DizVentura II

Terça-feira, Abril 27, 2004

Reportagem com Alberto Granado

Na estrada com Che - Aos 83 anos, Alberto Granado lembra viagem com Guevara, mostrada no filme 'Diários de motocicleta'

Quase 40 anos depois, ainda está fresco na memória de Alberto Granado o dia em que foi chamado à redação do jornal "Granma" para identificar, por meio de uma foto, o corpo do amigo Che Guevara.

- Em Cuba, ninguém queria acreditar que ele estivesse morto, mas tive um pressentimento de que era verdade - conta ele, na varanda de um hotel em São Paulo. - Falaram: "Com a força que tinha, como esses bracinhos finos seriam os dele?". Mas a força dele não era muscular, vinha dos nervos. Vi que era ele mesmo. O coração não me enganou.

Aos 83 anos, Granado está no Brasil para o lançamento do filme "Diários de motocicleta", de Walter Salles, que retrata a viagem que fez em 1952 com Che - na época, um estudante de medicina de 23 anos, conhecido apenas como Ernesto Guevara de la Serna. Os dois jovens argentinos saíram de Córdoba a bordo de uma velha motocicleta inglesa de Granado e, oito meses depois, separaram-se na Venezuela. Neste meio tempo, transformaram-se ao tomar contato com a opressão no continente latino-americano.

O filme será lançado em circuito comercial no dia 7 de maio. No sábado, terá pré-estréia no Odeon, seguida de debate, com a participação de Granado. Ele ajeita-se na cadeira, dá mais um gole no uísque e explica por que não acompanhou o diretor brasileiro ao Festival de Sundance, nos Estados Unidos, onde "Diários de motocicleta" foi ovacionado.

- Estou proibido de entrar nos Estados Unidos desde 1949, quando assinei um manifesto contra a bomba atômica. Além disso, vivo há 40 anos em Cuba, era amigo de Che... É uma má recomendação para os ianques - ri.

Ele diz não ter interesse em conhecer os Estados Unidos, mas deixa escapar um sonho.

- Aquela pontinha de orgulho me diz que gostaria de ter estado no festival, mas estive em Roma, onde havia 1.200 pessoas aplaudindo o filme no cinema e 200 do lado de fora. Mas tinha vontade de conhecer o Grand Canyon, no Colorado. Tenho inveja do conquistador espanhol Alvar Núñez Cabeza de Vaca, que descobriu as cataratas do Iguaçu e o Grand Canyon.

Granado conta ter chorado em dois momentos do filme: na hora em que os dois amigos têm que abandonar a moto quebrada e na despedida do leprosário de San Pablo.

- O Rio Amazonas separava os doentes dos funcionários. Estávamos na parte sã e, da parte enferma, veio um pequeno barco com um maestro e músicos, que tocaram uma canção muito bonita e fizeram um discurso formidável, falando de como os tratamos como pessoas normais. Foi o momento mais emocionante da minha vida, mas, desgraçadamente, não pude fotografar porque estava chovendo.

No dia de seu 24º aniversário, o futuro Che tinha atravessado o rio a nado para festejar a data com os internos.

- Discutimos muito. Havia piranhas. Se um tronco o golpeasse e ele sangrasse, seria devorado - lembra. - A cena do cruzamento do rio e a despedida do leprosário são as partes mais emblemáticas do filme, onde o Walter (Salles) mostra a sua genialidade como diretor.

Ernesto é vivido pelo ator mexicano Gael García Bernal e Granado, pelo argentino Rodrigo de la Serna - coincidentemente, primo em segundo grau de Che. Salles diz ter ficado impressionado com a semelhança física entre Rodrigo e Granado. Mas, se na vida real Che era maior que o amigo, no filme se dá o oposto.

- O importante não é o físico, porque não se trata de uma biografia. O essencial é que meu espírito e o do Che estão representados pelos dois atores. Sobretudo Rodrigo, que tem muitas coisas sentimentais que se parecem com o Alberto de 50 anos atrás.

E Alberto Granado continua sentimental?

- Sigo sendo.

O filme mostra um jovem bioquímico de 29 anos, amante das farras e da medicina. Depois da viagem, Granado radicou-se em Caracas, na Venezuela, onde se casou em 1955 com Delia.

- Eu era muito alegre, dançava, organizava times de futebol e de rúgbi, escrevia para jornal. Tinha uma vida muito ativa. Quando cheguei a Caracas, apaixonei-me pela primeira vez.

- Mas teve outras namoradas - entra na conversa Delia.

- Tive, mas não me apaixonei. Só por você, que me agüenta há quase 50 anos.

Tiveram três filhos - um rapaz, diretor do museu de África de Cuba, uma moça, economista e professora da escola de quadros políticos do Partido Comunista, e outra, professora de esporte e lazer para a terceira idade. A vida continua ativa para Granado, apesar de um enfarte, há dois anos ("Já me esqueci"), e da bengala.

- Rompi os meniscos dos joelhos jogando futebol e rúgbi. Operei, mas os problemas vão se acumulando. De qualquer forma, uso a bengala para ter mais conforto, mais segurança.

Às segundas, quartas e sextas, ele faz ginástica com a filha. Às terças, quintas e sábados, passa uma hora na praia. Domingo é dia de golfe. Diariamente, caminha uma hora, dedica pelo menos quatro à leitura e três para a escrita.

- Conta para ele que sou eu que leva seu café - intervém Delia.

- É o machismo argentino - desculpa-se ele.

O casal ficou menos de cinco anos na Venezuela.

- Tinha uma cátedra, um laboratório, uma casa na praia, outra nas montanhas. Tinha ganhado muito dinheiro em pouco tempo. Mas, com o triunfo da revolução cubana, larguei o conforto e fui para Cuba.

Lá inaugurou o centro de genética e ajudou a fundar a escola de medicina de Santiago de Cuba. Ao contrário de intelectuais como José Saramago, que romperam com o regime de Fidel Castro depois da execução de dissidentes, Granado conserva-se um entusiasta da revolução.

- Continuo firme.

Especialista em genética molecular, aposentou-se em 1994 e costuma viajar pelo mundo fazendo palestras sobre o amigo. Fala do Che médico, do Che esportista, do Che ideólogo.

- Quem conhece Che melhor do que eu? Muito pouca gente, porque acompanhei sua evolução. Minhas palestras têm sempre um fundo político. Por exemplo, quando falo dele como esportista, digo como superava a asma, mostrando a tenacidade e a resistência que seriam vistas mais tarde na vida política.

A idéia da cruzar o continente partiu de Granado.

- Todo mundo queria ir comigo, porque eu falava sempre da viagem. No fim das contas, acabou indo o melhor. Nunca pensamos que íamos fazer História. Quer dizer, na verdade a História é ele. Se eu tivesse ido com outra pessoa, teria sido apenas uma viagem a mais.

A admiração por Che transparece em cada frase.

- Fui o amigo que mais gostou dele. Conheci-o quando ele tinha 14 anos. Sempre o admirei por sua integridade, por sua luta contra a asma, por seu esforço para quebrar a hegemonia do capitalismo.

Granado se sente um pouco desconfortável quando o foco da entrevista cai sobre si. Ele minimiza seu papel na formação do futuro Che e diz que pode ter contribuído com um conceito ou uma idéia. A noite chega, ele teve um dia cansativo, deu entrevista para o "Fantástico", caminhou algumas quadras até um restaurante, mas está bem-disposto e se anima ao retomar as lembranças sobre o líder revolucionário.

- Em seu diário, ele disse que sentia muito a minha falta, mas é difícil para mim dizer que tive alguma importância - conta. - Não me interessa que falem de mim, e sim que sigam o exemplo de Che.


