| DizVentura II |
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Quinta-feira, Agosto 26, 2004
As três matérias estão mais abaixo, depois das duas notas que saíram repetidas do dizventura Comente aqui: A velha Achei que o nome Lençóis Maranhenses fosse devido ao lençol freático na região - as águas ali correm muito próximas da superfície. Mas não. O nome é porque o lugar, com suas dunas de areia, parece um imenso lençol sendo estendido na cama. O motorista que nos guia na caminhonete diz que trabalha muito. - Eu tomo conta da velha - explica, referindo-se à mãe. E quantos anos ela tem. - 43. Senti-me subitamente envelhecido. Comente aqui: Lençóis Dá trabalho chegar a Lençóis Maranhenses. É preciso pegar um avião até Brasília, trocar de aeronave, seguir viagem, parar em Fortaleza e ir até São Luís. Acabou? Longe disso. Após a viagem aérea, é hora de pegar a estrada. De van, passamos por um ponto chamado Sangue - o nome se deve ao rio de águas muito escuras que corre por ali - e chegamos a Morros. Ali, é preciso trocar de carro e pegar uma caminhonete com tração 4 por 4. A Toyota corta as areias e lagoas da região - tem hora que a frente do carro quase desaparece nas águas. Voltar também é trabalhoso. Levei 20 horas para sair de Lençóis e chegar ao Rio. Como fui de Gol, tive uma overdose de amendoim - refeição-base dos vôos da empresa. Comente aqui: Reportagem sobre o Armazém Digital Aposta na livraria virtual - Com inauguração do Armazém Digital, público terá acesso a títulos nacionais fora de catálogo e obras estrangeiras Perde tempo quem tenta achar a biografia de Gonçalves Dias escrita por Manuel Bandeira. Publicada em 1952, está esgotada. Também vai ter que bater perna em sebo quem quiser a coleção - oito livros - de Otto Maria Carpeaux sobre a história da literatura ocidental. Dá igualmente trabalho encontrar "Brandão entre o mar e o amor", um romance coletivo escrito em parceria por Rachel de Queiroz, Aníbal Machado, Graciliano Ramos e José Lins do Rego, publicado pela revista "Diretrizes" e editado pela Marins em 1942. Há pouco, um professor universitário fez um pedido à Nova Fronteira: queria pegar um exemplar do esgotado "Coronelismo, enxada e voto", de Victor Nunes Leal, e xerocar para sua turma de pós-graduação. A editora não autorizou. São muitos os títulos fora de mercado no Brasil. Há casos em que a editora não se interessou em lançar uma nova tiragem do livro ou a empresa simplesmente faliu, deixando o leitor na mão. Nos últimos dois meses, a jornalista Sheila Kaplan se enfurnou na Biblioteca Nacional para catalogar títulos publicados no Brasil entre os anos 40 e 80. Ela está fazendo uma primeira seleção de mil livros - como os descritos acima - que estejam fora de circulação no país. A meta é chegar a dez mil. - São livros essenciais à cultura brasileira que não estão mais em circulação, obras de grandes autores, preciosidades ou até textos esquecidos - explica. A tarefa é para o Armazém Digital Embratel, criado pelo empresário Jack London, que abre quarta-feira no Rio Plaza Shopping, em Botafogo. Nos 920 metros quadrados da loja, haverá 50 mil títulos, mas a maior atração é a Livraria Digital. Fisicamente, ela ocupa dois pequenos espaços, onde estão terminais de computador e três poderosas máquinas copiadoras. Ali, na gráfica, o cliente poderá fazer na hora o próprio livro, selecionado da lista de mil obras fora de mercado. Ou seja, as obras serão reeditadas a pedido dos interessados, que saem da loja com um exemplar novo nas mãos. - São textos de difícil acesso e que às vezes não justificam uma nova tiragem. A editora não vai querer imprimir dez exemplares. Mas agora eles estarão disponíveis novamente ao público - diz Sheila. O mesmo sistema dos livros vai funcionar com os CDs e DVDs - o cliente pode gravar um disco personalizado ou comprar um título antigo que não se encontra mais nas lojas. A lista de livros não se resume aos títulos brasileiros. O analista de sistemas Diego London, filho de Jack, criou um software - que ele chama de robô - para buscar obras estrangeiras em mais de 150 sites. - A idéia é abrirmos com um milhão de textos que estão espalhados por locais como a Biblioteca do Congresso americano, a