido. Sabino tinha uma frase que ajudava a entender sua atitude: "Quando você tem um problema muito difícil de resolver, comece por resolver o problema dos outros."

As cartas que escreveu aos três amigos foram tornadas públicas em 2002. Em "Cartas na mesa", ele dá mostras de uma voracidade epistolar que já tinha sido revelada antes no livro "Cartas perto do coração", reunindo a correspondência trocada com Clarice Lispector. A obra vai virar peça, pelas mãos de Marcelo Andrade e André Mauro, que pretendem estrear o espetáculo em março do ano que vem, em Belo Horizonte. Dramaturgo, diretor e ator, Andrade tornou-se, nos últimos anos, o amigo mais próximo de Sabino.

- Quando falamos sobre a peça, na semana passada, ele disse: "Você está me dando punhaladas de mel nos olhos" - lembra Andrade.

Este ano, Sabino lançou seu último livro, "Os movimentos simulados", na verdade escrito aos 23 anos e só agora publicado.

Nascido em Belo Horizonte, Sabino mudou-se para o Rio aos 21 anos, já casado com Helena, filha do ex-governador mineiro Benedito Valadares. Ainda adolescente, publicou seu primeiro livro, "Os grilos não cantam mais". Em julho de 1999, recebeu da Academia Brasileira de Letras (ABL) o prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra. Doou os R$40 mil à caridade, como já tinha feito antes com US$50 mil recebidos por "Zélia, uma paixão". Apesar dos convites, nunca quis se candidatar à ABL. Justificava: "Não tenho vocação para atividades de caráter social, como associações de classe, sindicatos e agremiações."

A bateria e o jazz estavam entre suas maiores paixões. Gostava de dizer que só tocava depois da terceira dose de uísque. A última apresentação de sua banda foi em fevereiro, no Shopping Cassino Atlântico, em Copacabana, quando foi ovacionado pelo público. Uma vez, encontrou-se com um amigo, que reclamou: "Tem um cara no meu prédio que toca bateria!". Era o próprio Sabino, que depois da queixa resolveu doar o instrumento para Dom Hélder Câmara leiloar em benefício da Feira da Providência. Mais tarde, comprou uma nova bateria, que ficava armada em sua casa.

Nos últimos tempos, Sabino dedicava-se a revisar sua obra publicada pela editora Record e a revirar seu baú literário. Não queria deixar nada inédito para ser lançado após sua morte. A razão? "O que não foi publicado é porque não presta."

O jeito moleque e o espírito brincalhão acompanhavam-no por toda a parte. Suas raras incursões à vida noturna nos últimos anos eram assim justificadas: "Meus amigos estão no São João Batista, que fecha às 18h", gracejava.

- Ele nunca reclamou do câncer. Falava do beija-flor que pousava em sua janela, adorava ir à Livraria da Travessa de Ipanema, gostava de andar de ônibus, caminhar pelo calçadão e se fingir de estrangeiro, falando em espanhol - conta Marcelo Andrade. - Fernando conservou até o fim o humor e a poesia.

Comente aqui:

Segunda-feira, Outubro 04, 2004

Reportagem sobre o Festival do Rio

O terror é alvo do olhar de 11 cineastas - O surpreendente 'Descrença' e o irregular '18-J', que passam hoje, tratam do mesmo tema: os atentados terroristas

A diferença é que um dos atentados teve como cenário Buenos Aires e o outro, Moscou. Mas, nos dois casos, terroristas destruíram um prédio, causaram dezenas de mortos e não foram até agora punidos. O ataque à sede de uma ONG, a Associação Mutual Israel-Argentina (AMIA), em 1994, matou 85 pessoas e é recordado no filme "18-J", que passa hoje, às 18h30m e às 23h, no Espaço Unibanco 1. A explosão num prédio residencial de Moscou, em 1999, deixou 92 mortos e é lembrada em "Descrença", que será exibido hoje, às 14h, no Espaço Unibanco 3.

Dois atentados semelhantes resultaram em dois filmes radicalmente diferentes. "Descrença", de Andrei Nekrasov, é um documentário que segue os passos da filha de uma das vítimas para levantar a dúvida: o ataque foi mesmo culpa de separatistas chechenos, como se apressou a divulgar o governo da Rússia? Ou foi obra do serviço secreto russo, o FSB (ex-KGB), para justificar uma invasão à Chechênia e ajudar a eleger Vladimir Putin, então primeiro-ministro? Embora não forneça respostas definitivas, o filme reconstitui de forma surpreendente uma das tragédias mais enigmáticas da história recente da Rússia.

