| DizVentura II |
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Segunda-feira, Junho 21, 2004
Reportagem com Chico Buarque Ele não está à toa na vida - Chico Buarque não acha a menor graça em completar 60 anos, acompanha a tradução de seus livros e diz que ainda não foi 'chamado' de novo pelo violão Era uma oportunidade rara aquela, e as mulheres trataram de aproveitá-la. Chico Buarque dançava, desajeitado, na pista e um cortejo feminino se revezava à sua volta - a maioria para tirar onda mais tarde com as amigas e dizer que dançou com o ídolo. Umas, mais recatadas, contentavam-se em ficar por perto. Outras, mais afoitas, arriscavam afagos na nuca, faziam propostas sem rodeios, diante de um Chico mais sem jeito do que propriamente envaidecido. Uma jovem, recém-chegada à casa dos 20, quem sabe movida pelo álcool, talvez estimulada pela chance única, sussurrou:- Você é Deus - disse a moça, emendando em seguida um convite, nem aí para a mistura de sagrado e profano. O compositor alternava-se entre a pista de dança e o sofá, onde, copo d¿água na mão, era cercado por garotas que até de joelhos se posicionavam, em busca de um melhor ângulo. Apesar do cerco feminino, Chico seguiu às 4h para o hotel na capital paulista, acompanhado de seu assessor de imprensa, Mário Canivello, não sem antes parar num posto de conveniência para comprar cigarros e dar um autógrafo escondido para o vendedor - "É proibido", desculpou-se o rapaz. Amanhã, Chico completa 60 anos, ainda cortejado pelas mulheres, como se vê. Avisou aos amigos que estaria em Paris, onde tem apartamento, mas pode muito bem ter inventado a história só para evitar os parabéns. Antes da festa em São Paulo - feita em homenagem à cineasta Monique Gardenberg, diretora do filme "Benjamim" - Chico já havia experimentado a euforia do público paulistano, na pré-estréia do longa-metragem inspirado em seu livro. - Suas músicas me deixam fora de si - gritou uma senhora na chegada ao cinema, errando na concordância, mas acertando no sentimento. Como ela, não foram poucas as mulheres - e os homens - que buscaram abrigo nas canções de Chico. Suas músicas serviram para consolar, seduzir, desabafar, refletir, fazer sonhar ou, simplesmente, divertir. Elas deram esperança, aplacaram tristezas e se instalaram em definitivo na intimidade das pessoas, desde que ele surgiu no cenário artístico brasileiro, há 40 anos. Se as aparições noturnas se tornaram raras com o passar dos anos, as incursões diurnas não perderam o fôlego. Semana passada, ele podia ser visto, como de hábito, caminhando pelas praias do Leblon e de Ipanema. Quando está acompanhado do amigo Miguel Faria Jr., o que é mais comum, vai pelo calçadão. Naquela quarta-feira de sol ameno, temperatura a 24 graus, sozinho, vestindo apenas short azul claro, preferiu ir pela areia, perto da beira d¿água. Chegou às 12h30m - afinal, Chico dorme de madrugada e costuma acordar por volta das 11h. Os passos largos e o andar ligeiro inibem as abordagens mais demoradas. - Obrigado pelo seu talento, felicidades - saúda um senhor, recebendo de volta um polegar levantado. - Seu Chico - reverencia um garoto, ganhando em troca um sorriso. Duas turistas de Curitiba ficaram em dúvida se era ele mesmo. - É o Chico? Não pode ser! - Eu acho que é, mas está muito bronzeado. - Mas o nariz e os olhos são os mesmos. Quando chegaram a uma conclusão, ele já estava longe. Miguel diz que é uma cena corriqueira: quando cai a ficha, a pessoa se vira, admira-se, mas aí já não há tempo de falar nada, só de ver as costas de Chico se afastando. Ao fim da caminhada - que incluiu duas corridas curtas, alguns cumprimentos e uma parada num posto de salvamento para guardar o chinelo e a camiseta com o vigia - o compositor comentou que, em geral, o carioca não dá maiores