| DizVentura II |
|
Segunda-feira, Setembro 13, 2004
Reportagem sobre Rio como capital do cinema Audiovisual, vocação histórica da cidade - Produtor diz que falta apoio estatal, mas Rio é pólo da 'indústria criativa' É com a autoridade de quem levou quase 14 milhões de pessoas aos cinemas nos últimos dez anos que o produtor Diler Trindade afirma: - O Rio é a capital da indústria audiovisual brasileira - diz ele, que, desde a retomada do cinema nacional, em 1994, já fez dez filmes, em geral ocupando os estúdios do Pólo Audiovisual, na Barra da Tijuca. O produtor Luiz Carlos Barreto vai além. Para ele, o Rio é a capital das indústrias criativas, termo que designa atividades como o cinema, a música, o carnaval, o turismo e a moda. - É uma cidade que teve a grande felicidade de não se industrializar e se tornou vocacionada para a indústria criativa, que é o crãme de la crãme, porque não polui e emprega gente e não apenas máquinas - diz. - Mas isso acontece de maneira espontânea, natural, sem mecanismos de apoio, porque infelizmente os governos não aproveitam a capacidade inventiva da população. A ligação da cidade com o cinema recua a janeiro de 1898, quando Afonso Segreto fez aquela que é considerada a primeira filmagem no Brasil, com imagens da entrada da Baía de Guanabara. De lá para cá, o título de capital do audiovisual se consolidou. Como mostra o boletim de mercado Filme B, somando-se o público de 1994 para cá, das dez maiores produtoras brasileiras só a HB Filmes (de Hector Babenco) e a O2 Produções (de Fernando Meirelles) não são do Rio. - É uma indústria que tem a cara daqui - diz Gustavo Dahl, presidente da Ancine, que cita a diversidade de paisagens que permite as mais variadas locações. - Se bobear tem o Brasil inteiro no Rio. Leonardo Monteiro de Barros, da Conspiração, concorda: - Tem praia, Mata Atlântica, deserto, lagoas, ilhas, Brasil Colônia, Brasil Império e Brasil República. De olho nisso, a Riofilme lançou um projeto, a Riofilme Commission, para vender a cidade como locação para longas-metragens estrangeiros. A produtora Mariza Leão diz que o fato de sediar o maior pólo audiovisual do país - o Projac - faz com que venham para cá diretores e atores de todo o Brasil, o que permite "uma efervescência e uma troca de idéias e experiências muito grande". A Central Globo de Produção - o Projac - produziu, só no ano passado, 2.522 horas de entretenimento. - Dá sete vezes a produção anual de Hollywood - diz Luís Erlanger, diretor da Central Globo de Comunicação. - E, dos oito filmes produzidos pela Globo Filmes em 2004, cinco (entre eles "Redentor") terão sido rodados no Rio. A vocação da cidade para o audiovisual confirmou-se ao longo dos anos, com a abertura do primeiro estúdio brasileiro, a Cinédia, e da Atlântida, o aparecimento do Cinema Novo, a criação da Embrafilme e o surgimento das mostras de cinema - hoje o Festival do Rio é o maior do país. - É uma estatística que nunca foi feita, mas o Rio foi provavelmente o maior produtor de filmes da história do país - diz Hernani Heffner, conservador da Cinemateca do MAM. Falta agora crescer o circuito exibidor - o Rio está em oitavo lugar na média de habitantes por sala. - Precisamos de mais salas de cinema. Ou seja, pontos de venda para os nossos filmes - diz Diler. Comente aqui: Segunda-feira, Setembro 06, 2004
Reportagem sobre o filme 'Promessas de um mundo novo' A vida entre a Tora e o Alcorão - Filme que mostra o conflito árabe-israelense sob a ótica das crianças, inédito na TV, passa hoje no GNT Eles moram a não mais que 20 minutos uns dos outros, mas as diferenças religiosas e políticas fazem com que a proximidade física seja intransponível. Basta ver a opinião do israelense Moishe sobre seus vizinhos: - Não conheço crianças árabes nem quero conhecê-las. Se eu for amigo de um árabe, todos vão me chamar de idiota! As crianças árabes podem virar terroristas. Pensem nisso. O conceito que o palestino Mahmoud faz dos moradores ao lado tampouco é generoso. - Não gosto de falar com judeus! Eles são crianças, mas aprenderam desde cedo a ver