"18-J" - o nome é uma referência à data da explosão, 18 de julho - é composto de dez episódios de ficção, dirigidos por dez diretores. Como é dito na introdução, os cineastas argentinos decidiram fazer este filme - o primeiro sobre o assunto - "para homenagear as vítimas e exigir que se saiba a verdade". Mais do que abordar as causas políticas, o longa-metragem quer mostrar como a tragédia afetou os argentinos e lembrar que o atentado no centro de Buenos Aires continua impune. A obra resulta desigual - não fosse o filme composto por dez pontos de vista sobre um mesmo episódio.

"Descrença" acompanha a volta a Moscou de uma russa, Tanya, que vive com o marido americano e o filho em Milwaukee (EUA). Na tentativa de descobrir os culpados pela explosão que matou a mãe no dia 9 de setembro, ela envereda por uma trama que mistura assassinatos, contradições, conspirações, intrigas e mentiras. Pouco a pouco, a versão oficial das autoridades russas vai sendo desmontada diante das câmeras. Nem Putin escapa das suspeitas levantadas pelo filme.

Dividido em 12 partes, "Descrença", que será exibido também na terça, na quarta e na quinta-feira, só peca na hora em que contrapõe a vida tranqüila nos Estados Unidos, com suas casas com jardim no subúrbio, ao caos na Rússia. Mas é um pecado menor diante do trabalho investigativo - e cinematográfico - de Andrei Nekrasov.

No caminho, Tanya cruza com personagens como um promotor que acompanha as investigações, um rapaz preso injustamente, um americano que escreveu um livro responsabilizando o FSB, um porta-voz dos rebeldes chechenos - responsáveis pelo recente massacre na escola em Beslan - familiares de outras vítimas e com seus próprios parentes. É uma viagem de busca aos culpados, mas também de reencontro com a pátria esquecida.

- Eu perdi minha mãe e perdi minha Rússia - diz ela, a certa altura.

"18-J", que também passa na terça e na quarta-feira, é uma obra coletiva em que cabem episódios tão distintos como o balé dirigido por Mauricio Wainrot e a sucessão de fotos das vítimas, do cineasta Carlos Sorín. Há espaço para o menino de 10 anos que nasceu no mesmo dia da explosão e perdeu o pai no atentado, para depoimentos de vizinhos do prédio e para o casal que celebra a circuncisão do recém-nascido enquanto espera pelo parente que não virá.

Algumas histórias deixam a desejar, mas há bons momentos, como "A ira de Deus", dirigido por Marcelo Schapces, sobre um garoto judeu que não quer fazer o Bar Mitzvah e, na hora da explosão, acha que o atentado é um castigo divino por sua rebeldia. Também impressiona o monólogo da atriz Susú Pecoraro em "Vingança", com direção do cineasta Alejandro Doria. Ela rememora "o horror", reclama da impunidade e cita seu espanto com as ambulâncias falsas, que estavam ali "talvez para comprovar as dimensões do inferno, ou para tirar ou plantar alguma prova".

O terrorismo - e a guerra, em especial a do Iraque - tem estado em foco no Festival do Rio. A mostra Limites e Fronteiras trouxe filmes como "Sobre Bagdá", "Pessoas sob suspeita", "Verdade revelada: a guerra no Iraque", "Rota 181: fragmentos de uma viagem na Palestina-Israel" e "A caminho de Bagdá", que passa hoje e amanhã e faz um perfil do diplomata Sérgio Vieira de Mello, morto num atentado no Iraque. O documentário "Central al Jazeera" fez tanto sucesso que deve voltar na repescagem do festival.

Ainda dá tempo de ver dois filmes que tratam do conflito entre israelenses e palestinos. Amanhã, na terça e na quarta-feira será exibido "Muro", uma co-produção franco-israelense. O documentário fala do polêmico muro que Israel está construindo na Cisjordânia e ganhou o prêmio de melhor filme na Mostra Internacional de Cinema de Pesaro, na Itália. E, na terça-feira, passa o francês "Mil e um dias", que narra histórias como a do menino árabe que, de dia, desafia tanques de Israel com uma pedra e, à noite, urina de medo na cama.