Comente aqui:

Quinta-feira, Abril 15, 2004

Reportagem sobre o novo filme de Walter Salles

Apenas um rapaz latino-americano - Filme de Walter Salles mostra Ernesto Guevara aos 23 anos, antes de se tornar Che, em viagem pelo continente

Passava pouco das 10h e o pequeno grupo reunido no Espaço Unibanco disfarçava a ansiedade em bate-papos amenos. Em poucos minutos, seria exibido pela primeira vez no Brasil o aguardado "Diários de motocicleta", de Walter Salles, que estréia dia 7 de maio. A sessão tinha sido marcada para que a equipe brasileira que participou das filmagens e alguns convidados conhecessem o resultado de quatro anos de trabalho. Durante os 130 minutos seguintes, os espectadores travariam contato com um continente ao mesmo tempo próximo e desconhecido, familiar e ignorado: a América Latina. Como disse um convidado:

- Do meio para o fim, comecei a chorar calmamente. Pelo orgulho de me sentir latino-americano, mas também pela vergonha de não me sentir mais latino-americano.

Che ainda era só Ernesto Guevara e estava longe de virar um ícone da cultura pop quando decidiu, ao lado do amigo Alberto Granado, percorrer o continente em cima de uma velha moto, apelidada de "La poderosa". As andanças da dupla foram registradas pelo futuro guerrilheiro em seu relato "Notas de viaje" e por Granado em "Con el Che por Sudamérica", livros que serviram de base para o road movie de Salles, que é falado em espanhol, tem roteiro de José Rivera e montagem de Daniel Rezende (de "Cidade de Deus").

O público do Festival de Sundance aplaudiu de pé, a família de Che fez elogios calorosos, Granado aprovou, a crítica estrangeira definiu como "comovente", "extraordinário" e "emocionante" - e vendo as imagens na tela dá para entender tanto entusiasmo.

Che, vivido pelo mexicano Gael García Bernal, tinha 23 anos e estudava medicina quando começou a viagem. O bioquímico Granado, interpretado pelo argentino Rodrigo de la Serna (primo em segundo grau de Che, o que Salles só descobriu depois de escolhê-lo), tinha 29 e se definia como um "cientista vagabundo". Um dos maiores achados do filme é a forma como a paisagem externa e o mundo interior da dupla dialogam. No início de "Diários de motocicleta", quando eles exibem um completo desconhecimento da realidade latino-americana, o cenário é plano, feito de estradas retas. À medida que vão mergulhando no dia-a-dia dos países, a geografia passa a ser constituída de subidas e declives, ladeiras e vales.

- Mas os personagens centrais são transformados pelas pessoas que eles encontram, e não pela paisagem - diz Salles, de Nova York, onde finaliza as filmagens de "Dark water". - E a câmera procura acompanhar os personagens. À medida que eles vão entrando América Latina adentro, a narrativa também vai se tornando mais livre e desconstruída, mais improvisada.

"É um filme essencialmente sobre a transformação: dos personagens, do continente e talvez até de nós mesmos", definiu Geoffrey Gilmore, do Instituto Sundance.

- Todos nós que fizemos o filme fomos de uma forma ou de outra transformados por essa experiência, por esse processo de desvendamento - concorda Salles, que nas filmagens suportou temperaturas que variaram de muito abaixo de zero, nos Andes, a mais de 45 graus, na Amazônia. - Os que chegaram ao fim da viagem não foram os mesmos que partiram. Comecei me sentindo brasileiro, terminei me sentindo brasileiro e latino-americano.

A certa altura, Granado faz a autocrítica: "Nós conhecíamos tudo sobre a Europa, sobre a civilização grega, mas não conhecíamos nada da América Latina, não conhecíamos os mapuches, não sabíamos onde era Machu Picchu", diz, num mea culpa que é compartilhado pela platéia do filme.

Ernesto e Granado partem da Argentina em 1952, dispostos "a vagar sem rumo pela América". Na verdade, pretendiam percorrer oito mil quilômetros em oito meses. A moto é valente, mas não resiste aos obstáculos. Os dois são obrigados a pedir carona e viajam de caminhão, de barco, de avião, a pé. No caminho, chegam ao Leprosário de San Pablo, na Amazônia peruana. Ernesto cria atrito ao quebrar as regras da madre superiora. Os funcionários são obrigados a usar luvas, mas ele se recusa ao ouvir que, sob tratamento, a lepra não é contagiosa. "Então é simbólico, as luvas? Não vamos usar", diz, e em seguida aperta a mão dos leprosos, para incômodo das enfermeiras. Também se indigna com o rio que segrega os pacientes dos médicos. A colônia fica de um lado do Amazonas, enquanto as casas dos funcionários, do outro. No dia de seu 24º aniversário, ele cruza as águas a nado para comemorar a data com os doentes.

O espectador não vai encontrar um dos "ícones do século", como foi definido pela "Time Magazine", a figura que ilustra de camisetas a biquínis, ou o guerrilheiro que ajudou a derrubar o ditador Fulgêncio Batista. "Diários de motocicleta", como escreveu a "Variety", "relata com beleza refinada o despertar da consciência social de um líder revolucionário". É possível ver como a futura imagem mítica começar a tomar forma no jovem Che, que se revolta com a opressão, mas não age movido pelo rancor. De classe média alta, namorado de Chichina (Mía Maestro), ele amadurece ao longo da travessia, que de início é feita mais de farras, sexo e humor.

"Diários de motocicleta" é político, sem ser panfletário, contundente, sem perder a ternura. O olhar amoroso de Salles faz um brinde à riqueza de uma raça mestiça, busca as raízes de um continente vasto e variado, se solidariza com os desvalidos, como os indígenas sem teto em seu próprio território. No Deserto do Atacama, Ernesto conhece um casal obrigado a perambular em busca de emprego. "Foi uma das noites mais frias da minha vida, mas que me fez sentir mais perto da espécie humana", narra. Ao chegar a Machu Picchu, nota os contrastes entre a cidade inca e a capital peruana, Lima, e lamenta que a civilização que construiu a primeira tenha sido destruída pela civilização que construiu a segunda.

- "Diários" é uma viagem iniciática sobre dois jovens que partiram para uma aventura e acabaram encontrando uma realidade social e política que iria transformá-los para sempre - diz Salles. - Ernesto viveu e morreu por esse continente. E Granado é hoje um jovem de 83 anos que vive em Havana, e cuja vida também foi norteada pelo idealismo.

Comente aqui:

Segunda-feira, Abril 12, 2004

Reportagem sobre um duplo homicídio em Santa Teresa

Casaco emprestado teria causado duas mortes - Um motivo fútil e um crime brutal em Santa Teresa: o principal acusado vai a julgamento depois de amanhã

Thiago de Assis Almeida comemorou seu aniversário de 18 anos na casa de Pedro Peixoto. Pouco mais de 24 horas depois do brinde, assassinava o amigo, por conta de uma história que começou com um simples empréstimo de um casaco. A cantora Denise Teixeira, que estava com Peixoto na hora, foi morta para que não houvesse testemunhas. Esta é a versão que a cantora Ryta de Cássia, mãe do estudante, e o cantor Pedro Luís, irmão de Denise, querem ver provada na próxima terça-feira, quando começa, às 9h, o julgamento de Thiago.

- É brincar de Deus. É achar que se pode decidir se o outro vai viver ou não - lamenta o líder do grupo Pedro Luís e a Parede.

Sete jurados vão determinar se o rapaz é culpado ou, como alega, vítima de uma acusação injusta. O defensor público Antonio Carlos de Araújo prefere não antecipar a estratégia que vai usar no tribunal para provar a inocência de Thiago, mas observa:

- Ninguém assistiu ao fato. Não há testemunha presencial.