bandeiras. - Quando tem gente de fora, é que às vezes pede para tirar foto junto ou quer um autógrafo - disse ele, um tanto quanto constrangido de não poder oferecer uma água-de-coco ao repórter: - Trago o dinheiro contado. Chico estava com pressa para almoçar com a filha Silvia e o bate-papo não se alongou. Era esperado. Algumas semanas antes, naquela noite em São Paulo, já prevendo o assédio por conta de seus 60 anos, ele explicava a decisão de não dar entrevistas sobre o aniversário. Em primeiro lugar - desculpava-se - se falasse com um jornalista, teria que falar com todos. Além disso, julgava cabotino participar de homenagens a si mesmo - algo que sua autocrítica impiedosa não lhe permite. E, por fim, não estava achando a menor graça em fazer 60 anos. Não que tenha motivos para queixas. A saúde, como atestam os check-ups periódicos, vai bem. A forma física - 1,79m e 70 quilos, mantidos às custas de futebol às segundas, quintas-feiras e sábados, e caminhadas às terças, quartas, sextas-feiras e domingos - também não dá sinais de maiores abalos. A verdade é que o compositor leva uma vida mais regrada. Deixou de varar as madrugadas em bares e parou de beber pesado graças a um bruxo que lhe foi apresentando pelo amigo Tom Jobim e que lhe receitou um preparado de ervas nos anos 80. Hoje, contenta-se com vinho no jantar e uma ou outra grappa. Os 50 cigarros diários - sempre da marca Charm - reduziram-se drasticamente. Há alguns anos, Chico fez duas promessas de Ano Novo: não parar com o vício e só fumar oito cigarros por dia. Tem cumprido o trato. Ao longo dos anos, ele já vinha tentando diminuir a fumaça. Chegou a estabelecer uma cota: um cigarro por hora. Depois, decidiu que seriam três maços a cada dois dias. Até que fixou o número oito. E por que oito? Há quem diga que ele considera como se fossem três, porque teria ouvido falar que cinco não fazem mal à saúde. Outros dizem que são oito porque é o número de horas úteis, dentro de uma matemática toda peculiar, que passa a contar a partir do almoço. Como muito do que envolve Chico, lenda e realidade se confundem de tal maneira que fica difícil separá-las. Muito por culpa do próprio compositor, que tem um temperamento gaiato e uma habilidade incomum para criar histórias, contar piadas, pregar trotes, inventar trocadilhos, dar apelidos e imaginar personagens. Certa vez, mais de 15 anos atrás, num vôo para Cuba, disse à filha Silvia que esteve no país de Fidel Castro com Harry Belafonte. - Pensei: "Ele inventou esse nome" - lembra Sílvia. - E quanto mais ele falava, mais eu achava que ele estava inventando. A irmã Helena e a amiga Janaína Diniz também não acreditaram. O cantor americano virou um código particular: toda vez que achavam que Chico estava contando lorota, diziam: - Lá vem o Belafonte. São muitas as passagens curiosas. Como no dia em que, no Uruguai, o motorista de táxi disse que o estava reconhecendo e ele inventou que era filho do goleiro Manga. De outra feita, num bar em Colatina, no Espírito Santo, ouviu de um sujeito: - Ué, eu conheço o senhor. É da TV, né? Chico explicou que era o novo técnico do Colatina, que lutava para sair da terceira divisão, e os dois começaram a conversar sobre o time. Juntou gente ao redor "da mais recente contratação da equipe". O "treinador" inventou até que estava atrás de uma cobertura na cidade. Dias depois, saiu numa coluna social que Chico Buarque tinha ficado maravilhado com Colatina e estava procurando uma cobertura para alugar. No interior paulista, fingiu-se de sul-africano ao se registrar num hotel. Diante da incredulidade da recepcionista, criou na mesma hora um idioma para convencê-la de que falava a verdade. O escritor Eric Nepomuceno lembra-se do dia em que chegou com Chico no restaurante e reparou que o maître estava com cara de