Comente aqui:

Sexta-feira, Outubro 01, 2004

Reportagem sobre o filme de estréia de Maurício Farias, diretor de "A grande família"

Com a grife Guel Arraes - A exemplo de 'Lisbela e o prisioneiro', 'O coronel e o lobisomem' estreita a relação do cinema com a TV

Em tese, era simples. O ator Diogo Vilela deveria caminhar alguns passos ao lado de um galo. O problema é que o bicho andava um pouquinho e parava. Nos ensaios, saía-se bem, mas na hora de rodar a cena simplesmente empacava, mesmo com um suculento prato de milho à sua frente. Vilela dava tapinhas nas costas do galo para ver se ele se animava - e nada.

No set de filmagens, multiplicavam-se as sugestões para convencer a ave a trabalhar. "Põe uma esteira rolante", brincava um. "Que tal botar uma galinha do outro lado?", falava outro. "Coloca um tapete embaixo e vai puxando", dizia um terceiro. "Põe um chão de ferro e vai dando choques", gracejava alguém. "Segura pela goela e vai levando", palpitava outro. "Ele não deve ter feito Tablado", ironizava um integrante da equipe.

- Estamos tentando fazer o milagre de transformar um galo em ator - explicava o produtor-executivo Diogo Dahl.

Quando o filme chegar às telas, no primeiro semestre de 2005, a cena não deverá durar mais do que oito segundos, mas levou duas horas para ser feita, na última quarta-feira à noite, nos estúdios Renato Aragão, no Recreio.

Poucas horas antes, na sede da produtora Natasha, na Gávea, Paula Lavigne era só contentamento ao mostrar em primeira mão trechos dos 45 minutos de filme já montados.

- Olha que plano maravilhoso! Parece até o Spielberg, em "A lista de Schindler" - dizia ela, enquanto no monitor de TV se viam belas imagens de um trem se afastando e o ator Selton Mello surgindo em meio à fumaça.

Ao lado de Guel Arraes, também produtor do filme, Paula empolgava-se com o material filmado em Belo Horizonte, Tiradentes, Quissamã (RJ) e nos estúdios de Renato Aragão.

- Olha que mulher linda! E ainda por cima é boa atriz - festejava, na hora em que Ana Paula Arósio ocupava a tela de televisão.

Selton Mello, Guel Arraes, Paula Lavigne? Não, não é "Lisbela e o prisioneiro" parte 2. É "O coronel e o lobisomem", baseado no clássico de José Cândido de Carvalho escrito em 1964. Desta vez, Guel passou o bastão da direção para Maurício Farias e ficou como produtor e roteirista, ao lado de João Falcão e Jorge Furtado.

- Eu já tinha dirigido o especial na TV, em 1994 (com Marco Nanini, Patrícia Pillar e Paulo Bétti) - explica Guel. - Além disso, para mim seria o terceiro filme nesta linha, depois de "Auto da compadecida" e "Lisbela". Achei que agregar novos diretores, como o Maurício, permitiria a produção de mais filmes dentro deste projeto.

E que projeto é este que leva a grife Guel Arraes?

- Um cinema brasileiro popular e bem-feito, comercial, mas com inquietação de linguagem - resume.

No set, às 21h15m, o galo era finalmente liberado de seus afazeres artísticos - sem ter completado todo o trajeto previsto inicialmente, para desapontamento da equipe.

- Meu dia começa às 7h - diz Farias, que faz sua estréia no longa-metragem, depois de dois curtas e trabalhos bem-sucedidos na televisão, como a direção do seriado "A grande família".

Serão 39 dias de filmagem para fazer um filme de cem minutos. Ou seja, para rodar menos de quatro minutos gastam-se em média 12 horas diárias. Para os padrões de TV, uma eternidade. Para o cinema, alta velocidade. Afinal, Guel e Paula querem filmes de qualidade e feitura rápida, com ares de superprodução, mas custos enxutos. O filme está orçado em R$7 milhões, mas Paula tem feito várias parcerias para reduzir os gastos.

- Não posso passar cinco anos captando patrocínio. Teria uma úlcera - diz Paula. - Meu primeiro orçamento de efeitos especiais era de R$1,5 milhão. Quase caí dura e desisti de fazer o filme.

Ela deu uma percentagem da produção para a Digital 21 e o valor caiu para pouco mais de R$200 mil.

- Também consegui economizar R$50 mil de tecido graças a um acordo com a indústria têxtil. Eles me deram o material, fiz os figurinos e vou devolver os vestidos prontos, que serão usados numa exposição.

A maior parte das filmagens se desenrola em Minas Gerais. O patrocínio é apenas parte da explicação.