O crime ocupou largas fatias do noticiário em 2000 e depois caiu no esquecimento. No dia 26 de abril, os corpos de Peixoto, de 18 anos, e de Denise, de 37 anos, conhecida pelos amigos como Margot, eram encontrados no segundo andar da casa número 42 da Rua Murtinho Nobre, em Santa Teresa, onde Ryta morava com o então marido, o músico Carlos Fuchs. O casal estava em Nova Orleans (EUA). A cena impressionou até policiais e peritos: sentados em duas cadeiras, eles tinham as mãos amarradas para trás e os rostos encapuzados com fronhas de travesseiros. Peixoto morreu com quatro facadas no peito, próximas ao coração, e dois tiros, enquanto Margot levou três tiros na cabeça.

No dia seguinte, Peixoto foi enterrado no cemitério São João Batista. Ryta não teve forças para acompanhar o sepultamento de seu filho único. Quem estava lá, encabeçando o cortejo - à frente até da família - era Thiago. De cabeça baixa, aparentava ter perdido um amigo próximo, como contou à Justiça o pai de Peixoto, o publicitário Luiz Augusto.

- Thiago ajudou a pôr o caixão na urna funerária - revolta-se Pedro Luís, de 43 anos.

Thiago, morador de Botafogo, passava dias na casa de Peixoto, em Santa Teresa. Seu irmão estudara com Peixoto na escola particular Santo Alberto Magno, em Botafogo, o que aproximou os dois jovens. Ryta, de 49 anos, chegou a pedir, sem sucesso, que seu filho não acolhesse mais Thiago na casa.

- Eu estranhava porque ninguém da família perguntava por ele - conta Ryta, que desde o começo desconfiava do rapaz. - Certa vez, ficou uma semana lá em casa e só aí a mãe ligou perguntando se eu sabia onde seu filho estava. Pedro me explicou que ele não tinha um bom relacionamento com o pai e não podia ficar na casa da mãe, que se casara de novo. E disse: "Não vou deixar meu amigo na rua."

No início, a polícia imaginou que se tratasse de latrocínio - roubo seguido de morte, já que foram levados objetos como fax e videocassete - ou de uma ação de traficantes. Mas o depoimento da ex-namorada de Thiago, Ana Teresa, mudou o rumo das investigações. Quase um ano depois do crime, ela contou ao Ministério Público sobre um desentendimento entre Thiago e Peixoto. O rapaz teria dito que foi obrigado a "dar um jeito nele, matei eles". Ana disse mais. Afirmou que Peixoto considerava Thiago um irmão e revelou que o então namorado lhe pedira para dizer que estiveram juntos a noite toda. Segundo ela, Thiago ameaçou: "Caso contrário, você pagará muito caro."

Para entender o duplo homicídio que chocou a cidade em 2000, é preciso recuar cerca de dois meses antes do crime, quando Peixoto emprestou um casaco de náilon para o irmão de Thiago. O tempo passou e Peixoto começou a cobrar a devolução. O rapaz desconversava, até que um dia confessou ter perdido a roupa. Os dois fizeram um acordo: o jovem pagaria R$ 150 ao amigo e a história do casaco seria esquecida.

Segundo os advogados de Ryta, Nilo Batista e André Nascimento, o garoto, sem dinheiro para honrar a dívida, resolveu fazer uma entrega de maconha. Deu azar de ser pego pela polícia e, como era menor, foi para o Instituto Padre Severino, onde ficou em regime de liberdade assistida. A defesa diz que a droga era para consumo próprio.

Para Batista, começava aí a tragédia: revoltado com a prisão do irmão, Thiago teria resolvido se vingar, com a ajuda de dois cúmplices - um rapaz do condomínio Morada do Sol e um jovem, morador do Flamengo, já morto.

- Foi um crime brutal e gratuito. Pedro morreu por causa de uma dívida de R$ 150 e Margot, como "queima de arquivo" - diz Pedro Luís.

Thiago nega todas as acusações. Em depoimento à polícia, disse que Peixoto era usuário de drogas e, mais tarde, traficante. Falou também que ouviu certa vez o amigo dizer que estava "fechado" com uma facção criminosa. Na casa de Ryta, havia uma inscrição em batom com a sigla de outra facção criminosa. Para ele, a morte do amigo tem a ver com o tráfico de drogas.

- Está nos autos: todos usavam entorpecentes, não há como negar isto - diz Araújo, de 40 anos, da 1ª Defensoria Pública do IV Tribunal do Júri.

Na madrugada do crime, Thiago foi detido enrolando um "baseado" na praia. A acusação diz que ele provocou a prisão, na tentativa de arrumar um álibi para aquela noite.

- Um policial civil disse que, se ele não fosse pego por causa da maconha, ia arrumar algum outro pretexto, como dar uma bofetada na cara de um policial para ser preso - diz André Nascimento.

Após o testemunho de Ana Teresa, Thiago foi preso. Como estava servindo ao Exército, ficou detido em unidades militares. Em 2001, o soldado do Exército fugiu do quartel. Recapturado em 2002, hoje está em Bangu III, à espera do julgamento. Seu advogado renunciou ao caso.

- A família não teve condições de pagar outro advogado - diz Araújo.

Apesar da experiência - em dez anos já fez mais de 500 júris - ele assumiu o caso somente no fim do ano passado, três anos e meio após o crime.

- Uma das testemunhas não reconheceu Thiago como uma das pessoas que estiveram no local - diz.

Depois da morte do filho, Ryta teve que refazer a vida. A começar pelo próprio nome. Rita Peixoto deu lugar a Ryta de Cássia.

- Procurei uma numeróloga e passei a usar o y e o nome do meio. Mudei porque queria seguir minha carreira sem esse peso. Não queria virar uma curiosidade, uma atração, ficar estigmatizada como a mãe que perdeu a amiga e o filho - diz ela, que está procurando repertório para seu quarto CD e ensaia no meio do ano um musical dirigido por Miguel Fallabela.

Ela ainda não consegue ouvir detalhes dos homicídios.

- Posso sair da sala um minutinho? - pede, na hora em que Nilo Batista começa a descrever as mortes.

Após o crime, a casa de Ryta passou a abrigar às segundas-feiras encontros entre amigos dela e de Pedro Luís. Mais tarde, a cantora se mudou. No primeiro ano, as reuniões eram semanais, o que voltou a acontecer de dois meses para cá.

- Depois que cometeram os assassinatos, eles beberam tudo do bar da casa, numa forma de celebrar o macabro - diz o cantor, que lança na quarta-feira um CD do grupo em parceria com Ney Matogrosso, "Vagabundo". - Passamos a nos reunir aqui como uma forma de neutralizar essa celebração do sinistro, trazer uma energia mais positiva, cantar e pensar em como conduzir o caso na Justiça.

O grupo de 22 amigos - entre eles os músicos Paulo Brandão, Paulo Baiano, Mathilda Kóvak e Suely Mesquita - ganhou o nome de C¿Oração e chegou a cogitar a gravação de um disco e a criação de uma ONG. Na terça-feira, eles farão uma manifestação na porta do Fórum. Vestidos com camisetas onde se lê "Justiça por Pedro e Margot", cantarão a música "Ciranda do mundo", de Eduardo Krieger, que já foi gravada por Ryta e por Pedro Luís. Diz a letra: "Ciranda que vai, ô/Ciranda que vem/Roda na ciranda que é pro Mal virar pro Bem."

- Outro dia vi Oscar Niemeyer dizer: "Sou do tempo em que se indignar era bom" - diz Ryta, impressionada com as muitas pessoas que tiveram medo de testemunhar.

- A gente tem que recuperar a indignação, senão vai assistir ao caos - completa Pedro Luís.
Comente aqui:
Reportagem sobre o filme "Soy Cuba"

Brasileiro finaliza documentário sobre a saga do filme que ficou desaparecido por 30 anos, tornou-se conhecido como a película maldita e foi redescoberto por Coppola e Scorsese

O russo Alexander Calzatti, mais conhecido como Sasha, estava em sua casa em Los Angeles quando ouviu da mulher:

- Ligação para você. É um sujeito de Nova York.