Universidade de Berkeley e a Amazon - diz London. Os sites foram selecionados após dez meses de pesquisa. As vantagens são muitas: - É uma quantidade de obras impensável. E você não vai ter que encomendar e esperar um mês. Em uma hora o cliente vai ter "importado" o livro. E não vai estar pirateando nem xerocando de graça, já que são bancos de dados legalizados - conta London. Os preços, calcula ele, ficarão entre um terço e 50% do normal, já que não será preciso pagar taxas de importação. O livro é impresso em cerca de uma hora, com lombada e tudo - podendo ser levado com capa dura ou não. Quem quiser pode criar seu próprio livro, juntando os textos que quiser. O Armazém está em negociações com editoras, autores e herdeiros para selecionar os livros fora de catálogo no Brasil. A Imago liberou cerca de 30 títulos, como "O agente secreto", de Joseph Conrad, "A alma e a dança", de Paul Valéry e a obra completa - em sete volumes - de Silvio Romero, organizada por Luiz Antonio Barreto. Os livros deverão sair pelo preço de mercado. Sheila vai procurar agora professores e especialistas de áreas como antropologia, sociologia e direito para ver que livros eles gostariam de ver acrescentados ao catálogo do Armazém. A gráfica vai permitir, ainda, que um escritor produza na hora exemplares de seu próprio livro. As editoras também poderão encomendar pequenas tiragens de suas obras esgotadas. - Depois da geração mimeógrafo, vem aí a geração Armazém - espera Jack London. Comente aqui: Reportagem para o caderno especial sobre Getúlio Vargas Olga, um crime que ninguém quer assumir - Getulistas jogam a culpa pela deportação no ex-chefe de polícia Filinto Müller; 'filintistas' se defendem No dia 13 de abril de 1988, o escritor Fernando Morais esteve na casa de Alzira Vargas, no Leblon, em busca de uma entrevista para seu livro 'Chatô'. Alzirinha, como era mais conhecida a filha de Getúlio, acabou falando também sobre Olga Benario. No depoimento, que ficou de fora da biografia sobre o jornalista e permaneceu inédito até hoje, ela joga a culpa pela deportação da revolucionária alemã nas mãos do chefe de polícia de Vargas, Filinto Müller. - Acho que a polícia foi ligeira demais. Se tivesse conseguido provar que estava grávida de um brasileiro, Olga teria sido protegida. Afinal, na época, nós ainda não estávamos em guerra com a Alemanha - disse Alzirinha, que morreu em 1992. A defesa do pai já era esperada. - Quem mandou Olga para a Alemanha, Getúlio ou Filinto? - pergunta Morais. - Como é uma monstruosidade, ninguém quer carregar essa cruz. Os devotos de Getúlio dizem que a culpa é de Filinto. Os filintistas argumentam que ele, sozinho, não tinha poder para deportar a mulher de Luís Carlos Prestes. Olga estava grávida de sete meses quando foi enviada para a Alemanha. Ela tinha vindo ao Brasil fazer a segurança de Prestes, mas acabou presa e deportada. Ficou cinco anos na prisão e num campo de concentração, até morrer na câmera de gás, aos 33 anos. A história está contada no best-seller "Olga", de Morais, que já vendeu mais de 500 mil exemplares e foi lançado em 32 países. O escritor diz que não dá para afirmar qual dos dois lados está certo. - O depoimento de Alzirinha reforça a convicção de que o grau de responsabilidade de Filinto na deportação era muito grande. Ao mesmo tempo, um dos advogados de Olga procurou dona Darcy, mulher de Getúlio, em busca de ajuda. Apelou para o fato de ela também ser mãe. O pedido não resultou em nada. - E é evidente que a deportação não aconteceria pelo menos sem o conhecimento de Getúlio. Além disso, o flerte do Brasil com a Alemanha naquela época era visível. Getúlio chegou a mandar um telegrama de felicitações a Hitler em seu aniversário. Olga tinha chamado a atenção dos alemães quando comandou o resgate do namorado, o professor comunista Otto Braun. Mas, mesmo antes disso, já era visada. - Aos 15, 16 anos, ela já tinha um certo currículo, por causa das pichações, das panfletagens e das manifestações públicas - conta Rita Buzzar, produtora e roteirista de "Olga", que estreou na sexta-feira. Por causa do filme, Rita ganhou uma bolsa do Instituto Goethe e, em 1996, fez uma ampla pesquisa sobre Olga. Visitou, entre outras