- Queríamos uma paisagem meio de fábula, grandiosa, operística - diz Guel. - Afinal, o coronel (Ponciano, vivido por Vilela) é meio exagerado.

A migração de diretores de TV para a tela grande tem sido cada vez mais comum, mas Guel e Farias não temem a contaminação excessiva do cinema pela TV.

- É questão do estilo de cada um - diz Guel. - Por que meus filmes não se parecem com o de Jayme Monjardim ("Olga") se nós dois somos de TV? Na verdade, os trabalhos que faço na televisão já se aproximam do cinema, pois, como tenho mais tempo e dinheiro, o conteúdo artístico tem que ser mais elaborado. E meus trabalhos no cinema se aproximam da TV, pois são filmes populares com proposta artística. Um caminha para o outro.

Farias, que quer levar "A grande família" para o cinema, optou em "O coronel e o lobisomem" por muitos planos abertos, em vez de recorrer a toda hora aos closes.

- Ouvi durante muitos anos que estava fazendo cinema na TV. Mas não acho que esteja agora fazendo TV no cinema, já que a narrativa do filme privilegia as ações - diz ele, num intervalo das filmagens da cena do galo. - Quase fui à loucura mesmo foi com um cavalo. Em vez de avançar com a carruagem, ele teimava em ir para trás.

Guel Arraes vai levar às telas 'O bem amado' - Diogo Vilela diz que produtor e diretor faz humor com autocrítica

"O coronel e o lobisomem" conta a história do coronel Ponciano e seu amigo Nogueira, filho da empregada da fazenda. Os dois são criados juntos e disputam a mesma mulher, Esmeraldina. O filme tem doses de realismo fantástico. Ponciano, por exemplo, cisma que Nogueira é um lobisomem. No fim do mês, em Fernando de Noronha, serão rodadas as últimas cenas, que mostram uma sereia.

Guel Arraes já tem mais um filme engatilhado - "O bem amado", romance de Dias Gomes que mais tarde virou novela e seriado. Ele gostaria de ver Marco Nanini no papel que foi de Paulo Gracindo. Seu "Lisbela e o prisioneiro" tornou-se o terceiro maior público - atrás apenas de "Carandiru" e "Cidade de Deus" - e a segunda maior renda da retomada do cinema brasileiro.

Diogo Vilela acha que o filão dos filmes com a grife de Guel está longe de se esgotar.

- O público cria identidade com o cinema nacional. E é um humor inteligente, com autocrítica. Você ri de si mesmo - diz ele, com uma barba postiça de US$6 mil vinda de Londres.

Selton Mello concorda.

- O público em geral não quer saber de tragédia. Quer sair de casa para se divertir - diz ele, que interpretou Nogueira depois da desistência de Fábio Assunção, que foi posar para um editorial de moda em Veneza. - É um personagem que todo ator adora, tem várias fases e é cheio de nuances. Comente aqui:
Reportagem sobre o Festival do Rio

Cinema de risco - Diretores que concorrem na mostra Première Brasil falam de filmes de autor, mercado e Ancinav

De Domingos Oliveira, que rodou seu filme em oito dias, a Alice de Andrade, que levou cinco anos para fazer seu primeiro longa-metragem, os dez cineastas que competem a partir de amanhã na mostra Première Brasil do Festival do Rio têm mais pontos de contato do que as diferenças de idade e de trajetória fazem supor.

- É uma seleção bem heterogênea, mas há algo em comum: os dez filmes são de risco - constata Sylvio Back, que disputa com "Lost Zweig".

De fato, nenhum dos concorrentes na categoria ficção é o que se pode chamar de filme comercial, com atores "globais", linguagem televisiva e grande orçamento. A convite do GLOBO, oito deles se reuniram na última terça-feira no Odeon para falar de seus trabalhos, de cinema brasileiro e de Ancinav - o brasiliense José Eduardo Belmonte, diretor de "Subterrâneos", e o paulista Roberto Moreira, de "Contra todos", não puderam comparecer.

A hora da pose foi marcada por brincadeiras.

- Poderíamos segurar uma foto dos dois que estão faltando - diz Alice, diretora de "O diabo a quatro".

- Felipe e Heitor ficam agachados no chão - sugere Joel Zito Araújo ("Filhas do vento"). - Afinal, há uma hierarquia. Os mais jovens têm que começar de baixo.

Felipe Joffily, de 24 anos, e Heitor Dhalia ("Nina"), de 34, eram os caçulas de um grupo que tinha como decanos Domingos, diretor de "Feminices", e Back.