Do outro lado da linha, o desconhecido se apresentou:

- Meu nome é Martin Scorsese. Sou diretor de cinema. Só me diz uma coisa para eu poder morrer tranqüilo como cineasta: como foi feito o plano do enterro?

Scorsese implorava por detalhes da cena mais impactante de "Soy Cuba", co-produção soviética-cubana rodada nos anos 60. Sasha, que hoje faz videoclipes de grupos como Backstreet Boys e foi assistente e operador de câmera do filme, tripudiou sobre o diretor de "Gangues de Nova York":

- Não vou contar, não, porque não quero que você morra tão cedo - disse ele, que acabou se tornando amigo do americano.

"Soy Cuba" - "Ya Kuba", em russo, "I am Cuba", em inglês, e "Eu sou Cuba", em português - já está disponível em vídeo e DVD no Brasil, mas sua chegada ao mercado foi tão tumultuada que o filme ficou conhecido como a "película maldita".

- Há três experiências trágicas, de diretores estrangeiros, que foram fundamentais no cinema latino-americano: "Que viva México!" (obra inacabada do soviético Sergei Eisenstein), "It's all true" (trabalho igualmente inconcluso do americano Orson Welles) e "Soy Cuba" - diz o carioca Vicente Ferraz, de 39 anos, que está finalizando um documentário sobre a trajetória do filme.

É daquelas histórias tão impressionantes que mais parecem restritas ao terreno da ficção. Ela começa em 1961, quando o diretor soviético Mikhail Kalatozov desembarca em Cuba. Premiado com a Palma de Ouro em Cannes, em 1958, por "Quando voam as cegonhas", ele chega à ilha com a incumbência de mostrar ao mundo a revolução cubana. Ou seja, fazer um filme de ficção que servisse de peça de propaganda do regime de Fidel Castro, que tinha apoio do governo da União Soviética. Kalatozov não era o único estrangeiro por ali. Após a queda do ditador Fulgêncio Batista, em 1959, Cuba se tornara um eldorado para o cinema. Todos queriam filmar a revolução, do francês Jean-Luc Goddard ao polonês Andrzej Wadja e à belga Agnés Varda. Mas poucos ficaram no Caribe após a crise dos mísseis com os Estados Unidos, em 1962.

Kalatozov ficou. Durante 14 meses, filmou em Cuba, com uma equipe de quase 200 pessoas. Tinha carta branca para fazer o que quisesse. Chegou a mudar o curso de um rio por causa de um plano. Em outro momento, requisitou cinco mil soldados - algo impensável num país pequeno, que enfrentava o bloqueio americano e tinha que defender suas fronteiras. O caso foi parar em Raul Castro, irmão de Fidel, que autorizou o pedido.

Mas Kalatozov insistia na grandiosidade porque tinha certeza de que estava realizando algo histórico.

- Ele acreditava estar fazendo um filme único, um épico, uma epopéia que iria divulgar a revolução em salas de cinema e festivais do mundo todo. Dizia: "Vai ser a minha resposta e a do povo soviético às agressões do imperialismo americano" - conta Ferraz.

Em 1964, "Soy Cuba" estreou simultaneamente em Cuba e na União Soviética, cercado de imensa expectativa. Uma semana depois saía de cartaz. O filme foi execrado nos dois países, para desgosto de Kalatozov. Os cubanos acharam que era a visão folclórica de um estrangeiro sobre sua realidade. Um jornal escreveu: "No 'Soy Cuba'." Os soviéticos, por sua vez, implicaram com as imagens pré-revolucionárias.

- O filme mostrava as reminiscências do capitalismo, o que incomodou às autoridades - explica Ferraz.

As audácias formais e os planos inovadores também contribuíram para a rejeição do público e da crítica. Como resultado, "Soy Cuba" foi arquivado e permaneceu desconhecido por 30 anos. A redescoberta começou nos anos 90, quando foi feita uma retrospectiva da obra de Kalatozov em sua terra natal, a Geórgia. Alguém levou uma cópia para São Francisco e "Soy Cuba" tornou-se cult em pequenos círculos americanos. Até que Francis Ford Coppola e Scorsese assistiram ao filme. Deslumbrados, foram a Moscou e iniciaram um movimento para restaurar "Soy Cuba" e exibi-lo comercialmente.

Em 1995, finalmente, ele estreava nos cinemas americanos. Os críticos não economizaram nos adjetivos: "Irresistível", "excelente", "estupendo", "fabuloso", "espetacular", "obra-prima".

- A ironia é que ele é redescoberto nos Estados Unidos exatamente no pior período da história da revolução cubana. O Ocidente é apresentado àquelas imagens cheias de utopia, àquela explosão de euforia, no momento em que, na vida real, todos os sonhos estavam se corroendo - observa Ferraz, na sala de montagem da produtora Urca Filmes, onde trabalha na finalização do documentário. - E ele tinha como principal objetivo ser uma poderosa arma de propaganda contra o imperialismo, mas foi recuperado justamente pelos americanos.

O prestígio de "Soy Cuba", que foi classificado como "tesouro oculto" por Scorsese, não pára de crescer. Foi exibido no Festival de Cannes, em 2003, ficou quase um ano em cartaz na França e por onde passa deixa um rastro de admiradores.

Ferraz foi um deles. O diretor conheceu o filme no fim dos anos 80, quando estudou na escola de cinema de Cuba. Ficou "assombrado" e, em 2001, decidiu registrar a saga de "Soy Cuba". Junto com a mulher, a produtora costa-riquenha Isabel Martinez, entrevistou do mais humilde maquinista que participou das filmagens ao mais graduado funcionário do cinema cubano. Entre eles, o ator Sergio Corrieri, que mais tarde fez o clássico "Memórias do subdesenvolvimento", de Tomás Gutiérrez Alea. Donos da produtora Três Mundos, Ferraz e Isabel pretendem lançar o longa-metragem ainda em 2004, para comemorar os 40 anos de "Soy Cuba".

A idéia é, junto com o lançamento no Brasil, chamar alguns dos atores e fazer a primeira exibição pública do filme de Kalatozov na América Latina (só passou em Cuba). O documentário de Ferraz, que foi selecionado para o Festival de Amsterdã, em novembro, vai se chamar "Soy Cuba, o mamute siberiano", numa referência a um comentário do crítico americano J. Hoberman, que escreveu: "Há fósseis cinematográficos que os cinepaleontólogos buscam e fósseis cinematográficos que aparecem de modo simplesmente milagroso. 'Soy Cuba' está entre estes últimos, já que foi um encontro tão inesperado como o de um mamute lanoso siberiano preservado nas areias de uma ilha tropical."

Ousadia estética é maior trunfo do filme - 'Soy Cuba' impressiona pela fotografia e pelos movimentos de câmera delirantes

Quase todo filmado com câmera na mão, em grande angular, com poucos diálogos e longos planos-seqüências, "Soy Cuba", que tem roteiro do poeta russo Yevgeny Evtuchenko e do cineasta cubano Enrique Piñeda Barnet, divide-se em quatro episódios. O primeiro mostra uma mulher que se prostitui com turistas americanos sem que o noivo saiba. O segundo traz um cortador de cana analfabeto que é enganado e vende suas terras a preço de banana para uma multinacional americana.

A terceira parte focaliza um jovem revolucionário encarregado de matar um policial da ditadura de Batista. Ele hesita na hora H, indecisão esta que lhe custará caro mais tarde. O episódio final exibe um camponês que decide entrar na luta armada quando seu filho é assassinado. O filme de Mikhail Kalatozov, que morreu em 1973, termina com a vitória de Fidel Castro.