cidades, Potsdam, onde teve acesso aos arquivos da Gestapo. - Há uma pasta enorme, com todos os processos contra ela, o que confirma que Olga era uma revolucionária superprocurada. Morais é da mesma opinião. - Ela era uma agente do Partido Comunista. Ninguém faz curso de pára-quedismo e falsificação de documentos e é escolhido para fazer a segurança de Prestes se não fosse da mais absoluta confiança do partido - explica o escritor. - Mas ela e Prestes não eram dois autômatos. Havia romantismo. Não poderia ter acontecido de um agente ter se apaixonado por seu protegido. "Contei essa história com o coração na mão" O escritor Fernando Morais acredita que a deportação de Olga Benario tenha sido a marca mais trágica da Era Vargas. - É o pior carimbo que se poderia dar a ele. Ter, por ação ou omissão, permitido que esta tragédia se consumasse. Mas Morais acha injusto julgar o ex-presidente só por este episódio. - Não dá para pendurá-lo pelo pé ou colocá-lo no altar. Afinal, diz ele, o ex-presidente foi também o agente das transformações mais importantes que o Brasil viveu desde o Descobrimento. - Eu me sentiria mal de me associar a uma corrente que defende que ele foi só o Getúlio de Olga. Fico com receio de passar uma visão maniqueísta para o pessoal mais jovem. Sou getulista, contei a história de Olga com o coração na mão. Mas a perseguição aos judeus no governo Vargas não se limitou à mulher de Prestes. - Há uma lista enorme de outras mulheres judias e comunistas expulsas do Brasil. Já identificamos mais de 30 - diz a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, da USP, autora do livro "O anti-semitismo na Era Vargas", que coordena, junto com o professor Boris Kossoy, o projeto integrado Arquivo do Estado/USP, que faz o inventário dos prontuários do Dops, entre 1924 e 1983. Em seu livro, ela escreve que Vargas foi "conivente com a prática de um anti-semitismo político e xenófobo, endossando camufladamente atitudes fascistas". - Estou escrevendo agora um livro sobre as outras Olgas - diz Maria Luiza. Uma delas era a romena Genny Gleiser, de apenas 17 anos, que foi deportada para a Alemanha, mas conseguiu ser resgatada na França por integrantes do Partido Comunista francês. A ação fez com que os alemães tomassem mais cuidado. - Tanto que, quando Olga está para ser expulsa, há um aviso de que o navio não deve fazer escala na França - conta a historiadora. Comente aqui: Reportagem em Lençóis Maranhenses Areias escaldantes - Os bastidores do novo filme de Andrucha Waddington, produção com Fernanda Montenegro e Fernanda Torres rodada nos Lençóis Maranhenses O diretor Andrucha Waddington grita "Ação!" e a atriz Fernanda Montenegro, ao volante de um jipe de 50 anos, tenta avançar com o carro. O ensaio não dá certo. - É uma areia muito fofa e a embreagem é violentamente dura. Tentei dirigir e me dei mal - diz ela. - Não vamos perder tempo. Põe gente com experiência e manda ver. No dia seguinte, na hora da filmagem, é a atriz e preparadora de elenco Laís Corrêa quem está ao volante. Mesmo assim, o jipe atola. Sete homens chegam para empurrar o carro. Nova tentativa, novo atolamento, novo resgate. A cena tem que ser refeita, e é preciso empurrar mais uma vez o veículo. As horas se passam, sob o sol forte, a areia fina, o vento intermitente e as dunas mutantes dos Lençóis Maranhenses. O trecho não vai durar mais do que dez segundos na tela, mas leva três horas para ser feito. No fim, Fernanda elogia o desempenho de sua dublê: - Vamos dar uma salva de palmas para a Laís! O set de filmagens do drama "Casa de areia", produção da Conspiração Filmes e da Columbia prevista para estrear em maio do ano que vem, é um burburinho incessante. Enquanto Andrucha prepara a cena, Fernanda tem sua maquiagem retocada. Ao seu lado, Fernanda Torres gasta o tempo à espera de filmar fazendo tranças de renda. Perto dali, a assistente de direção Maria Clara Abreu aproveita os raros minutos de folga para fazer shiatsu com Roberta Gomez, casada com o primeiro assistente de câmera Cristiano Conceição. Por R$10, ela faz quick massage - massagem rápida - que dura 15 minutos. - Você vai trazendo pequenos luxos para cá. É o jeito de ir sobrevivendo na selva - diz Pedro Buarque, um dos