poucos amigos. - Ele estava me tratando mal e eu não entendia por quê. Depois descobriu a razão. Chico tinha inventado que Nepomuceno era o crítico gastronômico que, na véspera, demolira o serviço da casa no jornal. Uma vez, vestiu-se como motoboy - com direito a capacete com visor - e foi entregar flores a uma amiga que aniversariava. Ganhou até gorjeta, e saiu feliz da vida por ter conseguido circular pela cidade anônimo. Nos anos 60, tinha um acordo com o amigo Carlos Jaguaribe Ekman, o Barão. Toda vez que a tietagem à sua volta tornava-se exagerada, o amigo fingia um ataque epilético e ele escapulia dizendo que tinha que levar Barão ao hospital. Tem mania de inventar cidades e ler mapas - não por acaso escreveu "Budapeste" sem nunca ter ido à capital húngara. - Ele tem uma bússola na cabeça. Daria um ótimo agente ou guia turístico - brinca a irmã Miúcha. Em 1969, imaginou um país, chamado Tita, onde, como conta o jornalista Humberto Werneck no texto "Gol de letras", "as pessoas se expressavam numa língua monocórdia em que as sílabas tinham o mesmo peso" - Teresa virava Térésá. Quando criou o pseudônimo Julinho da Adelaide para driblar os censores, tratou de preparar uma elaborada história em volta do personagem. Chegou a dar entrevista para o jornal "Última Hora" contando que não queria ser fotografado por causa das cicatrizes obtidas quando foi atingido no rosto pelo violão de Sérgio Ricardo e reclamando que "o Chico Buarque está faturando em cima do meu nome". Passou a colaborar com palavras cruzadas para jornal assinando como a mãe do compositor, Adelaide Kuntz, moradora da favela da Rocinha que adotou o hobby depois de ficar paralítica. As escaramuças com a ditadura militar eram constantes e Chico tornou-se o alvo principal da Censura. De cada três canções que enviava às autoridades, duas eram interditadas e a terceira, mutilada. Algumas eram criadas propositalmente para serem vetadas - uma espécie de boi de piranha. Mesmo com toda marcação, volta e meia suas letras de duplo sentido conseguiam enganar os censores. O espírito arteiro e moleque vem de longa data. Em 1961, menor de idade, saiu com um amigo para "puxar" um carro e dar umas voltas pela madrugada de São Paulo, hábito nada incomum entre a garotada bem-nascida de então. Acabou preso, algemado, espancado e notícia de jornal. A "Última Hora" publicou reportagem com o título "Pivetes furtaram um carro: presos", ilustrada com uma foto dos dois com tarja preta cobrindo os olhos. O castigo dos pais - Maria Amélia e o historiador Sérgio Buarque de Hollanda - foi duro: ficou proibido de sair sozinho à noite até fazer 18 anos, seis meses depois. Chico Buarque leva uma vida simples - para os padrões de um astro de primeira linha do país. Não gosta de comprar roupas, tem pavor de segurança - "chama mais a atenção", argumenta - não tem motorista e não liga para carros. Seu Honda Civic, de dois anos atrás, só vai ser trocado quando começar a quebrar na ida para o campo de futebol, no Recreio, ou quando a secretária, Márcia, começar a insistir: - Chico, está na hora da troca. Mesmo assim, ele vai tentar regatear: - Ainda está bom. Seus programas prediletos são ver os três netos - a mais nova, Lia, chama-o de voíco - encontrar as três filhas, caminhar e jantar com os amigos Ruy Solberg, Edu Lobo e Miguel Faria Jr., em geral no Gero. E, claro, jogar futebol - ele é dono de um time, o Polytheama. Outro dia, ao apresentar um amigo à mãe, a maneira que encontrou para demonstrar o afeto foi: - Mãe, esse é um amigo meu, ele joga no Polytheama. Quem se aproxima de Chico fica em geral intimidado, preocupado que está em caprichar no discurso e elaborar frases brilhantes. Esqueça. - Às vezes, as pessoas acham que estamos conversando sobre grandes projetos. Mal sabem da bobagem elevada