Mais do que a mensagem política - tratava-se de uma peça de propaganda - o que chama a atenção é a fotografia em preto-e-branco de Sergei Urushevski, os movimentos de câmera delirantes e a ousadia das cenas - o plano do enterro de um jovem revolucionário, que tanto impressionou Martin Scorsese, foi eleito um dos 20 melhores da História por críticos franceses.

O curioso é que os cubanos só souberam que "Soy Cuba" tinha se tornado um sucesso quando foram procurados por Vicente Ferraz para o documentário, que tem como produtores associados a Raccord e a Urca Filmes e patrocínio para distribuição da Petrobras. A distribuição é da Riofilme. Durante as entrevistas, espantaram-se e se emocionaram ao ver a capa da fita de vídeo. Um dos atores chegou a dizer: "Por que você quer fazer um filme sobre ele? É uma porcaria."

- O documentário não é apenas um making of. Mostra como a história trágica de um filme acaba se confundindo com a própria história contemporânea de Cuba.

Comente aqui:

Terça-feira, Abril 06, 2004

Reportagem com Chico Buarque

Chico, um tom acima da alegria - Cantor assiste à pré-estréia de 'Benjamim' e aplaude a adaptação de Monique Gardenberg para seu livro

Chico Buarque não é de dançar, mas às 3h20m da manhã de ontem ainda restava fôlego ao compositor para evoluir na pista ao som de Prince, Pretenders e B'52s. Ao seu lado, a diretora Monique Gardenberg estampava um sorriso de alívio. Na véspera, ansiosa, ela tinha acordado às 3h e ficara cantando "A banda" e "Roda viva", duas músicas que marcaram sua vida. O nervosismo tinha sua razão de ser: Chico assistiria naquele dia, pela primeira vez, ao filme baseado em seu livro "Benjamim", que estréia amanhã em 25 salas no país.

Anteontem à noite, em São Paulo, Chico viu, enfim, o resultado de cinco anos de trabalho, tempo gasto por Monique para levar às telas a história de um ex-modelo fotográfico, atormentado pela culpa, que conhece uma jovem de espantosa semelhança com seu antigo amor. O compositor se disse emocionado com o resultado.

- O filme é um tom acima de emoção em relação ao livro - comparou ele ao GLOBO, na festa em comemoração à pré-estréia de "Benjamim".

De fato, o personagem do livro é mais contido, enquanto o Benjamim vivido por Paulo José não economiza nas lágrimas. Ao longo da noite, Chico e Monique comentaram as diferenças entre as duas obras.

- Meu Benjamim não chora, não, Monique. Seu filme é feminino. "Benjamim" é um livro de macho, você sabe - brincou ele, que desenhou lágrimas nas páginas do roteiro onde está escrito que o personagem chora.

- Sequei várias lágrimas, mas quando Paulo José veio fazer o papel, voltou a inundar. "Benjamim" é acima de tudo a busca de um amor que a gente perdeu. E cada um sente de uma maneira a perda - disse ela, que dedica o filme à irmã Sylvia, morta em 1998.

Chico disse que ficou "mexidíssimo" com algumas cenas, como a que mostra o jogo de olhares entre os personagens de Paulo José e Cléo Pires, ao som de Wando, e a seqüência que traz o solitário Benjamim esperando inutilmente pela jovem no ponto de ônibus. Na tela, Monique optou por encaixar todas as peças do quebra-cabeça criado por Chico.

- O filme é mais direto, entrega mais, e não poderia ser diferente, senão você não consegue contar a história. O livro tem mais cera - concordou o compositor.

A idéia era essa mesma. Logo no começo, o gaúcho Jorge Furtado, um dos roteiristas, ao lado de Glênio Póvoas e da própria Monique, perguntara à diretora: "Tu queres fazer um filme para passar na sessão das 16h do Festival de Locarno ou uma história com começo, meio e fim?".

Chico falou de sua ansiedade, observando:

- Vim muito preocupado, mas depois comecei a assistir como se fosse independente do livro. Monique não foi fiel, mas também não é casada com ele. E chega uma hora em que "Benjamim" cria asas mesmo.

- Ele deu à luz a toda essa gente, mas mostrou muito desapego - completou Monique. - Somente apontava a coerência ou a incoerência de cada diálogo adicionado.

Durante a preparação do roteiro, Chico pediu a ela: "Afaste-se um pouco do livro, senão o filme fica literário."

Antes da sessão, no saguão do hotel, Chico encontrou Cléo Pires e perguntou à atriz principal do filme:

- Você leu o livro?

- Não - respondeu, sincera. - E você, viu o filme?

- Não.

- Então enquanto você vê o filme eu leio o livro - brincou a atriz.

Para o compositor, Cléo Pires - que vive duas personagens, Castana Beatriz, e sua filha, Ariela Masé - e Paulo José "dão um show".

Chico estava tão à vontade que, na festa em homenagem a Monique, arriscou-se várias vezes na pista de dança. Ele mesmo ironizou sua performance como dançarino:

- As mulheres ficam loucas com a minha coreografia.

Na verdade, as mulheres não estão nem aí para sua falta de jeito. Bastava ele pôr os pés na pista que era cercado por uma multidão feminina. Algumas ficavam poucos instantes, o suficiente para dizerem depois às amigas: "Dancei com Chico Buarque." Mas bastava tirar os pés da pista que era também cercado por elas.

- Você é Deus - derramou-se uma.

Cléo pediu um cigarro a ele e fez trocadilho:

- Chico, me arruma um Charm? Você é o rei do Charm...

O Chico brincalhão se manifestou durante a festa, que reuniu de Fernanda Lima e Helena Ignez a Vera Zimmerman e Gero Camilo:

- São impressionantes os garçons das festas em São Paulo. Eles são muito mais bonitos que os convidados, são mais bonitos que a gente!

Antes, no caminho para o filme, contava bem-humorado sobre perguntas que já teve que ouvir.

- Chegaram a me perguntar se a Silvinha (Silvia Buarque, filha mais velha dele e de Marieta Severo) era filha de Chico e Caetano - ri.

Na sessão, Chico foi engolfado por uma multidão de fotógrafos, jornalistas e fãs, que ia arrastando pelo caminho cartazes e displays do filme.

- Suas músicas me deixam louca - gritava uma senhora fora de si.

O empurra-empurra era tanto que ele refugiou-se no banheiro. Mas pediu depois que os seguranças se afastassem, para não atrapalhar o trabalho da imprensa.

- Chico, olha para o careca - implorou um fotógrafo, tentando se destacar entre as dezenas de colegas que se acotovelavam para conseguir uma imagem do compositor.

Foi uma histeria digna de um popstar, que surpreendeu o próprio Chico, acostumado a caminhar diariamente pelo calçadão carioca, sem interrupções. Prevendo o assédio, Monique pedira de brincadeira que fosse a São Paulo, em vez de assistir à pré-estréia carioca de "Benjamim":

- No Rio, não preciso de você, tem a Juliana Paes. Ela já dá visibilidade ao evento - brincou a diretora.
Comente aqui:
Perfil de Fernanda Torres

Nanda, mulher de 20, de 40 e de 60 - Fernanda Torres vive uma sexagenária libertina que repassa sua vida sexual

Não é porque a personagem é devassa que Fernanda Torres mostra o corpinho - modelado por quatro sessões semanais de ioga - em cena.

- Passei os últimos três anos ganhando a vida de calcinha e sutiã. Agora chega - brinca a atriz, referindo-se à Vani do seriado "Os normais", que circulava tanto tempo em roupas de baixo que motivou o lançamento de uma linha de lingerie.

Fernanda passa os cem minutos da peça "A casa dos budas ditosos" vestida da cabeça aos pés, com peruca acaju, maquiagem carregada e vestido estampado. Afinal, a mulher que ela interpreta é libertina, mas está com 68 anos e se aposentou das estripulias sexuais. No espetáculo, dirigido por Domingos Oliveira e baseado no romance de João Ubaldo Ribeiro, ela não se acanha em falar, com sotaque baiano, de incesto, sexo grupal, sexo anal e demais variações sobre o tema.