o outro como inimigo. Moishe e Mahmoud são dois dos personagens de "Promessas de um novo mundo", documentário inédito na TV que o GNT passa hoje, às 20h30m. Indicado ao Oscar em 2002 - perdeu para o francês "Assassinato numa manhã de domingo" - o filme conquistou prêmios em várias mostras, fez sucesso no Festival do Rio de 2001 e tornou-se a 11ª maior bilheteria brasileira dos últimos dez anos entre os documentários. Com 37 mil espectadores, desbancou produções badaladas, como "Ônibus 174" e "Nelson Freire", e, entre os estrangeiros, só perdeu para "Fahrenheit 11 de setembro", "Buena Vista Social Clube" e "Tiros em Columbine". É fácil entender por quê. "Promessas" acompanha, entre 1995 e 2000, a vida de sete crianças israelenses e palestinas em Jerusalém. O filme mostra o conflito entre árabes e judeus pela ótica da infância e traz depoimentos amadurecidos, como o do garoto israelense Yarko, que diz: - Todos sofrem em uma guerra. Então, não há vencedor. O filme é dirigido por B.Z. Goldberg e por Justine Shapiro, apresentadora do programa "Planeta solitário", do canal People + Arts. O montador mexicano Carlos Bolado (de "Como água para chocolate") é o co-diretor. Logo no início de "Promessas", Goldberg fala de sua vida em Israel, mas sua fala soa familiar aos ouvidos do espectador: - Para quem nasceu em Jerusalém, acho que tive uma infância normal. Mas o normal no Oriente Médio está sempre ligado à guerra. Durante os 106 minutos seguintes, o público percorre bairros de Jerusalém, campos de refugiados palestinos e assentamentos de colonos judeus. Ao longo do filme, é apresentado aos gêmeos Yarko e Daniel, moradores do bairro israelense, e donos de opiniões moderadas, como: - Acho que o país é tanto nosso como deles. Eles sabem que se deve evitar o ônibus 18, que já sofreu vários explosões, e pegar o 22. Mesmo assim, ficam atentos aos riscos: - Quando entro, fico nervoso e procuro pessoas suspeitas. Se vejo alguém que me dá medo, fico de olho nele. Tento saltar antes dele. E fico esperando a explosão - conta Yarko. O espectador trava contato ainda com Mahmoud, que vive no Bairro Palestino e é defensor dos grupos radicais Hamas e Hezbollah: - Matam mulheres e crianças, mas é pelo nosso país! - diz ele. - Quanto mais judeus matamos, menos sobram. Até que eles desapareçam. Moishe, que mora num dos maiores assentamentos de colonos judeus, Beit El, e perdeu um amigo de 12 anos assassinado com um tiro na cabeça, retribui o extremismo: - O Exército nos protege, pois é bem treinado. Se um soldado mira mal, ainda assim pode acertar um árabe - narra ele, com um sorriso de satisfação no rosto. Filho de um respeitado rabino dos Estados Unidos, o quinto personagem, Shlomo, morador do Bairro Judeu, também evita maiores contatos com seus vizinhos: - O máximo de aproximação que já tive foi dizer "oi" na rua e coisas assim - conta ele, que acaba protagonizando um divertido concurso de arrotos com um menino palestino. A menina Sanabel, por sua vez, vive no campo de refugiados Deheishe, na Cisjordânia, e é filha de um jornalista e líder palestino, que está preso, sem nunca ter ido a julgamento. Sanabel, que faz parte de um grupo que usa a dança típica para contar a história dos refugiados, constata a certa altura como a pequena distância geográfica é uma barreira difícil de transpor, graças aos ódios e ressentimentos acumulados. - Jerusalém fica a dez minutos do campo de Deheishe. Mas eu nunca fui lá. Eu gostaria de ir até nossa capital para rezar. Por fim, há o radical Faraj, também morador de Deheishe, que viu um amigo de 12 anos ser morto por um soldado israelense após atirar uma pedra pela janela. Ele diz: - Quando vejo um judeu, penso em acertá-lo com uma pedra. Ou acertar seu carro. Até penso em matá-lo. Goldberg cursou a New York University Film School, mas foi para Jerusalém quando estourou a Intifada - o levante palestino. Lá, produziu noticiários de TV para a Reuters, a BBC, a NBC, a CNN e o canal japonês NHK. Ele contou que, após se esquivar de incontáveis pedras palestinas, inalar muito gás lacrimogênico