- Há um empate técnico - disse Back, ao saber que ele e Domingos eram do mesmo ano, 1936.

O tom bem-humorado dominou a conversa, como quando Joffily, que fez seu "Ódiquê?" sem nenhum real de dinheiro "incentivado", observou:

- O cinema brasileiro felizmente ainda não criou muitas regras, como o americano. As fórmulas comerciais acabam limitando.

Back contra-argumentou:

- Já tem um movimento agora em direção a uma linguagem padronizada. Mas a padronização não garante sucesso de público. E só na presença de meus advogados eu direi os nomes dos diretores.

O tema cinema autoral versus cinema comercial ocupou boa parte das discussões.

- O cinema brasileiro vai extremamente mal, numa linha que torna inviável os filmes de autor e cada vez mais favorece os popularescos de má qualidade - lamentou Domingos.

Mesmo assim, ele não pensa em fazer diferente. Continua a rodar filmes rápidos, baratos e com a ajuda de amigos.

- Detesto alto orçamento. É muito comprometedor, fica tudo muito devagar. No meu último filme, eu disse: "Na hora em que chegar o gerador eu saio" - contou, em meio a risadas dos colegas.

Helena Solberg ("Vida de menina") concordou:

- Isso que o Domingos falou é de um realismo absoluto. Queria fazer um filme de R$6 milhões, mas custou R$2,8 milhões. Para filme de época é muito barato.

Diretores elogiam colegas argentinos e filmes autorais - Cineastas criticam leis de incentivo, debatem cinema comercial e dividem-se quanto às queixas

Os cineastas que disputam a mostra Première Brasil na categoria ficção foram unânimes em elogiar seus colegas argentinos.

- Nuestros hermanos estão bombando, com filmes que retratam a realidade deles - diz Lúcia Murat, diretora de "Quase dois irmãos". - Lá não tem lei de incentivo fiscal, e sim um instituto de cinema. E há muita co-produção internacional. Os argentinos têm um financiamento direto do Estado e não ficam dependentes dos diretores de marketing das empresas. É um grande exemplo para a gente.

Domingos Oliveira, jurado do último Festival de Mar del Plata, reconhece o talento dos diretores vizinhos.

- Queríamos premiar tudo menos a Argentina, já que estávamos lá, mas não teve jeito. Eles eram os melhores.

No bate-papo no Odeon, Lúcia chamou a atenção para a importância das chamadas produções "médias" - ou de risco, como diz Sylvio Back.

- O cinema de que eu gosto e que temos que defender como prioritário, até porque ele precisa de uma defesa, é o independente, que busca uma identificação nossa e está representado aqui.

Mas e o público, está sintonizado com o cinema de autor?

- O cinema brasileiro está completamente divorciado de seu público. A gente não trabalha para alimentar espiritualmente a platéia, trabalha para ganhar patrocínio - critica Domingos.

Back é da mesma opinião.

- O público precisa ser reinventado. Ele é passivo, conservador. E falta formação de platéia, não tem um público dente-de-leite.

Joel Zito Araújo vê dois caminhos hoje do cinema brasileiro: o de riscos e o de marketing.

- O de marketing não arrisca. O máximo que faz é um pouquinho de experimentação de linguagem, mas não de temas. O que nos caracteriza é o desejo de discutir o Brasil. Há aqui uma diversidade de enfoques de conversar com o país. Mas qualquer tema que possa trazer uma novidade é muito mal visto pelas grandes cadeias cinematográficas.

Back concorda em parte.

- É uma meia verdade, Joel. Afinal, nossos filmes, bem ou mal, tiveram incentivo fiscal.

Mas Back, a exemplo de Joel, vê duas correntes.

- Há um divisor de águas no cinema brasileiro. De um lado, filmes comerciais, explicitamente voltados para o grande público. De outro, obras com temáticas inquietantes, que investem na linguagem. Nós estamos do outro lado da margem. No mesmo terreno, mas o nosso é totalmente minado.

Domingos completa:

- E o dinheiro vai quase todo para os primeiros.

- Se você se submete à linguagem televisiva, hollywoodiana, com temas que não sejam conflitantes, acaba arrumando financiamento. Mas quando vem com filme autoral é uma pedreira - complementa Back.

Helena intervém para lembrar que, quando o filme é bom, o boca a boca pode compensar a falta de dinheiro para divulgação. Mas Joel rebate e diz que a escassez de salas faz com que os filmes fiquem pouco tempo em exibição.

- Se fica duas semanas em cartaz, não tem chance de boca a boca.