- A escrita do Ubaldo é feroz. Mistura o chulo e o erudito, o sagrado e o profano. Você ouve coisas que o excitam, mas que ao mesmo tempo o emocionam e o fazem refletir sobre sua vida sexual. Domingos não quis chocar.

São raras as cenas como a da senhora que saiu da peça em São Paulo dizendo que era uma pouca-vergonha.

- Ela olhava o relógio, dormia e quando foi embora disse: "Eu excomungo esse teatro!". Mas ficou até o fim - ironiza Fernanda, enquanto tenta convencer o filho Joaquim, de 4 anos, a ir para o colégio. - Tem que ir, vovó Fernanda (Montenegro) não aliviou isso para mim.

Joaquim está mais interessado em arremessar, com seu estilingue, grãos de feijão e tampas de caneta pela casa. Na hora em que mira o Buda de madeira que enfeita a sala do apartamento onde mora na Lagoa, a atriz intervém, com um misto de suavidade e firmeza:

- Não atira no Buda que ele vai tirando as agressões do caminho.

A menina rechonchuda da adolescência, chamada de Nanda pelos amigos, transformou-se numa mulher esguia que, na hora da sessão de fotos, sobe com desenvoltura uma parede de escalada, erguida na sala para Joaquim. Fernanda pontua a entrevista com altas doses de bom humor:

- Sabe que me pedem muito para cantar? Outro dia um cara pediu: "Canta, Marisa, canta!" Acham que eu sou a Marisa Monte! Quem dera, né?

Em "A casa dos budas ditosos", que estréia sexta-feira, no Centro Cultural Correios, Fernanda quase cantou. Por sugestão da amiga Daniela Thomas, que assina a direção de arte do espetáculo, assistiu a um especial que Antonio Abujamra dirigiu para a TVE com Maysa.

- Virou minha "Bíblia". No programa, ela canta, bebe, discute com o Abu. É rebelde, inteligente, tem atitude. Sempre quis fazer Maysa e, de certa forma, estou fazendo algo dela agora.

A atriz teve que adicionar um elemento a mais no figurino.

- A personagem teve muito peito na vida. Então, uso um sutiã com enchimento de silicone. Pedi a mesma milimetragem do Rodrigo Santoro em "Carandiru" - diverte-se, citando o travesti interpretado pelo ator no filme. - Estou ficando com problema na coluna, mas dá uma volúpia este peito...

Fernanda tomou um susto quando foi convidada por Domingos para o papel de uma mulher de 68 anos.

- Pensei: "Por que minha mãe não está fazendo este personagem no meu lugar?".

Mas como a personagem narra suas aventuras desde a adolescência ele achou por bem convidar a atriz de 38 anos.

- Ele explicou que a mulher de 40 tanto tem 20 como 60 anos - diz.

O diretor dá sua versão para a nova dobradinha com a atriz - Domingos foi responsável pela estréia de Fernanda na TV, aos 13 anos, no especial "Queridos fantásticos sábados".

- Ela é jovem ainda, mas tem muita vivência. Já ganhou prêmio (como melhor atriz do Festival de Cannes por "Eu sei que vou te amar"), tem filho, passou por vários casamentos, não deve nada a ninguém e não ia achar que pegava mal interpretar uma senhora libidinosa.

Ao escolher Fernanda como atriz de "Eu sei que vou te amar", após uma bateria de testes, Arnaldo Jabor justificou: "Ela tem um jeito neurótico e uma pureza muito grande". A neurose pode ser vista na Vani. Mas a pureza passa longe da personagem atual. Fernanda pensou em contratar um casal de sexo explícito para pôr no palco. Também quis começar a peça com o número de Conga, a Mulher-Gorila, que adora.

- Eu só tinha idéia ruim - faz troça consigo mesma.

Empolga-se ao dizer que Caetano Veloso aplaudiu a peça.

- Quando acabou, ele foi no camarim e eu estava no banho. Ele brincou: "Isso é uma contradição. Como você acaba este espetáculo e toma banho de porta fechada?".

Caetano disse mais: "Eu chorei duas vezes e fiquei excitado duas vezes" - não exatamente com estas palavras, mas são as que dá para publicar no jornal.

Na agenda de Fernanda não sobra muito espaço vazio. Em outubro, filma "Os normais 2". Antes, em junho, vai para os Lençóis Maranhenses rodar "Casa de areia", dirigido pelo marido, Andrucha Waddington, com participação de sua mãe, Fernanda Montenegro.

- Andrucha é um louco. Vai pegar a mulher e a sogra e botar para esquentar no sol do Nordeste!

Não é o único trabalho em família. Ano passado, fez uma participação em "Redentor", que tem direção do irmão, Cláudio Torres, e elenco que inclui a mãe e o pai, Fernando Torres. O filme deve ser lançado em setembro e o roteiro é da própria Fernanda, de Cláudio e de Elena Soares.

- É o maior nepotismo. Se eu fosse deputada, ia ter CPI e eu ia presa: "O escândalo dos Montenegro, Torres e Waddington" - brinca.

Há um mês, o roteiro de "Casa de areia" ganhou o Prêmio Sundance/NHK.

- Ao entregar o prêmio, o japonês da emissora de TV NHK falou para o Andrucha: "Você tem certeza de que é isso mesmo? Com a mulher e a sogra? É muito perigoso, vai que dá problema e o filme não sai". Ele achou que pudesse dar briga porque é feito em família - ri.

Aos 14 anos, a estréia - Peça é a décima numa carreira marcada por parcerias com Gerald Thomas e a mãe

Quando soube que seu livro "A casa dos budas ditosos" ia virar peça, João Ubaldo Ribeiro disse para Fernanda Torres e Domingos Oliveira que eles estavam malucos.

- Fui num ensaio só para uns três gatos-pingados. Gostei, mas ainda fiquei com receio sobre em que aquilo ia dar. Veio a estréia em São Paulo, chamaram-me e fiquei deslumbrado com o que vi. Acho que Fernanda e Domingos fizeram um espetáculo magnífico.

A peça chega ao Rio depois de lotar os teatros de São Paulo e Brasília. O monólogo rendeu a Fernanda uma indicação ao prêmio Shell em São Paulo. A atriz conseguiu apoio e patrocínio da Embratel, do Centro Cultural Correios e do CCBB, mas se surpreendeu com o não que levou de todas as empresas de aviação.

- Achei que ia ser fácil conseguir as passagens aéreas. É só um ator em cena. Não estávamos entendendo, até que alguém falou para a Carmen (Mello, produtora da peça): "Acorda. No fim, tem uma aeromoça sapatona e cheiradona chamada Marina. Você acha que alguma empresa aérea vai querer associar sua imagem ao espetáculo?". A peregrinação da Carmen terminou ali.

É o 10º espetáculo da carreira profissional de Fernanda, iniciada com "Pequenos burgueses", em 1980. Antes, fez Tablado, onde conheceu Sura Berditchevsky, Louise Cardoso e Carlos Wilson, o Damião. A parceria com Gerald Thomas rendeu "The flash and crash days" - em que contracenou pela primeira vez com a mãe, Fernanda Montenegro - "O império das meias verdades" e "Don Juan". Do primeiro, ela guarda excelentes lembranças. Dos dois últimos, nem tanto.

Boas e más recordações do palco

PEQUENOS BURGUESES (1980): "Fui chamada para participar pelo Jonas Bloch. Saí em um mês. Eu estudava e acabei desistindo. Tinha apenas 14 anos, ficava com tanto sono de manhã na hora de ir para a escola que optei pelo estudo e pedi substituição."