israelense e produzir milhares de horas de noticiários, resolveu largar a televisão e procurar pontos de vista alternativos para retratar o conflito. Aproveitou um período de relativa paz no Oriente Médio para entrevistar as crianças. Goldberg e Justine não descartam uma continuação de "Promessas", mas dizem que vai depender de tempo e dinheiro - eles levaram mais de cinco anos atrás de verba para o documentário e prometeram que não fariam outro filme a não ser que tivessem assegurado patrocínio antes de começar a produção. Os personagens de "Promessas" têm, no início das filmagens, entre 9 e 12 anos, mas são articulados e recorrem à Tora ou ao Alcorão para justificar de forma intransigente a posse da terra. O documentário evitar tomar partido e tem como mérito dar espaço para todos os lados apresentarem seus argumentos. Ele traz cenas reveladoras, como a que mostra que as diferenças não existem só entre árabes e israelenses. Em certo momento, o judeu Daniel é convidado a visitar o Muro das Lamentações. Ele resiste ao ver seus colegas ortodoxos: - Eles pensam diferente de nós. Se dizemos algo que não lhes agrada, eles nos comem vivos! - diz o garoto, que, no fim, confessa: - Eu estava com muito medo. Preferia visitar um vilarejo árabe a estar aqui com todos esses judeus ortodoxos. Na tela, Goldberg e Justine tentam aproximar as crianças palestinas e israelenses. Alguns, como Moishe e Mahamoud, recusam com veemência, mas Yarko, Daniel, Faraj e Sanabel, topam o encontro, apesar do pai dos gêmeos, que diz com sinceridade: - Preferiria que vocês fossem a Paris. A menina palestina justifica sua decisão: - Se aumentarmos nosso contato, o respeito pelo outro vai crescer. Eles conversam sobre esporte e sobre Intifada, brincam, jogam futebol e fazem guerra de travesseiro. Diante das câmeras, confessam-se divididos - como podem estar gostando de "inimigos"? - conhecem os argumentos do outro lado e prometem encontros futuros - que a realidade haverá de interromper. O destino de cada um FARAJ: Mora em Massachussetts (EUA) com uma família e está progredindo nos estudos. Vários parentes seus morreram nos conflitos dos últimos anos. SANABEL: Está terminando o Ensino Fundamental. Seu pai saiu da prisão logo após o fim das filmagens. Junto com 21 outros jovens, fez uma turnê pelos EUA por seis semanas com seu grupo de dança IBDAA. MAHMOUD, MOISHE E SHLOMO: Estão estudando. YARKO E DANIEL: Os gêmeos terminaram o Ensino Fundamental e, desde novembro de 2003, servem ao Exército de Israel, por três anos. Junto com Sanabel, estiveram no Oscar. Continuaram a manter contato por e-mail e telefone, mas não conseguem se visitar. Comente aqui: Reportagem sobre o filme 'Língua - Vidas em português' Em português, claro - Um dos mais premiados escritores do nosso idioma, o moçambicano Mia Couto comenta filme que mostra como a língua portuguesa se renova pelo mundo Na tela, o vendedor de balas entra no ônibus e, diante de olhares indiferentes, começa sua pregação: - Bom-dia para todos, eis que vos trago nessa manhã a novíssima balinha do coração, sabor morango. Mas antes de qualquer manifestação eu vou passar com uma prova gratuita. Se você se agradar da mesma e quiser tomar posse, é só me chamar que eu vou lhe atender com todo amor e carinho - recita Márcio, que, antes de se tornar evangélico e vendedor, tinha o apelido de Boi e foi ladrão, funkeiro, pichador, cantor de rap e líder de arrastão. Na sala da produtora TVZero, no Leblon, o escritor moçambicano Mia Couto vê as imagens e ri, impressionado com a desenvoltura e o português inesperado do rapaz, morador da Favela de Vigário Geral. Couto, um dos maiores autores da língua portuguesa, estava ali para assistir, pela primeira vez, ao filme "Língua - Vidas em português", do também moçambicano Victor Lopes. O escritor é um dos maiores destaques do documentário, que tem como objetivo mostrar como o português resiste, renova-se e é reinventado diariamente ao redor do mundo. O cineasta percorreu quatro continentes para registrar flagrantes do cotidiano de moradores que falam