produtores do filme. Entre outros confortos, há uma festa na véspera das folgas - uma a cada cinco dias - e um bufê caprichado no set. - Quando não tem boa cozinha é um tormento geral - diz Fernanda. - Já fiz filme em que houve brigas sérias porque só tinha almôndega. Teve um levante em "A falecida". Desde o dia 1º de julho, uma equipe de 230 pessoas - 80 do Rio e 150 da região - transformou a vida da pacata Santo Amaro do Maranhão, cidadezinha de chão de areia e poucas ruas de tijolo colada ao Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses. O PIB da cidade deu um salto. As quatro pousadas - todas construídas este ano - foram alugadas pela produção. A sede da colônia de pescadores foi transformada em escritório. Uma placa na porta do restaurante também é recente: "Maggiorasca". É o nome de uma pizzaria da capital do estado, São Luís. Andrucha insistiu tanto com o dono que ele abriu uma filial em Santo Amaro. As prateleiras da pequena farmácia local se encheram de protetores solares, soros reidratantes, energéticos e remédios para dor de barriga e dor de garganta. A rotina no set é estafante, por conta do sol forte, das 12 horas diárias de trabalho, das filmagens que muitas vezes começam às 4h, da areia que entranha até nos dentes e das longas distâncias enfrentadas aos solavancos de jipe. Alguém faz o trocadilho "Estamos em maus lençóis", mas ninguém concorda. Para amenizar o desconforto, Fernanda Torres levou Joaquim, de 4 anos, filho da atriz com Andrucha. - Você vai se minando e tem que ir se segurando igual soldado - diz ela. O sol é combatido com dois filtros solares. - Isso aqui é um enorme microondas. Fui na dermatologista e fiz um crediário de cremes - brinca a atriz, que, assim como Andrucha, dá mergulhos diários nas lagoas. - O Seu Jorge (que interpreta o líder de um quilombo) descascou de tanto sol. Brinquei: "Se até você está descascando o negócio aqui está brabo". As condições adversas são enfrentadas sem reclamações por sua mãe. - Quando chega aqui você leva um impacto. Seus olhos se enchem de água. Mas, seis semanas depois, você se agarra no trabalho. É a sua terapia - diz Fernanda Montenegro, de 74 anos. - Em "Central do Brasil", fiquei 40 dias no sertão. Mas aqui é mais confinado. Desde 1º de julho, ela só se ausentou do set por quatro dias, aproveitando uma folga nas filmagens. - Tive uma ligeira insolação e desidratação. Voltei ao Rio para dar uma checada geral - conta. O mal-estar veio depois de esperar uma hora e meia por uma nuvem. - No dia anterior, tínhamos começado a filmar a cena com céu coberto. Então, era preciso esperar uma nuvem cobrir o sol e equalizar a luz. Mas as nuvens vinham, passavam ao largo do sol e nada. - Aqui a natureza é quem manda - diz Buarque. Tem horas que dá para usar a natureza a favor do filme, como na cena em que a personagem de Fernanda Torres acorda após dormir com o tenente vivido por Enrique Diaz. Já tinham sido rodados cinco takes quando Andrucha viu a tempestade vindo ao longe. - Falei: "Vamos rodar também com chuva." Tivemos três minutos para armar tudo. Acabou dando dramaticidade à cena. No fim, a equipe inteira vibrou com o resultado - conta ele, barba de dois meses, os 30 cigarros diários aumentados aqui para dois maços e meio. A mesma chuva que ajudou num dia atrapalhou no outro. O plano de filmagens teve que ser todo mudado por causa de um aguaceiro que caiu de manhã. Mais tarde, o sol voltou e, com ele, o planejamento inicial. Mas o barulho provocado pelo vento transformou a filmagem em ensaio. - É uma briga muito dura com a natureza - reconhece o diretor de fotografia, Ricardo Della Rosa, o mesmo de "Olga". Operação de guerra para produzir filme no deserto - 'Casa de areia', com orçamento de R$ 8,2 milhões, transforma vida de Santo Amaro, nos Lençóis Maranhenses A idéia do filme "Casa de areia", que tem roteiro da antropóloga Elena Soárez e orçamento de R$ 8,2 milhões, surgiu de uma conversa de Andrucha com o produtor Luiz Carlos Barreto. - Em 2000, eu estava indo embora de uma festa, às 2h da manhã, quando ele me falou da foto de uma casa enterrada pela areia. Sonhei com o assunto, acordei e falei com ele. Ficamos um ano trabalhando na elaboração do argumento - lembra