a dez que rola - conta Edu Lobo. - Começa sempre sério. A primeira parte é como se fosse um jantar de negócios. Mas depois da segunda garrafa de vinho começamos a falar besteira - completa Miguel. Cinema não é um tema muito freqüente, apesar da presença de dois cineastas na mesa, Miguel e Solberg. - Eu pergunto qual foi o último filme que ele viu e ele responde sempre: "Corra, Lola, corra" - brinca Solberg. - Ele disse que ia comprar um DVD e falou: "Você vai ver só, vou poder conversar." O tom é tão informal e descontraído que um dia, restaurante cheio, os quatro foram se sentar na cozinha e por lá mesmo ficaram. Quem conversa com Chico aprende com o tempo a conhecer o que o cineasta Ruy Guerra chamou de silêncios eloqüentes e o músico Edu Lobo classificou de estado catatônico - momentos em que o compositor, olhar vago e distante, desliga-se do mundo, deixando o interlocutor inseguro, sem saber se está agradando, quando na verdade ele está com a cabeça ocupada na criação. O tempo buarquiano é outro, como conta a ex-mulher, Marieta Severo, no livro sobre Chico escrito por Regina Zappa: "Não fale com ele na primeira hora, hora e meia, depois que acorda. Não é que acorde de mau humor, mas demora a incorporar, fica um tempo fora deste mundo. Tem um corpo que acorda, que abre o olho, que se movimenta, faz as coisas, mas o resto está em outra galáxia. Cuuuuusta! Nesse vagaroso tempo de despertar não se pode perguntar coisas e querer uma resposta coerente." Os dois se separaram em 1997, após 30 anos de casamento, mas conservaram a amizade e costumam almoçar aos domingos na casa da atriz. Os amigos dizem que a timidez de Chico é para consumo externo - entre parentes e amigos sobressai a figura brincalhona. Mas, se a fama de tímido não resiste a um exame mais profundo, a aversão aos holofotes é verdadeira. Chico se esmera em preservar seu espaço, a ponto de ter escolhido sua cobertura no Alto Leblon, colada ao Morro Dois Irmãos, somente após conferir que não seria alvo de nenhuma foto de paparazzi. Os amigos também ficam cheios de dedos na hora de dar depoimento sobre o compositor, com medo de invadir a privacidade que Chico tanto preza. O recato talvez seja herança materna. - Mamãe sempre foi muito drástica nessa questão de não se exibir e de não se expor ao ridículo - diz Miúcha, para quem Chico era o mais extrovertido dos sete irmãos. Um dia, no Satyricon, jantava com Nepomuceno e um pintor amigo quando, animado, quis mostrar em primeira mão para os dois uma nova música. Cantou baixinho, certo de que ninguém mais prestava atenção. Quanto terminou, o restaurante inteiro aplaudiu e ele ficou constrangidíssimo, com medo de que pensassem que estava se exibindo. A discrição fez com que recusasse uma foto de capa do disco "As cidades", que realçava seus olhos e valorizava sua estampa. - Estou muito bonito na foto - justificou, receoso de que parecesse estar vendendo uma imagem de galã. Ver sua vida privada esquadrinhada pela imprensa é das coisas que mais o chateiam - como quando se separou e passou a ser seguido por um fotógrafo e uma repórter de uma revista. Saiu do sério quando um deputado curitibano, a fim de se promover, resolveu dar a ele o título de cidadão honorário. Sem consultá-lo, o político marcou a cerimônia na Assembléia Legislativa, distribuiu 500 convites e, quando o compositor soube, disse não, avesso que é a formalidades. Toparia receber no campo de futebol. O deputado deu uma entrevista chamando-o de mal-educado e ele reagiu: - Eu posso ser qualquer coisa, menos mal educado. Vou ligar para ele. Acabou deixando para lá. Chico não quer ficar sozinho - daí recusar a imagem de Greta Garbo tropical. Ele gosta de se misturar à vida da cidade, ir à farmácia, freqüentar a padaria, caminhar no calçadão. Não que não adote