português. Esteve em Portugal, no Brasil, no Japão, em Moçambique e em Goa, na Índia - o filme tem depoimentos ainda de habitantes de Angola, Guiné-Bissau e Macau, na China. Ao mesmo tempo em que entrevista nomes como os cantores Martinho da Vila e Teresa Salgueiro, do grupo Madredeus, e os escritores José Saramago, João Ubaldo Ribeiro e o próprio Mia Couto, Lopes dá voz a anônimos como o rapper Dinho. O diretor, que mora no Rio há 27 anos de seus 41, estava há dois meses atrás de Couto para mostrar o resultado final das mais de cem horas de filmagens, reduzidas no documentário para 89 minutos. Mas o escritor - e biólogo - nunca tinha espaço na agenda, ocupada com eventos em vários países. No último fim de semana, Lopes surpreendeu-se ao ler no jornal que Couto estava no Rio e faria uma palestra na Academia Brasileira de Letras. Entrou em contato com o escritor e marcou às pressas uma sessão do filme, exibido anteontem à tarde num pequeno monitor de 20 polegadas da TVZero, instalada na antiga cobertura do cantor João Gilberto. - Foi coincidência. Descobri que ele estava aqui e consegui uma brecha para mostrar o filme - conta Lopes. Após a exibição, Couto abraçou o diretor e brincou: - Eu podia só estar mais penteado. Ele se disse contente com o resultado. - O filme não cai na coisa propagandística da lusofonia. O grande mérito é que ele fala de coisas importantes através de fragmentos, de flashes de vida. A língua é um pretexto, um modo de olhar vidas dispersas no mundo. E há uma carga de poesia que percorre todas as histórias - diz Couto, autor de livros como "Um rio chamado tempo, uma casa chamada Terra" e "Estórias abensonhadas". Lopes explica que a idéia era esta mesma. - O tema é muito vasto e eu não queria ter um discurso conclusivo sobre o tema. Meu interesse não era fazer um filme enciclopédico ou um diário de viagem, e sim poder entrar e sair de vidas em português - disse ele para Couto, num português de Portugal. Na hora em que fala com o repórter, o sotaque some por inteiro, para reaparecer toda vez que dialoga com o escritor. - É automático. Nós, imigrantes, somos meio camaleões. O filme de Lopes, que tem roteiro de Ulysses Nadruz, só estréia no Rio no dia 22 de outubro, mas já foi exibido no Festival do Rio, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no Festival É Tudo Verdade, no Festival dos Povos, na Itália, no Festival Internacional de Documentários de Lisboa e no Festival de Cinema e Vídeo de Famalicão, em Portugal, onde ganhou o grande prêmio da Lusofonia. Depois de ouvir críticas sobre a fragmentação do longa-metragem, o diretor tirou 15 minutos e cortou dez personagens. "Língua" abre com a seguinte frase: "Toda noite, 200 milhões de pessoas sonham em português. Algumas delas estão neste filme." Como a cantora Teresa Salgueiro, que diz: - Falamos a mesma língua, mas ela não é falada da mesma maneira. Ou João Ubaldo, que adverte: - Nós estamos importando não só vocabulário, mas a maneira de pensar americana. Também surge na tela uma religiosa moçambicana, que anda apressada e explica: - Oro por todos os seres viventes. É por isso que sou uma mulher muito ocupada. O tom bem-humorado de algumas passagens foi ressaltado por Couto: - A nostalgia está presente no filme, mas com um tom de humor. Quando corre o risco de ficar lamentoso, há sempre uma solução para o lado da alegria. Ou, como dizem vocês, uma solução que dá a volta por cima. Nascido na África (filho de portugueses), Mia Couto já se acostumou às reações de espanto ao verem que não é negro - nem tampouco mulher. Ele conta que certa vez, em visita ao interior de seu próprio país, os meninos fugiram de medo à sua chegada. Nunca tinham visto um branco. Ex-integrante da guerrilha que livrou seu país da ditadura, Couto tem uma escrita inventiva, que recria a língua portuguesa, a exemplo de João Guimarães Rosa. No filme, ele diz que o português é uma das línguas européias com maior vivacidade e dinamismo: - Por causa de uma razão histórica: Portugal deu origem a um filho maior que si próprio, o Brasil. O escritor explica que