o diretor. A foto estava na parede de um botequim a 200 quilômetros de Fortaleza. Uma mulher tinha passado a vida varrendo a areia que o vento botava na casa, até que ela morreu e o lugar foi soterrado. O elenco tem ainda os músicos Seu Jorge, Luiz Melodia e Jorge Mautner, além de Ruy Guerra, Stênio Garcia e Emiliano Queiroz. Melodia faz sua estréia no cinema. Ele interpreta o mesmo papel, vivido na juventude, por Seu Jorge. - Estou mais ansioso que nervoso. Só não posso rir em cena - explica ele, exibindo três brilhantes incrustados nos dentes. Sua maquiagem levou quase duas horas para ser feita. Mais que o tom grisalho aplicado nos cabelos, o que deu trabalho foi esconder os dreadlocks que há cinco anos enfeitam sua cabeça. O dia-a-dia de Santo Amaro vai voltar à sonolência habitual a partir da próxima semana, quando se encerram as filmagens. Até lá, é possível ver a pousada da mulher do prefeito, Alzenira Azevedo Carneiro, toda alugada para a produção, a um custo de R$ 3 mil por mês. - Temos muita gente desempregada aqui. Qualquer real que entra a mais já é muito bem-vindo para a cidade - diz ela. Os criadores de animais também sentirão falta de Andrucha e companhia. Eles alugam cada cabra a R$1 por dia - já foram usadas mais de 1.500 - e cada jegue a R$ 25. Os 12 búfalos saíram a R$ 1.200 a diária. É uma operação de guerra, como diz o produtor Pedro Buarque, que envolve três tratores, dois caminhões e a construção de 14 cenários. As primeiras barracas feitas para proteger os equipamentos quebraram, assim como quatro câmeras. Pior sorte tiveram os carros. Dos 22 alugados pela produção, em certo momento só sete não estavam na oficina. - Os carros são os maiores heróis do filme - diz Fernanda Torres. O ator Emiliano Queiroz atolou com o jipe e teve que esperar quase duas horas no sol. - Apareceu um turista e disse: "Vou tirar o Dirceu Borboleta daqui" - diz o ator, referindo-se a seu personagem na novela "O bem amado." - Com um cabo de aço ele nos puxou e depois tirou foto. A maior parte do filme - 85% - foi feita fora do Parque Nacional, por conta das restrições ambientais. Lençóis Maranhenses já foi chamado de o Saara brasileiro - com a diferença de que a areia é pontilhada por lagoas e igarapés. Mas, na tela, o cenário paradisíaco de deserto à beira-mar tem que perder o glamour, para contar a história de uma mulher ao longo de três gerações. Durante 59 anos, ela se debate entre sair ou ficar no areal, para onde foi levada pelo marido, que comprou as terras imaginando que eram produtivas. A trama se passa em 1910, em 1919, em 1942 e em 1969. - Na vida real, é um cartão-postal, mas, no filme, a paisagem é áspera, inóspita. A água é preta e o céu é branco, e não azul - diz Andrucha, que tem dormido em média três horas por noite. - Não sei que dia do mês ou da semana é hoje. Sei que é o dia 36 da filmagem. Comente aqui: Terça-feira, Agosto 10, 2004
Reportagem sobre "O pensador", de Rodin A versão monumental de 'O pensador', enfim - Oito anos depois de verem a pequena réplica, cariocas conhecem exemplar de quase quatro metros da escultura de Rodin Não foram poucos os que sentiram uma boa dose de desapontamento ao visitar a mostra Rodin, em 1996, e dar de cara com sua criação mais famosa, "O pensador". Os visitantes - 226 mil, no total - surpreendiam-se com o tamanho: apenas 72 centímetros de altura. - Havia uma pequena frustração, em especial entre as pessoas que viram a estátua na Europa ou nos livros e na TV - reconhece Romaric Büel, responsável pela exposição. Agora, oito anos depois, ele se diz recompensado de poder trazer a versão monumental, com 800 quilos de bronze e quase quatro metros de altura - 1,83m da estátua e mais 1,63m do pedestal. A obra poderá ser vista a partir de terça-feira e até o dia 19 de setembro no foyer do Museu de Arte Moderna (MAM). Em seguida, segue para São Paulo, Curitiba e Salvador. A estátua menor foi feita pelo escultor para sua célebre "Porta do inferno", inspirada no "Inferno" da "Divina comédia" de Dante, e foi exposta pela primeira vez em 1888, em Copenhague, com o título de "O poeta". Depois, ganhou o nome de "O poeta pensador", até que virou apenas "O pensador". Em 1902, Rodin resolveu ampliar a