estratégias - no domingo, prefere caminhar pelo parque perto de sua casa a enfrentar a praia cheia. Mas, ao contrário do amigo Gilberto Gil, que adora uma platéia - "subo nesse palco, minha alma cheira a talco, feito bumbum de bebê" - Chico evita o quanto pode os shows. Na TV Record, onde fazia junto com Nara Leão o musical "Pra ver a banda passar", ficava tão inibido que o produtor Manoel Carlos disse que eles formavam a maior dupla de "desanimadores" de auditório da televisão brasileira. O pânico de antigamente, enfrentado à época com uísque sem gelo, foi acalmado, mas ele ainda prefere estar em outro lugar a encarar a multidão. É um sacrifício combatido com comprimidos, cada vez mais raros, de Lexotan. Na época do show "As cidades", recusou o convite de se apresentar na praia. Ele só não pára porque, como diz Regina Zappa, o cantor é o provedor, aquele que sustenta com os shows o escritor e o compositor. O próprio Chico brinca com o status diferente do músico e do escritor. Ele comprou o apartamento debaixo da cobertura e lá instalou o escritório, onde se enfurna para escrever - o espaço onde compõe fica na parte nobre, em cima. - O escritor vive modestamente e viaja de classe econômica - diz ele, que só há pouco sucumbiu à internet. Chico levou dois anos para escrever "Budapeste". Em geral, após um livro vem um disco. Por enquanto, ainda está envolvido com a literatura, acompanhando de perto as traduções de sua obra para o italiano, o inglês, o espanhol e o francês. Gal Costa, que estréia show novo dia 24, pediu a ele uma música e Chico entregou-lhe uma melodia inédita, feita há dois anos para a versão em italiano de "Dona Flor e seus dois maridos". A letra será de José Miguel Wisnick. - O violão ainda não me chamou - tem dito. Na música, como na literatura, Chico atormenta-se pela busca da palavra mais certa. O LP "Chico Buarque", de 1989, já estava indo para a fábrica, onde ia ser prensado, quando ele cismou de trocar "podar" por "anular" na letra da música "O futebol". Resultado: correu para o estúdio, emendou às pressas a fita (eram tempos pré-digitais) e finalmente pôde relaxar - por pouco tempo, porque logo a angústia da criação voltaria a atormentá-lo. Maria Bethânia também teve provas do perfeccionismo. Chico deu a ela a música "A moça do sonho". Quando ouviu a fita, a cantora ficou eufórica e decidiu incluí-la no disco "Maricotinha". Bethânia foi para Londres, gravou as músicas e, disco pronto, voltou ao Brasil. Apenas para ouvir do amigo: - Fiz umas modificações na letra. Ela teve que entrar em estúdio de novo e refazer o trabalho - só pôde usar uma parte do arranjo de cordas gravado em Londres. - Chico me deixou desesperada - comentou com um amigo. O compositor tem um medo, como revelou o deputado Chico Alencar no livro "Chico Buarque do Brasil", de Rinaldo de Fernandes: ser olhado pelos netos, daqui a 20 ou 30 anos, como nós olhamos hoje um Olavo Bilac - com respeito, desinteresse e estranhamento. Miúcha aposta que não. - Você vê todas as gerações saboreando suas letras. A fórmula dele é impermeável ao tempo. Comente aqui: Terça-feira, Junho 01, 2004
Reportagem com Fernanda Montenegro Vida nova aos 74 anos - A atriz Fernanda Montenegro faz três filmes este ano e se redescobre no cinema O gari que levanta o polegar enquanto saúda "Dona Fernanda, ó!" recebe de volta um sorriso - mesmo sorriso negado a quem chega cheio de afetação e a chama de "grande dama", "grande diva" ou "monstro sagrado" do teatro nacional, entre outros clichês. - Acho constrangedor. É tão velho isso. E nem é da nossa cultura. Na Inglaterra é que tem essas coisas de dame - diz Fernanda Montenegro. Pois esta mulher de gestos refinados, mas avessa a frivolidades, completa 75 anos em outubro com um fôlego de iniciante. - Estou começando uma vida nova