os países africanos também introduziram mudanças no português, enriquecendo-o, e elogia a forma como todas essas culturas se mestiçaram. - A certa altura o português perdeu o dono. Quer dizer, ficou sem dono - diz, antes de concluir: - Felizmente. Comente aqui: Reportagem sobre o aniversário do 'Jornal Nacional' Oito da noite, é hora do Jornal - Livro sobre os 35 anos do 'Jornal Nacional' relembra momentos históricos, mostra casos dramáticos e traz revelações sobre episódios polêmicos Um mosquito cismou de entrar na boca do apresentador Marcos Hummel justo na hora em que ele lia as notícias do "Jornal Nacional". Hummel engoliu o inseto e continuou a leitura, como se nada tivesse acontecido. Dois dias depois, em 28 de novembro de 1983, vinha o memorando, assinado por um ainda irritado Luís Edgar de Andrade, então chefe de redação do telejornal: "Peço providências para que outros mosquitos, moscas e insetos não entrem no estúdio." Os episódios pitorescos, como se vê, têm espaço em "Jornal Nacional: a notícia faz história". Mas nem só de pequenas histórias é feito o livro. No dia 11 de setembro de 2001, uma edição especial com uma hora de duração bateu o recorde de audiência do ano, com a cobertura dos atentados nos Estados Unidos. Mais cedo, às 9h52m, a emissora tinha sido a primeira TV aberta brasileira a mostrar um flash do assunto. Quatro minutos depois, quando se imaginava que o ataque ao World Trade Center havia sido apenas um acidente, o plantão foi encerrado. Irritado, o atual diretor da Central Globo de Jornalismo, Carlos Schroder, mandou retomar a transmissão ao vivo. "Não fosse a irritação de Schroder e a sua decisão de mandar voltar o plantão, a Globo deixaria de ter transmitido, ao vivo, o choque do segundo avião contra a outra torre", lembra no livro Ali Kamel, diretor executivo de jornalismo. Do Escândalo Watergate à Guerra do Iraque, a obra refaz toda a trajetória do "Jornal Nacional", iniciada às 19h45m do dia 1º de setembro de 1969, com uma fala de Hilton Gomes: "O 'Jornal Nacional' da Rede Globo, um serviço de notícias integrando o Brasil novo, inaugura-se neste momento: imagem e som de todo o Brasil." No encerramento do programa que viria a ter a maior audiência da história da televisão brasileira, Cid Moreira anunciava o gol número 979 da carreira de Pelé, que garantia a classificação da seleção brasileira para a Copa de 70, e se despedia com uma frase que repetiria cerca de oito mil vezes ao longo dos 27 anos seguintes: "Boa noite." A saudação foi alterada poucas vezes nos 35 anos de história do "Jornal Nacional". Como quando o jornalista Tim Lopes, da Rede Globo, foi assassinado por traficantes. William Bonner - atual apresentador, ao lado de Fátima Bernardes - encerrou o telejornal com aplausos em homenagem ao colega. "Ao fundo, na redação, toda a equipe de preto, em pé, também aplaudiu", narra o livro. "Jornal Nacional: a notícia faz história" (Jorge Zahar, R$29,50) chega hoje às livrarias com 408 páginas e 420 imagens. O livro, que tem texto final da professora da UFRJ Ana Paula Goulart, é produto de cinco anos de pesquisa da equipe do projeto Memória Globo. Foram feitas 200 entrevistas, consultadas centenas de publicações e documentos, analisadas mais de duas mil fitas de vídeo. O resultado é uma detalhada reconstituição da história do telejornal, em que não ficam de fora momentos difíceis, como a edição de debate entre Collor e Lula, em 1989. Outro destaque do livro são as passagens que tratam das escaramuças com a Censura. À medida que a audiência aumentava - hoje ela é de 43 pontos no ibope, o equivalente a 31 milhões de telespectadores - ampliava-se o cerco. Até Sérgio Chapelin foi alvo dos censores: "Ao noticiar a morte de guerrilheiros na América Latina, o apresentador, gripado, pigarreou e sua voz ficou embargada. Agentes do SNI foram se queixar a Armando Nogueira (então diretor da Central Globo de Jornalismo, a CGJ), pois acharam que Chapelin estava solidário com os guerrilheiros e se emocionara com a notícia." Hoje, sete em cada dez aparelhos de TV ligados sintonizam