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Quarta-feira, Fevereiro 18, 2004
Reportagem sobre os 30 anos do Asdrúbal De volta àquela farra toda - Aniversário de 30 anos do Asdrúbal Trouxe o Trombone é celebrado em livros, DVD, exposição e festas Até meados dos anos 70, Asdrúbal Trouxe o Trombone era apenas um código entre a atriz Regina Casé e seu pai, Geraldo, um dos pioneiros da TV brasileira. Quando aparecia um chato numa reunião ou ele percebia que a festa estava caída, dizia para a filha: "Olha, o Asdrúbal trouxe o trombone." E os dois tratavam de sumir dali rapidinho. A partir de 1974, o que era somente uma senha em família passou a batizar um grupo teatral que seduzia espectadores do Brasil inteiro, como lembra Regina: "Nas viagens, a gente se sentia os Rolling Stones, os Beatles, multidões, cordões de isolamento, sessões extras." Luiz Fernando Guimarães, seu colega de elenco e de humor, tinha a mesma impressão: "As pessoas seguiam a gente pelo país. De repente, viramos uma banda de rock." Está fazendo 30 anos, não esta noite, mas no dia 1º de maio. As comemorações já começam na próxima sexta-feira, com o lançamento de "Trate-me leão" (Editora Objetiva), do diretor Hamilton Vaz Pereira, um dos criadores do grupo. O livro traz a versão integral da peça mais famosa do Asdrúbal, além de depoimentos do próprio Vaz Pereira, de Regina e de Guimarães. Depois, será a vez da íntegra de "Aquela coisa toda" e "A farra da Terra". Em abril, será lançado "Asdrúbal Trouxe o Trombone - Memórias de uma trupe solitária de comediantes que abalou os anos 70" (Aeroplano Editora), de Heloísa Buarque de Hollanda. Junto à obra, virá encartado em DVD o documentário "Xarabovalha", feito por Heloísa, que registrou em 1979 trechos da última apresentação de "Trate-me leão" no Teatro Ipanema, além de entrevistas com os integrantes da companhia. O livro de Vaz Pereira faz com que o leitor que viu a peça reavive lembranças de um espetáculo em que "o palco era uma extensão do cotidiano", como escreve Sílvia Fernandes em "Grupos teatrais - Anos 70". E permite a quem não assistiu conhecer um grupo que levava às últimas conseqüências a irreverência e a espontaneidade. Como diz Caetano Veloso na orelha do livro: "¿Trate-me leão¿ tornou-se um marco na dramaturgia brasileira. Poder ler o texto impresso agora é uma oportunidade de entrar na intimidade desse acontecimento." Na cena inicial de "Trate-me leão", duas irmãs aproveitam que os pais estão fora para dar uma festa. Toca a campainha, aparece um desconhecido e uma das moças cochicha à outra: "O primeiro convidado da festa é um penetra! Pô, aí, a noite começou mal." O público ia às gargalhadas com a interpretação de Patrícya Travassos, Nina de Pádua e Fábio Junqueira. Como também ria com o restante do espetáculo, que estreou com mais de quatro horas no dia 15 de abril de 1977 no Teatro Dulcina e depois foi encurtado para duas horas. A identificação era imediata. Pela primeira vez no palco, estavam as inquietações, os grilos - para usar um termo da época - as delícias e os anseios da geração de classe média carioca em torno dos 20 anos. Os "asdrúbals" recolhiam inspiração no dia-a-dia e traziam dúvidas no lugar de certezas, problemas cotidianos em vez de questionamentos políticos, intimidade com o espectador em substituição ao tradicional distanciamento entre palco e platéia. "Pra que eu fui me arrumar tão cedo? Patrícia, como eu faço pra sentar e não amassar o meu vestido novo?", perguntava uma das personagens. "No ano 2000, vai ter chinês à pampa no planeta e eu só quero saber pra que a gente vem ao mundo", indagava-se outra. "Escova de dente é que nem chuteira. Não se empresta. Cada um tem a sua, certo?", dizia um ator. A criação coletiva, a interpretação despojada, o uso de gírias e palavrões, tudo era novidade naquele cenário ainda sombrio dos anos 70, de companhias teatrais de nomes curtos - Opinião, Oficina, Arena - e propostas políticas ambiciosas. - Não queríamos chororô nenhum, nem lamentações - explica o diretor. - A coisa já estava por demais feia. Todo mundo parecia só querer dizer como tudo estava difícil. Eu achava aquilo