peça para seu tamanho monumental. A estátua, na forma de gesso, foi exibida pela primeira vez há cem anos, em Londres. Em seguida, ganhou a versão final, em bronze. Rodin permitia reproduções sem controle de suas obras. - Ele mesmo não protegia as obras. O importante, para ele, é que se tornassem conhecidas - diz Büel. Depois de sua morte, em 1917, o Museu Rodin resolveu regularizar o processo. No caso de "O pensador", foram autorizadas 25 reproduções. Vinte e uma delas estão nas mãos de museus ou governos. A que chega ao Brasil pertence a particulares: uma família americana de colecionadores que mora em Nova York e prefere não se identificar. O curador francês Jean Gabriel Mitterrand, sobrinho do ex-presidente da França, diz que o exemplar que veio ao Brasil está à venda, por um preço de R$3,75 milhões. É uma oportunidade rara. O catálogo da Galeria Sayegh, proprietária do molde em gesso, explica que as edições que pertencem a cidades ou fazem parte de coleções dos museus não podem ser comercializadas. - Mas a obra não estará à venda durante a turnê, até porque o visto de entrada dela é de importação temporária. Ela tem obrigatoriamente que voltar para os Estados Unidos. Não pode ser vendida nesta turnê nem que a família queira - ressalva Büel. A ex-conservadora-chefe do Museu Rodin, Monique Laurent, diz no catálogo da Galeria Sayegh que a obra sempre suscitou várias interpretações: "Na 'Porta do inferno', talvez ele seja Dante, meditando sobre sua criação. Talvez o próprio Rodin, numa espécie de auto-retrato espiritual. Ou talvez seja ele, de forma mais abrangente, o símbolo do pensamento dominando a vida animal." Comente aqui: Segunda-feira, Agosto 02, 2004
Reportagem com a produtora e roteirista Rita Buzzar A queda do muro - Os obstáculos que a produtora e roteirista Rita Buzzar enfrentou durante oito anos para levar às telas a história da revolucionária comunista Olga Em 1995, ao decidir levar o livro "Olga" às telas, a produtora e roteirista Rita Buzzar esbarrou num muro. - Ninguém queria saber de um personagem como Olga. O Muro de Berlim tinha caído em 1989, o sonho socialista ruíra e havia muita resistência a um filme que falava de uma comunista - diz. Outros obstáculos apareceram no caminho. - Parecia inviável. Seria um filme caro, baseado num livro com 300 personagens, com uma história imensa e passada em vários países. Sabe aquelas coisas que você acha tão grandes que pensa que nunca vai fazer na vida? Depois de comprar os direitos do livro, em 1996, e tentar sem sucesso arrumar produtor para o filme, Rita resolveu que iria, além de escrever o roteiro, assumir ela mesma a tarefa de buscar patrocínio. Foram seis anos atrás de dinheiro. - Ouvi todo tipo de não. Desde o não educado até o "não gosto de cinema brasileiro, acho horrível". Quando finalmente conseguiu captar a verba - no total, "Olga" custou R$ 8,8 milhões - ouviu do médico o diagnóstico: estava com câncer. - Depois de um longo tempo, eu estava começando a entrar num momento muito bom da minha vida. De repente, no início de 2002, veio esta baita pancada na minha cabeça. Pensei em devolver o dinheiro - conta Rita, de 42 anos. Na época, ela preparava-se para fazer o documentário "Carandiru.doc", que iria registrar as filmagens de "Carandiru" e mostrar como a ficção trata a realidade. Quis também desistir, mas o cineasta Hector Babenco, que enfrentou um câncer, convenceu-a a seguir adiante. - A última carta de Olga, endereçada a Prestes, é uma espécie de testamento emocional. Ela fala de que o fato de você se preparar para a morte, de ter esta presença muito perto, não quer dizer que você deva desistir. O que eu vivi pessoalmente foi muito importante para entender melhor a Olga. Rita não desistiu e, mesmo em meio às sessões de quimioterapia, fez o documentário sobre "Carandiru" e continuou o projeto de "Olga". Co-produzido por Nexus Cinema - produtora de Rita - Globo Filmes e Lumiãre, o filme entra em cartaz no dia 20 de agosto, com Camila Morgado no papel-título e Caco Ciocler como Prestes. Foram necessárias duas horas e 21 minutos para contar a história da judia alemã que se tornou revolucionária, casou-se com Luiz Carlos Prestes e acabou, mesmo grávida de sete meses, deportada