o "JN", mas, no início, o primeiro telejornal exibido em rede para todo o país teve que "desenvolver o conceito de noticiário nacional, ainda inexistente na televisão brasileira". Os assuntos tinham que interessar ao telespectador de Manaus a Porto Alegre. Também foi preciso respeitar as diversidades regionais. "Nos primeiros anos, no boletim do 'Jornal Nacional', 'tempo bom' significava dia de sol e 'mau tempo', dia de chuva, até que alguns telespectadores passaram a reclamar. No Nordeste, castigado pela seca, 'sol' queria dizer tempo ruim", diz o livro. A partir daí, as expressões foram trocadas por "dia ensolarado" e "dia chuvoso". As inovações tecnológicas estão presentes, como a chegada da cor, em 1972. José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, então superintendente de produção e programação, lembra que, para os militares, a TV colorida era importante porque representava progresso, mas revela: "Nós estávamos saindo do prejuízo e com as cores teríamos de investir. Os militares forçaram a barra. Havia uma posição minha e do Walter Clark de que a implantação seria prematura, que seria uma coisa falsa, porque não havia aparelhos para receber as cores e nem equipamento para produzir em cores." Prematura ou não, a cor veio e com ela guarda-roupas brilhantes. "No começo, empolgados com a novidade, os apresentadores ousavam nas cores e nas padronagens dos ternos. Cid Moreira lembra que chegou a usar paletós verdes, cor-de-abóbora e quadriculados", está escrito. O livro também traz os bastidores dos furos de reportagem - como as entrevistas de Geraldo Costa Manso com Geisel, de Ricardo Pereira com Saddam Hussein e de Roberto Cabrini com PC Farias - e relembra episódios dramáticos, como a emboscada que quase matou o repórter Hélio Costa e o cinegrafista Orlando Moreira durante a guerra civil em El Salvador, em 1982. - O "Jornal Nacional" tornou-se referência, para a maior parte da população brasileira, de informação e realidade - constata Sílvia Fiuza, gerente do projeto Memória Globo. Episódios marcados pela polêmica - Livro revela bastidores das Diretas Já, da eleição de 1989 e do caso Proconsult Três episódios ocupam boas páginas de "Jornal Nacional: a notícia faz história". O caso Proconsult, as Diretas Já e a edição do debate entre Collor e Lula, em 1989, motivam uma autocrítica, que transparece no livro de forma reveladora. A questão do debate presidencial ocupa 16 páginas. Na época, a Globo foi acusada de ter favorecido o candidato do PRN, por conta da edição do debate entre os dois candidatos levada ao ar no "Jornal Nacional" - mais cedo, tinha sido exibida uma edição no jornal "Hoje" que não provocou maiores polêmicas. O PT chegou a mover uma ação contra a emissora no Tribunal Superior Eleitoral, atores da Globo protestaram contra a edição e o próprio Boni chegou a dizer que as imagens foram favoráveis a Collor. No livro, Boni diz: "O Collor - Armando Nogueira expressa isso claramente - ganhou o debate do Lula de 3 x 2 e na edição que foi ao ar no 'JN' ganhou de 3 x 1. Tiraram um gol do Lula. Esta é a questão: proporção." João Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo, conta que o assunto, pela repercussão que teve, sempre foi tema de discussão interna. "Depois desses anos todos, eu acredito que as duas edições estavam erradas: uma exagerou para um lado e a outra ficou aquém para o outro. De qualquer forma, eu debito os dois erros à inexperiência de todos nós na época. É preciso sempre ter em mente que aquela era a primeira eleição para presidente na era da televisão de massa." Diz o livro: "Hoje, João Roberto Marinho faz um balanço do episódio. Ele admite que a edição do debate provocou um inequívoco dano à imagem da TV Globo: 'Foi um momento muito duro para nós. Porque nós temos a convicção de que tínhamos feito um trabalho excepcional a campanha inteira, um trabalho isento, procurando ajudar o eleitor a fazer as suas escolhas. (...) E, de um momento para o outro, por causa dessa diferença das edições, aquilo tudo foi por água abaixo. (...) É frustrante'." Hoje