bonito, mas quando comecei a produzir quis fazer algo que fosse uma celebração da alegria de viver. "Trate-me leão" retrata o universo jovem da Zona Sul do Rio, mas tinha apelo suficiente para seduzir um público mais abrangente. "A ampla aceitação mostrou que o retrato da juventude não era tão particular e que a reflexão sobre os umbigos dourados de sol podia atingir regiões de mau tempo", diz Sílvia. Vaz Pereira concorda: - Estávamos falando do nosso umbigo, mas ele era parecido com muitos umbigos que estavam por aí. Ele tem planos também de remontar "Trate-me leão" com o elenco original para registrar o espetáculo em DVD. - Há dez anos, não teria a ver. Acharia estranho. Hoje, não acho mais, porque já somos adultos, estamos mais pra lá do que pra cá - brinca. - Não iríamos imitar os jovens. Não há elenco melhor para isto. Maior sucesso do Asdrúbal, "Trate-me leão" foi o terceiro espetáculo do grupo. Depois de estrear com "O inspetor geral", de Nicolai Gogol, e encenar "Ubu Rei", de Alfred Jarry, Hamilton Vaz Pereira chegou à conclusão de que o "homem escrevia peças há dois mil anos, mas que nenhuma delas servia para o Asdrúbal". Daí a decisão de levar ao palco a "maravilha e a encrenca da vida carioca contemporânea". Durante nove meses, o grupo se trancou numa sala de ensaio e, a partir de improvisações, jogos coletivos e experiências pessoais, forneceu a Vaz Pereira a matéria-prima para a peça. Em seu livro sobre a peça, o diretor lembra: "A criação de ¿Trate-me leão¿ faz com que os participantes percam velhos amigos e novas namoradas, não tenham dinheiro para nada, queimem o privilégio da sua juventude, esgotem o seu charme com a família e, principalmente, trabalhem e se atrapalhem com tudo que não é Asdrúbal". Como recorda o ator Luiz Fernando Guimarães, o dinheiro todo cabia numa caixinha de Catupiry, "nosso banco-móvel". O sacrifício era encarado com a certeza de que todo o esforço não seria à toa. "Eu ia mesmo duro, sem um puto, ia ensaiar amarradão. Sentia que estávamos descobrindo um borogodó da maior importância", diz Evandro Mesquita no livro da editora Heloísa Buarque de Hollanda. A idéia é que a obra - que tem design da Tecnopop e direção de arte de Sônia Barreto - seja graficamente tão desbundada quanto o grupo. E o borogodó deu certo porque, como diz Heloísa, "eles conseguiram captar o espírito da época em que viviam, foram capazes de traduzir o que todo mundo estava sentindo". - Teatralmente, eles foram os primeiros a pôr uma banda em cena ("Aquela coisa toda"), o circo no palco ("Ubu Rei") e a usar projeção de vídeo ("A farra da Terra") - analisa. Heloísa acompanha os dez anos de trajetória do grupo intercalando o seu texto com trechos das entrevistas feitas com os integrantes do grupo. - É um tipo de fala que eu, uma professora caretona, não saberia reproduzir - brinca a editora. - Não daria para calar a boca deles. Preferi deixar que eles falassem. No documentário, que Heloísa batizou na época de "Xarabovalha", por sugestão irreverente de Evandro Mesquita, sem saber que se tratava do sinônimo de uma parte íntima feminina, aparece a cena que, segundo Vaz Pereira, foi a que mais o marcou. - No fim da última apresentação de "Trate-me leão", todos vieram abraçá-lo e beijá-lo. Deve ter sido uma cena realmente inesquecível - avalia Heloísa. O livro está previsto para ser lançado no dia 29 de abril, com uma festa na Fundição Progresso e uma exposição de fotos organizada por Karen Acioly. No segundo capítulo do livro, "O dia em que inventaram o Asdrúbal", ela reconstitui a criação da companhia. Hamilton e Regina Casé se conheceram em 1972, num curso de teatro de Sérgio Britto, quando os dois, com menos de 20 anos, resolveram reunir uma turma de comediantes em torno de uma nova proposta teatral, em que o ator era tão ou mais importante que o personagem. Eles chegaram a criar seis grupos, mas nenhum deles durou mais que algumas semanas. O sétimo era o Asdrúbal. - A gente era contra uma porção de coisas do sistema, mas muito mais a favor de discutir como a vida podia ser melhor - diz Perfeito Fortuna. - Em vez de um teatro ideológico, contra a