- Tem que fazer sucesso no primeiro fim de semana, senão você não explode e na próxima sexta-feira não está mais na sala - concorda Back.

Lúcia diz que o problema maior está na distribuição.

- A gente está conseguindo produzir, mas não consegue ter o potencial junto ao público. Eu não estou no meu limite. Tenho certeza de que tem mais público interessado no meu filme do que o que existe hoje.

A solução, diz Domingos, é investir principalmente na infra-estrutura da atividade - ou seja, na construção de salas, no apoio a jovens autores, em tornar ingressos mais baratos.

- Há um mau uso do dinheiro público. Não dá para utilizar a verba só no patrocínio de filmes, que é a ponta do iceberg, mais gloriosa, mais festiva.

Heitor Dhalia vai na contramão das lamentações.

- Sou de uma geração pragmática. Sei as dificuldades do mercado, sei que há algumas injustiças, mas normalmente, de um jeito ou de outro, todo filme acaba encontrando seu público.

Seu longa-metragem "Nina", baseado livremente em "Crime e castigo", de Dostoiévski, é uma produção experimental, mas que conseguiu a façanha de ser distribuído por uma major - a Columbia.

- Como você conseguiu esse milagre? - pergunta Domingos, ouvindo de volta um "não sei".

- Eles viram e gostaram. "Nina" é sombrio, fechado, radical, psicológico, de visual expressionista. É um filme do circuito de artes, de cinéfilos, mas, de uma maneira ou de outra, está encontrando seu espaço no mundo - diz Dhalia, contando que o filme, que estréia em novembro, já participou de vários festivais. - Em todo lugar onde a gente vai, fazemos barulho.

"Nina" esteve em Rotterdã e em Los Angeles ("onde foi um dos hits", diz), em Moscou (prêmio da crítica), em Nova York (prêmio de direção), no Peru (prêmio de fotografia), na Coréia, na Austrália, na Argentina e no México. E vai agora para a Polônia e a Finlândia.

- Você faz o filme que você quer e tem que assumir as conseqüências, sem chororô. Não quis fazer concessões e sei os riscos que corri - acredita.

Mas as queixas fizeram parte da conversa. Domingos diz ter feito há poucos dias uma conta que o assustou.

- Tive uma depressão que não dormi a noite inteira. Imagine que o seu filme tenha cem mil espectadores. Nenhum de nós aqui fez esse número, fez?

Não, responderam todos.

- Com um ingresso médio a R$ 8, dá R$ 800 mil - continuou Domingos. - Sobram R$ 320 mil para o produtor. Se você gasta no mínimo R$ 100 mil para lançar seu filme, restam R$ 220 mil. E ninguém faz filme de R$ 220 mil. Você está sempre no vermelho.

- É um cinema historicamente no vermelho - concorda Back.

O bate-papo girou também em torno dos próprios trabalhos.

- Foram cinco anos fazendo "O diabo a quatro", filme politicamente incorreto que trata de questões sociais graves, com graça. Só de filmagem foram oitos semanas e dez dias. E um ano de montagem. Foi muita canseira, é meu primeiro longa e já ando dizendo que vou me aposentar - contou Alice de Andrade. - A gente conhece a realidade da dominação do cinema americano, mas tenho que acreditar que exista uma inteligência maior no público que vai saber reconhecer caminhos originais e diferentes.

Os diretores também comentaram a seleção do filme brasileiro candidato a uma indicação ao Oscar. Àquela altura, ainda não havia sido anunciada a escolha de "Olga".

- Acho que tem que ser "Olga" por causa da neve. Americano adora neve - ironizou alguém, com a condição do anonimato.

A transformação da Ancine em Ancinav foi um assunto que não gerou muito ibope.

- Nossa posição, da Abraci (Associação Brasileira dos Cineastas), é de apoio à Ancinav, mas com a criação de um grupo de estudo para discutir as questões divergentes - explicou Helena Solberg.

Entre os pontos polêmicos, está a taxação aos ingressos e às cópias.

- A Ancinav nos força a pensar a economia do cinema - elogiou Zito.

Os cineastas se despediram com promessas mútuas. "Estou doida para ver seu filme", diz uma. "Quando passa o seu? Vou ver", promete outro. "Meus olheiros falaram muito bem de seu filme em Gramado", falou Back para Zito.

No fim, os diretores elogiaram a iniciativa de se reunirem.

- Acabou provocando um papo que há muito tempo não rola - diz Back.

Comente aqui:

Página corrente