a Globo adota como norma não editar debates. O livro reproduz depoimentos de todos os envolvidos no episódio. As versões são conflitantes. Armando Nogueira, então diretor da Central Globo de Jornalismo (CGJ), põe a culpa em Alberico de Souza Cruz, na época diretor de telejornais de rede: "Foi má-fé do Alberico, que servia não à empresa, mas servia ao Collor." Alice-Maria, então diretora-executiva da CGJ, confirma e conta que Alberico ignorou a orientação que recebeu de fazer uma edição isenta. Alberico nega e diz que não tem responsabilidade nenhuma sobre a edição. O então editor de Política, Ronald de Carvalho, exime Alberico de culpa e garante que ele foi o único responsável pela edição, no que é contestado por Octavio Tostes, na época editor de texto do "JN": "Eu fiz a edição, seguindo as ordens dele (Ronald) e do Alberico. A edição mancha a história da Globo e, em escala muito menor, mas gravíssima no nível individual, é uma nódoa na minha carreira." Outra momento difícil aconteceu nas Diretas Já, em que a emissora foi acusada de ter ignorado o movimento. Em 16 páginas, o livro recompõe o episódio, mostrando que, num primeiro momento, as manifestações de fato não entraram nos noticiários da rede. O jornalista Roberto Marinho, em reportagem na revista "Veja", explicou: "Achamos que os comícios pró-diretas poderiam representar um fator de inquietação nacional e, por isso, realizamos num primeiro momento apenas reportagens regionais. Mas a paixão popular foi tamanha que resolvemos tratar o assunto em rede nacional." A Globo foi criticada porque teria omitido que o primeiro grande comício, na Praça da Sé, em São Paulo, era uma manifestação pelas Diretas. A origem da confusão, diz o livro, está na chamada do "JN", lida pelo apresentador Marcos Hummel: "Festa em São Paulo. A cidade comemorou seus 430 anos com mais de 500 solenidades. A maior foi um comício na Praça da Sé." Mas a reportagem de Ernesto Paglia relatava depois que o objetivo do evento era pedir eleições diretas para presidente e citava o discurso de encerramento do governador de São Paulo, Franco Montoro: "Houve a anistia, houve a censura, o fim da tortura; mas é preciso conquistar o fundo do poder que é a Presidência da República." O livro narra as pressões dos militares para que a Globo não cobrisse as manifestações, com ameaças até de retirar a concessão para o funcionamento da emissora. No dia em que a Globo transmitiu o comício na Candelária - o assunto ocupou nove minutos do "JN" e invadiu a novela das oito - um helicóptero do Exército sobrevoou de maneira ameaçadora a sede da emissora, postando-se, como conta o livro, na altura da janela da sala do então vice-presidente executivo, Roberto Irineu Marinho, que lembra: "Dentro do helicóptero estavam, além do piloto e do co-piloto, alguns militares fardados e uma metralhadora apontada para nós. Ali ficaram parados por alguns infindáveis minutos e depois partiram." O livro diz: "A população desejava, desde o início, que a Globo fizesse não uma cobertura, mas uma campanha pró-diretas de grandes dimensões. Desejava que a Globo se engajasse politicamente na luta por eleições diretas, que fosse não apenas a narradora comedida daqueles eventos, mas seu agente, seu fermento. O desencontro se deu quando a Globo, condicionada pelas circunstâncias históricas da época e por um jogo de pressões políticas muito forte, decidiu manter a cobertura, ao menos inicialmente, num tom não emocional, eqüidistante e comedido." O terceiro episódio polêmico - retratado no livro em 11 páginas - ficou conhecido como o Escândalo da Proconsult. Nas eleições para o governo do Estado do Rio em 1982, a Proconsult foi a firma contratada para totalizar os votos. Na época, o senador Saturnino Braga afirmou que a empresa, com o apoio das Organizações Globo, estaria manipulando a apuração da eleição para prejudicar o candidato do PDT, Leonel Brizola, e favorecer Moreira Franco, do PDS. O livro mostra que o "Jornal do Brasil" utilizava os números da Rádio JB, que contabilizava apenas as majoritárias (os votos para