REI LEAR (1984): "Foi inesquecível. O elenco tinha Ney Latorraca, Sérgio Britto, Paulo Goulart, Yara Amaral, José Mayer, Ary Fontoura, Ítalo Rossi... Eu era de uma irresponsabilidade... Fazia a Cordélia, entrava na primeira cena e só voltava no fim. Era no Clara Nunes e, nesse meio tempo, ia jogar pinball no Shopping da Gávea. Também ia em casa jantar. Morava na Lagoa, tinha acabado de casar com o Pedro Bial, estava apaixonadíssima. Eles tiveram muita paciência comigo. Cordélia morta e eu rindo em cena. Não estava preparada para o teatro."

ORLANDO (1989): "Foi adorável. Comecei a fazer teatro de fato. Foi a minha fundação como atriz de teatro. Ensaiamos seis meses no Sesc Tijuca. Tenho saudades até hoje. O elenco tinha Cláudia Abreu, Julia Lemmertz, Betty Gofman, Otávio Muller.... Era meu ginásio teatral. A encenação era bem Bia Lessa, chovia terra, caía cadeira. Fiz minha primeira turnê pelo Brasil, fui a teatros, como o Guaíra e o Castro Alves, em que eu tinha ido antes como filha, acompanhando minha mãe, e que agora ia como atriz."

THE FLASH AND CRASH DAYS (1991): "Achava que o Gerald (Thomas) não gostava de mim. Ele me odiou em 'Orlando', mas me chamou para trabalhar com mamãe. Havia uma mística em torno do Gerald e eu tinha muita curiosidade de trabalhar com ele. No meio do ensaio veio com a história constrangedora de eu me masturbar na frente da minha mãe. Seguramos a onda e fizemos. Foi um barato, tenho um profundo carinho pela peça. Era a primeira vez que eu e ela trabalhávamos juntos. Demos muito humor à peça."

O IMPÉRIO DAS MEIAS VERDADES (1993): "Foi horrível, chatíssimo. Eu estava muito insegura, achava que estava mal. Ensaiamos em Nova York, ainda com o nome de 'Saints and clowns'. Estreou em um festival na Alemanha. Na véspera, tínhamos apresentado 'The flash and crash days' e o público aplaudiu de pé e bateu com o pé no chão. No dia seguinte, foi a vez de mostrarmos 'O império das meias verdades'. Foi a primeira - e única - grande vaia que eu recebi em alemão."

DON JUAN (1995): "Foi muito ruim. Estreou e eu pedi substituição. Vi que não ia mais render. Era o fim da minha participação na Ópera Seca. Percebi que não desejava a constância de uma companhia teatral, que não estava fadada a ser fiel a um grupo."

CINCO X COMÉDIA (1995): "Foi um bálsamo. Revi amigos que não via há anos. Eu era sempre uma espécie de cavaleira solitária, não participei do Manhas e Manias, do Asdrúbal Trouxe o Trombone. A peça rendeu parcerias incríveis, como a minha com o Luiz Fernando Guimarães em 'Os normais' e a dele com o Pedro Cardoso em 'Vida ao vivo'. Foi um luxo. Ao ver o Luiz Fernando e o Hamilton (Vaz Pereira) trabalhando na minha frente, tive a sensação de estar entrando finalmente no sagrado mundo da intimidade do Asdrúbal."

DA GAIVOTA (1998): "Tchecov me rondava havia quatro anos. Era o autor que mais lia em Nova York. Escolhi 'A gaivota' porque é peça por excelência de formação do ator. Não queria um encenador. Quase que por um favor, a Dani (Daniela Thomas) dirigiu a montagem, que se chamou 'Da gaivota'. Foi fundamental em termos de formação. 'The flash and crash days', que fiz com minha mãe, era teatro experimental, que eu tinha crescido fazendo e assistindo. Tive vontade de trabalhar no reino do teatro que ela domina, teatro do texto, da palavra."

DUAS MULHERES E UM CADÁVER (2000): "Achei maravilhoso ter uma autora da minha idade escrevendo e fazendo teatro, como a Patrícia Melo. Há muito mais gente escrevendo literatura e roteiro de cinema que teatro. Ficamos um ano vendo como crescer o texto, que era curto. Tenho muito orgulho de ter feito o primeiro texto dela e ter estabelecido uma relação de parceria com a Debi (Deborah Bloch). Ela ajuda a manter a qualidade durante a temporada. Sou mais preguiçosa, ela é mais caxias, não deixa o espetáculo desmontar." Comente aqui:
Reportagem sobre o ex-traficante João Guilherme Estrella

Memórias de um barão do pó - Ex-maior fornecedor de cocaína da Zona Sul, hoje produtor musical, conta como sobreviveu ao mundo das drogas

Na primeira vez em que foi pego pela polícia, nos anos 90, João Guilherme Estrella teve a sensação de que ia apanhar muito. Seguiu para a delegacia e comprou sua liberdade por 30 gramas de cocaína e 3.500 dólares. Os policiais não tocaram nele e até queimaram o termo de prisão na sua frente, num terreno baldio próximo à DP.

Na segunda vez, pensou:

- Agora já era.

O frio na barriga durou dez segundos e logo começou a negociação. Perdeu dois quilos de pó e 14 mil dólares - pouco, perto dos 50 mil que os policiais exigiram inicialmente para soltá-lo.

A partir daí, imaginou que nunca iria para a cadeia.

- O problema passa a não ser mais a prisão. E sim ter caixa para pagar na hora de dançar - conta ele, na varanda de sua casa, na Zona Sul do Rio.

Por isso, quando a Polícia Federal invadiu o apartamento onde estava em Copacabana e flagrou-o com seis quilos de cocaína pura que seriam enviados para a Holanda, ele achou no primeiro momento que daria para escapar. Mas não houve conversa. Estrella tinha se transformado no principal fornecedor de cocaína das altas-rodas da sociedade carioca e virara a "bola da vez". Terminava ali uma carreira que começara cinco anos antes, em 1990, como descreve o jornalista Guilherme Fiuza, colunista do site NoMínimo, no livro "Meu nome não é Johnny" (Editora Record).

Em junho de 2001, Fiuza propôs a Estrella que contasse sua história, da ascensão ao baronato da cocaína à prisão num manicômio judiciário. Ele consultou a família e o advogado, e topou o convite. Das 30 horas de entrevista, sai um relato impressionante e vertiginoso, que mostra os bastidores do tráfico de drogas no asfalto.

Filho de um alto executivo do extinto Banco Nacional, Estrella firmou-se como um traficante de primeira grandeza graças à qualidade do produto - não admitia misturas - aos bons contatos, à boa lábia e ao pagamento sempre em dia aos fornecedores - a droga vinha de um dos maiores laboratórios de refino de cocaína da América do Sul, situado em Rondonópolis (MT). Estrella passaria "a abocanhar sozinho volumes iguais ou superiores aos de uma boca de fumo inteira", narra o livro.

- O superintendente da Polícia Federal disse na época que a prisão de Estrella e de outros caras da rede tinha sido a operação mais bem-sucedida da PF em termos de desmontagem de uma conexão - conta Fiuza. - E o delegado Flávio Furtado, que o prendeu, diz que, naquele tempo, não havia ninguém maior do que ele operando na Zona Sul.

Estrella chegava a receptar, sozinho, 15 quilos de droga. Abastecia outros traficantes - figuras insuspeitas, como uma velhinha de Copacabana - enviava remessas para o exterior - por meio de parceiros como um violinista clássico alto, forte e pacato - e vendia para clientes VIPs, que iam do showbizz ao mercado financeiro.

Primo de Estrella - mas com quem não mantinha maiores contatos desde a adolescência - Fiuza interessou-se em fazer um retrato 3x4 de um personagem "fronteiriço":

- Ele tinha um pé no mundo-cão, já que estava ligado a uma conexão poderosa, mas não deixava de ser o gente fina da noite, amistoso, namorador, boêmio e carismático.