agora, você já reparou? - pergunta ela, que será vista no cinema este ano em "O outro lado da rua", "Olga" e "Redentor". - Há quatro anos não faço teatro, o que é uma coisa estranhíssima na minha vida. Mas o cinema veio pelas beiradas e em 2004 já fiz três filmes. Abriu-se uma porta muito interessante para mim depois de "Central do Brasil". O recomeço numa idade em que a maioria já está aposentada surpreende a própria Fernanda. - Sou de 1929. Outro dia fiz as contas e vi que quando eu nasci a libertação dos escravos só tinha acontecido havia 50 anos. Aí me assustei: Jesus, sou quase do princípio do século passado! - diz. - Mas acho interessante esta guinada porque para fazer bem cinema você tem que aprender a trabalhar para a lente, a ter intimidade com aquela máquina enorme na sua frente. Graças a Walter Salles, a maior atriz do país tornou-se uma figura mais presente nas telas de cinema. São sete filmes de "Central do Brasil" para cá. Em dez anos, foram apenas quatro peças e nada menos do que dez longas-metragens. Tendência que não dá sinais de arrefecer. Mês que vem, ela roda "Casa de areia" com a filha, Fernanda Torres, e com o genro, Andrucha Waddington. E já tem duas outras propostas em vista. A primeira prevê a adaptação da novela "Guerra dos sexos", de Silvio de Abreu. Ela e Paulo Autran seriam dirigidos de novo por Jorge Fernando. O segundo convite vem de um jovem diretor, Flávio Mendes, que sonha com ela e Stênio Garcia para sua estréia. Fernanda não tem medo de cineastas estreantes. Ao contrário. - Tenho 55 anos de palco. Então estou aí rolando há muito tempo e de vez em quando um jovem diretor me chama para fazer alguma coisa e eu vou, na maior felicidade. Eles têm um frescor que contagia. Marcos Bernstein chamou. E ela foi. - Quando pensei na personagem, alguns segundos depois já tinha surgido a Fernanda na minha cabeça - diz ele, de 34 anos, co-roteirista de "Central do Brasil", estreando na direção com "O outro lado da rua". - Escrevi o roteiro pensando nela. Enviei-o e ela disse: "Estamos nessa". Em "O outro lado da rua", que estréia na sexta-feira, Fernanda é Regina, moradora de Copacabana que preenche o vazio dos dias trabalhando como informante da polícia. De binóculo na janela, ela acredita ver a morte de uma mulher pelo marido, como em "Janela indiscreta". O homem é o juiz Camargo (Raul Cortez). Como a polícia não acredita em suas suspeitas, ela investiga o caso sozinha e acaba se envolvendo com o suposto assassino. A atuação já lhe valeu os prêmios de melhor atriz no Cine PE e no Festival de Tribeca, em Nova York. E também lhe rendeu uma ovação no Festival de Berlim. - Parecia que eu tinha feito uma vida inteira na Alemanha. Brinquei: "Vou me tornar berlinense." O envolvimento com Camargo, feito de dúvidas, temores e recuos, chega à cama, numa cena rara de se ver nas telas de cinema, ocupadas por corpos jovens e sôfregos. - Há um preconceito de que atores da nossa idade vão ficar constrangidos. Mas o que nós já fizemos no palco até Deus duvida. É porque não freqüentam os nossos teatros. Meu Deus, eu já fiz textos tão violentos do ponto de vista de sexo! É uma cena delicada, em que não há nudez, mas mãos que se descobrem, rostos que se beijam, corpos que se insinuam. Regina disfarça seu nervosismo com humor. "Isso aqui é um verdadeiro jogo-da-velha", diz, ao falar do receio de tirar a roupa e mostrar o corpo com cicatrizes e estrias. - São pessoas que não têm aquela volúpia dos hormônios dos 20 anos, mas que ainda são erotizadas - diz a atriz, que critica a "taquicardia" que domina o sexo na TV e no cinema. - É espantoso. O menino de 16 anos parte de chupão para cima da menina de 13, como se fossem profissionais da mais alta estirpe. Tem dois lugares fundamentais para resolver o problema. É chupão na cara, que