governador, prefeito e senadores), o que dava agilidade ao seu noticiário. A Globo divulgava os números do jornal O GLOBO, "que vinha processando lentamente os dados eleitorais, pois acompanhava detalhadamente a apuração dos pleitos majoritários e proporcionais (deputados federais, deputados estaduais e vereadores), um volume enorme de informação que demandava muito tempo dos computadores de então. Outro motivo para lentidão era que O GLOBO montara o seu esquema preocupado apenas com as suas necessidades industriais: como o jornal fechava apenas à noite, não havia porque fazer totalizações constantes ao longo do dia. Com isso, os números que a TV Globo divulgava estavam defasados em relação aos da Rádio JB". Diz Armando Nogueira que, quando a emissora resolveu cobrir as eleições, ficou decidido que, "por questão de economia", iria ser feita uma cobertura atrelada ao jornal. Mas, como as necessidades dos dois veículos eram diferentes, os números divulgados pela Globo ficavam "barbaramente atrasados". Os momentos mais polêmicos A EDIÇÃO DO DEBATE COLLOR X LULA Armando Nogueira (então diretor da CGJ): "O episódio representou uma deslealdade de um escalão abaixo da minha direção. Eu tinha um diretor chamado Alberico de Souza Cruz, que, à minha revelia, juntamente com um editor chamado Ronald de Carvalho, deformou a edição que nós tínhamos exibido no jornal 'Hoje'." Alberico de Souza Cruz (então diretor de telejornais): "A edição refletiu o que tinha acontecido durante o debate. Ela é prejudicial ao Lula do ponto de vista de notícia? É, porque o Lula foi muito mal no debate! (...) Concordo plenamente com aquela edição. Só digo uma coisa: eu não tenho nenhuma responsabilidade sobre ela". Alice-Maria (então diretora executiva da CGJ): (Alberico) disse para o Armando que tinha visto a edição do 'Hoje' e achou que a gente não tinha dado a dimensão exata, que era preciso fazer uma edição maior para o 'Jornal Nacional'. Queria acrescentar umas falas. O Armando concordou e frisou que a nova versão tinha que ser igualmente isenta. (...) A matéria do 'JN' não tinha nada a ver com a do 'Hoje'. O Alberico ignorara a orientação que recebera." Trechos do livro 'Jornal Nacional: a notícia faz história' AS DIRETAS JÁ Antônio Brito (então editor regional de Brasília): "É verdade que a cobertura das televisões e da Globo sobre a campanha das Diretas foi mais tímida que a cobertura das revistas e dos jornais? Sim, é verdade. Mas (...) poderia ser a cobertura da televisão tão quente ou mais quente que a dos jornais e das revistas? (...) Não. Porque a forma como o regime moribundo vigiava, controlava e pressionava um veículo de 40 milhões ou de 50 milhões de espectadores era diferente da forma como controlova outros veículos." Armando Nogueira: "Claro que não convinha para o Palácio do Planalto que órgãos de comunicação, particularmente a Globo, dessem exposição a um movimento que pretendia exatamente ir contra os interesses do poder dominante. Portanto, vocês podem imaginar as pressões que a alta direção da empresa e, por conseqüência, nós, a corporação, sofremos." Trechos do livro 'Jornal Nacional: a notícia faz história' O CASO PROCONSULT Armando Nogueira: "A cobertura da Rede Globo nas eleições de 1982 passou para a História de uma maneira deformada (...). Essa história começa num erro estratégico da própria Rede Globo." Evandro Carlos de Andrade (então diretor de redação do GLOBO): "Eu acredito, sem prova alguma, que a Proconsult serviria a algum plano do SNI de falsificar o resultado da eleição. Mas insisto que as Organizações Globo nada tiveram a ver com essa conspiração, caso ela tenha existido." Alberico de Souza Cruz (então um dos responsáveis pela Editoria de Números da Globo): "Esse trabalho era conjunto (a TV e o jornal). Foi a primeira bobagem que nós fizemos, porque as necessidades de cada veículo eram diferentes. (...) A Globo nem tinha conhecimento do complô que existia contra o Brizola. Hoje, eu estou convencido de que existia um complô." Trechos do livro 'Jornal Nacional: a notícia faz história' Comente aqui:
|