pelo governo de Getúlio Vargas para a Alemanha, onde morreu num campo de concentração, em 1942. Durante o trabalho de pesquisa, Rita, que fala alemão, conseguiu uma bolsa do Instituto Goethe e foi à Alemanha pesquisar os arquivos da Gestapo e visitar campos de concentração. Para dirigir o filme, a produtora convidou Jayme Monjardim, que faz sua estréia no cinema. Os dois já tinham trabalhado juntos na Manchete - ela foi co-autora e ele, diretor, da novela "A história de Ana Rio e Zé Trovão". - Jayme deu uma visão humana à história, sem excluir o contexto político. É um diretor que tem sensibilidade e pragmatismo. "Olga" tinha um cronograma apertado, de dez semanas de filmagem, e ele tem experiência em dirigir grandes cenas - diz ela, dando como exemplo as filmagens que mobilizaram quase mil figurantes e que mostram Olga cantando a "Internacional Socialista" diante da juventude comunista. Os oito anos que se passaram entre a compra dos direitos do livro de Fernando Morais e a chegada do filme aos cinemas acabaram sendo benéficos para a produção. Se nos anos 90 havia resistência à história de Olga, agora a receptividade promete ser melhor. - Olga fazia parte da geração dos revolucionários românticos, que foi retomada de novo com Che. Eram pessoas que tinham na revolução sua grande paixão e que deram a vida pela causa e pelos ideais. O que sobrou hoje no mundo foi um certo cinismo. Rita resolveu comprar os direitos do livro - que já vendeu mais de 500 mil exemplares no Brasil e foi lançado em 32 países - após encontrar por acaso o escritor num bar em São Paulo. Ela não fala em valores, mas sabe-se que custou caro - por se tratar de um autor famoso e de um best-seller. Rita fez um contrato pelo qual pagou parceladamente, com o dinheiro recebido como novelista no SBT. De família de classe média baixa, ela trabalhou como "office-boy" - seu primeiro emprego, aos 16 anos - e secretária. Também foi empregada do Banespa, onde trabalhava na área administrativa. Formada pela Escola de Cinema da Universidade de São Paulo, resolveu, em 1988, inscrever-se num workshop de Gabriel García Márquez em Cuba. Em cada país da América Latina seria selecionado um aluno, e ela foi a escolhida do Brasil, com um roteiro sobre um casal de velhos que se reencontra após 40 anos, quando ele descobre que sua antiga paixão está morrendo. - É uma homenagem aos cineastas que, dos anos 20 aos 40, iam às cidades do interior vender seus serviços. A história também foi selecionada na II Oficina de Roteiros do Sundance Institut. - A idéia era eu dirigir, mas García Márquez me disse: "Será que você é diretora?". Fiquei meio braba, mas ele completou: "Acho que você deve escrever. É algo que exige dedicação." E assim fez Rita. Ela co-roteirizou a minissérie "Rosa dos rumos", da Manchete, adaptou "Maria dos Prazeres", filme baseado em conto de García Márquez, para o produtor italiano Carlo Ponti, trabalhou como autora de novelas no SBT e fez o roteiro de "Lara", longa-metragem dirigido por Ana Maria Magalhães. Rita também é roteirista de "Zuzu Angel", mistura de documentário e ficção. Em setembro, lança pela Iluminuras o livro de contos "Entre esperanças e lembranças". Em 1993, já tinha escrito seu primeiro romance, "Maralto". A próxima empreitada cinematográfica de Rita será igualmente espinhosa: na terça-feira retrasada, ela fechou a compra dos direitos do livro "Budapeste", de Chico Buarque. Como em "Olga", vai produzir e roteirizar o filme. O diretor será escolhido por ela e pelo compositor. - Peguei o livro e não consegui parar. Li em 12 horas, e isso porque tive que interromper. Pensei: "Cara, isso aí dá um filme. Quero filmar." A narrativa tem uma tensão que prende você. Gostaria de usar no roteiro esta tensão que todo suspense tem. Mas falei para Chico: "Não se assuste que não vou fazer um thriller." Em "Olga", os inimigos são externos e em "Budapeste", internos. Chico mostrou-se receptivo à idéia de ter seu livro adaptado por Rita e transformado em filme - "Estorvo" e "Benjamim" também foram parar no cinema. Mas, se em "Olga" as cenas passadas em Berlim, Munique, Paris e Moscou foram todas feitas no Rio, em "Budapeste" ela pretende filmar no Brasil e na Hungria. - Em "Budapeste", a cidade é um personagem. Há a questão de se sentir estrangeiro num lugar - conta ela, que comemora a decisão de ter seguido em frente com "Olga". - Se tivesse devolvido o dinheiro e desistido, estaria hoje num canto, superdeprimida, achando que minha vida tinha acabado. Comente aqui: Reportagem com Daniel Filho Daniel Filho rompe exílio de 17 anos - Produtor e diretor brilha como ator em 'Querido estranho', sua volta às telas depois de ´Romance da empregada´, de 1987 Alberto é daqueles sujeitos desagradáveis, que ganham de aniversário um pijama e, como agradecimento, dizem: "Não foi desta vez que vocês conseguiram me surpreender." A filha não recebe tratamento melhor: "Talvez eu a respeitasse mais se você não fosse uma versão piorada de sua mãe." Ele previa um futuro glorioso para sua vida, mas chega aos 64 anos fracassado. Anda num carro caindo aos pedaços, é sustentado pelos filhos e não está muito interessado em comemorações: "Parabéns por quê? É só mais um passo em direção à morte." O personagem interrompe um exílio cinematográfico de 17 anos. A comédia dramática "Querido estranho", de Ricardo Pinto e Silva, que estréia amanhã, traz Daniel Filho em plena forma como ator - a exemplo do que acontecia em sua última atuação, no filme "Romance da empregada", de Bruno Barreto, de 1987. - Não tenho a menor idéia de por que não me chamam para atuar. Nem tenho coragem de desenvolver esta idéia, porque posso me elogiar ou posso me esculhambar - conta. Ele lamenta a escassez de convites. - Representar é quase como ir pescar. É o que me deixa mais relaxado. Divirto-me, distraio-me, é agradável. Adoro dirigir, mas tem que estar atento. E produzir, mas é um peso grande. Daniel Filho diz seguir as recomendações do ator americano Spencer Tracy: - Pediram um conselho do que fazer no cinema e ele falou: "Decore suas falas, caia nas suas marcas e procure não dar canelada nos seus companheiros." Se o trabalho em frente às câmeras tem sido pouco, os papéis de diretor e de produtor têm ocupado boa parte de seu tempo. Em sete anos, o mentor da Globo Filmes produziu 17 filmes. Só este ano serão cinco: "Sexo, amor e traição", "Cazuza - O tempo não pára", "Redentor", "Viva voz" e "A dona da história", que estréia dia 1º de outubro. "A dona da história" marca a volta dele à direção, após "A partilha". Tratam-se de peças adaptadas para o cinema, como no caso de "Querido estranho", baseado em "Intensa magia", de Maria Adelaide Amaral. Coincidência? - O cinema mundial sempre usou peças, como "O pecado mora ao lado", dirigido por Billy Wilder. O teatro dá uma fonte de segurança maior ao filme. Além disso, há uma carência de roteiros com princípio, meio e fim, e personagens tridimensionais, consistentes - explica ele, com a autoridade de quem leu "quase todos os roteiros dos filmes que estão sendo feitos no Brasil". - O cinema tem um lado que é o do bicheiro: vale o que está escrito. Não há diretor ou ator que faça o filme ficar bom se não houver um roteiro bom. Rodado em apenas 24 dias, "Querido estranho" é bem diferente dos filmes a que Daniel Filho está acostumado a produzir ou dirigir. - Até agora não produzi ou dirigi um filme que tivesse menos de um milhão de espectadores. O curioso é que encontrei com a Ana (Beatriz Nogueira, que interpreta uma de suas filhas em "Querido estranho") na pré-estréia em São Paulo e ela disse: "E eu nunca fiz um filme que deu um milhão..." - conta ele, que, em novembro, roda "Muito gelo e dois dedos d´água", com roteiro de Alexandre Machado e Fernanda Young. A expectativa de "Querido estranho", que custou pouco mais de R$ 1 milhão, é mais modesta. - Tem que se apoiar este tipo de filme, feito de maneira profundamente econômica, como muitos filmes brasileiros deveriam ser feitos. Os europeus fazem muito este gênero, com poucos atores e uma história para pensar, pois é dele que vive o cinema. O que não se pode é apoiar filme destinado a um público pequeno e que custe R$ 6 milhões - diz ele, que espera não ter que ficar tanto tempo de novo sem atuar no cinema. - Estou louco para trabalhar como ator. Não quero estar com mais de 80 anos no próximo trabalho... Comente aqui:
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