Depois de ficar preso na carceragem da PF e no manicômio judiciário, Estrella recebeu propostas para retomar o esquema. Recusou todas, largou o vício e agora, aos 42 anos, está mais interessado na gravação de seu primeiro disco, com músicas compostas na prisão.

Em entrevista ao GLOBO, ele conta suas prioridades:

- Quero tocar, cantar, ter um filho. E, junto com o Guilherme (Fiuza), fazer palestras em colégios e faculdades. A idéia é mostrar, para quem está dentro, que dá para sair. E, para quem está entrando, que pense melhor.


Por que você decidiu revelar seu passado como traficante?

JOÃO GUILHERME ESTRELLA: Quando cheguei ao manicômio, comecei a escrever um livro de ficção, uma espécie de Sidney Sheldon com Nelson Rodrigues. Já tem dois capítulos prontos e o esqueleto da história. Eu ia incluir a minha realidade no texto, mas o Guilherme (Fiuza) veio com a proposta e eu falei: "Topo". Sou muito impulsivo. Mas sempre tive vontade de contar a minha história e tinha a sensação de que ia acontecer um dia. Encontrei vários amigos a quem eu falei: "Olha, tô fazendo um livro aí. Tu tá lá." Falo assim meio de sacanagem. Eles dizem: "Porra, que é isso, cara!?". Brinco: "Se comporta, senão vou botar o seu nome lá." (risos)

Você traficava, como diz o livro, volumes colossais de droga. Em algum momento você parou e pensou: "Eu sou um bandido, o que estou fazendo é errado"?

ESTRELLA: Nunca me considerei um bandido. Nunca usei armas, nunca dedurei ninguém. Não havia esse link com fuzis, crianças, gente morrendo no meio da rua. Mas você sempre tenta se defender. Eu me via como alguém que estava lidando com adultos e que não forçava ninguém a nada. Eu não estava ali para me encher de culpas, e sim para me livrar delas. Eu não me arrependo do que fiz, mas não faria de novo.

Por que você se tornou traficante?

ESTRELLA: Foi uma união de várias coisas, como a busca pela liberdade a todo custo, a aventura, a grana que circula, o poder, o trabalho sem patrão. Eu aproveitei bastante, tirei muito prazer daquilo. Comecei usando, fui conhecendo pessoas, virou uma grande diversão e se transformou numa locomotiva em alta velocidade sem freio. O freio foi o bote da Polícia Federal.

Você circulava pelos lugares mais chiques do Rio. De uma hora para outra, passou a ter como companhia psicopatas. Como foi a mudança?

ESTRELLA: Você tem que usar o carisma e a cabeça para conquistar as pessoas. Afinal, no manicômio, ficava todo mundo solto no mesmo lugar. Você vê todo dia o sujeito que tocou fogo num circo na Praça Mauá e morreram não sei quantas pessoas, o serial killer que assassinou 13 crianças, o ex-traficante que serrava os membros de suas vítimas enquanto ainda estavam vivas, os caras que mataram a mulher ou os pais, a bandidagem que os advogados conseguem botar lá para pegar uma pena menor. Lá dentro eu tocava violão direto, fazia umas bagunças hilárias, aqueles loucos todos dançando. É muito doido como a gente tem a capacidade de se adaptar às circunstâncias. O manicômio é um lugar onde você acha que jamais vai sobreviver e meses depois se vê fazendo parte daquele universo.

Por que você preferia vender cocaína pura, em vez de misturar e lucrar mais?

ESTRELLA: Mas eu cobrava mais caro. Numa sexta-feira, empilhava dinheiro na mesa. Costumam dizer que é uma grana fácil, mas não é. Tem que lidar com uma multidão de viciados, pessoas te ligando às 3h da manhã. Tem o medo da polícia, o problema de guardar a droga, de embalar. Chega sexta-feira, o telefone não pára, você não consegue botar a roupa. Tem que tirar do gancho para poder se vestir.

O livro conta uma festa sua em que cada convidado ouvia: "Parabéns, tenho um presentinho pra você." E ganhava um papelote. Só na festa foram cem gramas distribuídas de graça. Você era um traficante de primeira grandeza. Ficou rico?

ESTRELLA: Era meu aniversário, eu estava ensaiando para tocar, queria me apresentar num lugar, então dei a festa. O dinheiro que eu ganhava era para curtir, não para acumular. Não respeitava muito esse dinheiro. Não era intenção viver disso. Mas é difícil falar: "Agora não vou mais fazer isso." Entra muita grana, o assédio é grande. Isso tudo vicia. É que nem o cigarro, que não é só trago. É a fumaça que sai, o gesto de segurar o cigarro...

Você negociava em estacionamento de supermercado, no Fórum...

ESTRELLA: Você procura esses lugares justamente porque são inesperados. Mas havia em tudo que é canto. Perto do Riocentro, de shopping. Era muito escancarado.

Por que você não voltou para o tráfico?

ESTRELLA: Ser preso é muito desagradável. Também não tive mais tesão. A prisão foi o muro que eu precisava bater para mudar de direção, dar uma guinada na vida. Sobreviver a tudo isso é como nascer de novo. E como tudo na minha cabeça era uma aventura, eu já tinha passado por todos os itens desse assunto.

Qual a solução para o tráfico?

ESTRELLA: O uso de drogas vem desde o começo dos tempos. Você pode acabar com o excesso de violência, sufocar o fornecimento de armas. Os caras estão ganhando rios de dinheiro nas fronteiras com o contrabando de armas.

Você é a favor da liberação de drogas?

ESTRELLA: Em tese, sim. Tem que ter coerência. O governo tem uma captação muito grande de dinheiro com álcool e cigarro, que são drogas pesadas. A descriminação do uso seria legal. Tive sorte de cair na mão de uma juíza (Marilena Soares) muito rigorosa num momento em que ela estava começando uma campanha para separar nas prisões o usuário dos bandidos.

Você não tem medo de morrer? No livro, você fala de polícia, de consumidores, de fornecedores, dos esquemas que rolam no meio carcerário.

ESTRELLA: Tivemos preocupação enorme de não ser livro denúncia. Mas preocupa um pouco pelo fato de ser esse assunto.

Você deu muita sorte. Poderia ter pego 30 anos, mas graças a uma juíza que apostou em você, a um excelente advogado, a erros na investigação e ao medo de uma testemunha sua pena ficou bem menor. Você achou a pena justa?

ESTRELLA: Eu sou suspeito para responder, mas o resultado do que veio depois foi justo. Inclusive a juíza comentou com um colega que eu era "a prova viva de que é viável recuperar as pessoas".

O que fez desde que saiu da prisão?

ESTRELLA:Tornei-me produtor musical. Produzi umas happy hours no Madureira Shopping, espetáculos de hip hop dos grupos Nocaute e Cabeça de Nego na Baixada Fluminense, o show do Branco Mello no Rock in Rio. Também produzi show do João Nogueira e sou produtor do Hyldon (de "Na rua, na chuva, na fazenda"). Há seis meses, com outros sócios, abri a produtora e gravadora Sele-Som. E estou gravando meu primeiro disco, com músicas que fiz no manicômio. Ele tem produção de Rodrigo Santos, baixista do Barão Vermelho, e Kadu Menezes, baterista do Kid Abelha, e participação de Sérgio Serra, do Ultraje a Rigor, e Paulinho, nas guitarras, Bruno Araújo, nos teclados, e Jorge Valadão, no violão. É um som pop, com referências de Neil Young, Bruce Springsteen, Beck. Já vamos jogar na rádio a música de trabalho, "Tempo time". Está mais do que na hora de recuperar o tempo perdido.

Comente aqui:

Página corrente