você pode mostrar, e depois vai descendo depressa para os baixinhos. Mas em geral pára aí por perto, por causa da censura. Claro que tem isso nos encontros de cama, mas não é só isso. Atriz diz que geração dos setentões é "vibrante" - Além de cinema, teatro, TV e publicidade, Fernanda faz oficinas de leitura e participa de encontros e eventos Em "O outro lado da rua", de Marcos Bernstein, Fernanda Montenegro mais uma vez aposta em um diretor estreante. Foi assim em sua estréia no cinema, com "A falecida", de Leon Hirszman, em 1964. Também foi o caso de "Em família", de Paulo Porto, em 1970, "Marília e Marina", de Luís Fernando Goulart, em 1977, e "A hora da estrela", de Suzana Amaral, em 1986. - Fiz ainda o primeiro curta do Arthur Fontes e os três episódios de "Traição", também de estreantes (Fontes, José Henrique Fonseca e Cláudio Torres, filho da atriz) - diz Fernanda. Este ano, ela filmou "Redentor", estréia no longa-metragem de Torres. E em 2005 estuda fazer o filme de outro iniciante, Flávio Mendes. - São filmes de total amor, que ficam na cabeça durante três, quatro anos até conseguir levantar capital. A atriz pretende voltar para os palcos - sua última peça foi "Alta sociedade", de 2001. - Mas sempre que me vem um projeto de cinema é mais interessante do que o que eu poderia estar fazendo em teatro. Fernanda brinca e diz que, como todo brasileiro, também faz bicos para sobreviver. Além do cinema, da TV e do teatro, faz anúncios e dá oficinas de leitura dramática. - Em setembro, completaremos a décima cidade. São oito horas por dia de leituras, durante uma semana. Quando termina, é uma despedida debaixo de choro de todos nós - conta. - Também faço eventos, como, por exemplo, ir à premiação de uma instituição. E, às vezes, encontro com grupos que querem conversar e conhecer nossa experiência. Ela não dá sinais de cansaço por se desdobrar em múltiplas atividades. - A nossa geração é vibrante, inteira. Os setentões e os oitentões somos de um fôlego, de uma presença e de uma luz impressionantes. É uma coisa de louco esses jurássicos. Sessenta anos é neném de colo para nós - brinca. A atriz define sua personagem em "O outro lado da rua" como "deslumbrante, complexa, sutil e não maniqueísta". Regina é uma espécie de justiceira das madrugadas. Para ajudar a polícia, ela se disfarça, visita boates, espiona apartamentos. - Ela tem um humor corrosivo sobre ela mesma e sobre o próximo. Tem uma certa revolta de que lhe imponham uma velhice que não é a dela. É toda catita. Pode até sofrer com a decadência física, mas a alma está inteiraça. Como muitos idosos de Copacabana, ela muda quando sai à rua. - Em casa, ela é depressiva, largadona, jogada fora, com a cozinha cheia de pilha de louça. Quando põe o pé na rua, está tratadinha, bonitinha. Fernanda elogia a ousadia de "O outro lado da rua" em buscar outro caminho e falar da classe média, num momento em que o cinema está mais voltado para a favela e o sertão, para os indigentes e os marginais. - Os temas que estão aí têm dado certo e levado público ao cinema, mas o filme abre um pouco o leque das opções temáticas - festeja. Ela também ressalta o "tempo reflexivo" do filme, que permite ao espectador ser introduzido aos poucos no interior das coisas. Hoje em dia, Fernanda critica, as narrativas do cinema, do teatro, da TV e da literatura sofrem de taquicardia. - Há um estresse no ar. Sempre se tem medo de que o público vai se cansar - diz ela, que faz no longa sua estréia ao lado de Raul Cortez no cinema - eles já trabalharam juntos na TV e no teatro. - Raul estreou em 1956, numa peça ("Eurídice") em que eu fazia a mãe já de uma adolescente. Quando abria o pano, a gente dançava um rock. Temos uma química muito boa. Comente aqui:
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