ditadura, falávamos de família, de estudos, de saúde. Não éramos alienados, apenas preferíamos ser porta-vozes de um discurso mais leve. No lugar de dar espaço para o inimigo, começamos a ocupá-lo com as nossas questões. Regina diz que o Asdrúbal inaugurou sua vida adulta - tanto no sentido artístico-profissional como no plano emocional. Para ela, "Trate-me leão" já nasceu cult. "A gente não queria ir para o mato, nem pegar um disco voador, nem se entupir de drogas e ficar muito mal como muitas pessoas ficaram. Nós optamos por não sermos heróicos, e aceitar não ser revolucionário era muito corajoso", diz ela no livro de Vaz Pereira. "A gente sempre ficou nesse sanduíche entre a direita e a esquerda, entre os grandes intelectuais, os mais eruditos, e o pop, o brega e o mais comercial." Como diz Caetano Veloso na orelha do livro: "Ainda hoje, ouvem-se seus ecos no teatro, na televisão, no cinema, na canção popular, nas escolas, nas casas, nas ruas." Três décadas depois, os integrantes do Asdrúbal dizem-se fiéis ao espírito do grupo. "De alguma forma, a correspondência entre o que eu era naquela época e o que sou hoje está mantida. Como é que eu cheguei aos 50 anos sem fazer uma operação plástica ou sem pintar o cabelo de loiro e tal? (será que ainda por muito tempo?...)", testemunha Regina. No livro de Heloísa, Guimarães diz que o Asdrúbal era uma proposta de vida. "Continuo um Asdrúbal", conta o ator. Frases da peça "Trate-me leão": "Jorge, você que é um brilhante estudante de medicina, já parou pra pensar no significado do banheiro na sua vida? Eu já. E cheguei a uma conclusão: o banheiro é o lugar onde o homem se encontra." "A única coisa que eu tenho feito depois do jantar é a digestão." "Só existe uma coisa desprovida de encanto: obedecer a um destino gorduroso, otário e imbecil." Diálogo da peça "Trate-me leão": JULINHA: Garoto, pára de me agarrar! Qual é! Eu vou embora. DJAMIL: Não vai mesmo. A gente já não transou? JULINHA: A gente transou. E aí? Sou sua mulher agora? Olha só, garoto, esse um metro e sessenta e quatro aqui é meu. Se eu quiser, eu solto a fera. Ando com ela pra lá. Trago ela de volta para cá. Eu quero exibir os meus troféus. Me sentir desfrutável. Eu quero que as pessoas entrem e saiam da minha vida como se eu fosse as Lojas Americanas! Diálogo da peça "Trate-me leão": PAULINHA: Djamil, o pessoal tá na maior bronca contigo. Por que você não vai à luta como todo mundo? DJAMIL: Aonde? PAULINHA: À luta. DJAMIL: E quem fica na retaguarda cuidando da casa? PAULINHA: Pra que ficar em casa, Djamil? DJAMIL: Pra muita coisa que pode pintar. Muita coisa. Uma série de coisas. Atender o telefone, por exemplo. É um bom exemplo. LUI: E quando foi que aqui teve telefone, Djamil? DJAMIL: E na vizinha não tem telefone, não? Me responde. Comente aqui: Segunda-feira, Fevereiro 09, 2004
Reportagem com o ator José Dumont Santo Dumont - Ator brilha novamente no cinema, mas não encontra espaço na TV e vive modestamente O ator mais premiado do cinema nacional faz graça na hora de explicar por que aparece tão pouco na TV. - Querem um perfil longilíneo e eu sou chatolíneo - diz o paraibano José Dumont, 53 anos, quase 30 deles interpretando personagens memoráveis, como o Antônio Biá do recém-lançado "Narradores de Javé". Mas ele assume um ar sério ao analisar sua seca de papéis televisivos. - É como se eu não servisse para interpretar o amante legal ou o pai dos filhos das mocinhas. Isto quer dizer que Dumont sente falta de viver um galã? - Não. Se nem minha mãe me achava bonito, como vou me achar? Estou cada vez mais sexy. Mais sexagenário - diz ele, de volta ao tom bem-humorado. - O galã é a idealização da fantasia, do tipo: "Durma com o seu e pense nele." Não posso dar isto para as pessoas, mas tem outras coisas que eu posso vender. Talento? - No dia em que o país comprar talento... - ironiza. Dumont sabe o valor que uma boa estampa tem no Brasil. - O país fica olhando para o modelo grego de beleza, clássico, em vez de perceber a riqueza da miscigenação. O espectador brasileiro acaba enchendo o bolso de Tom Cruise e tirando o prato da minha mesa - diz ele, frisando que não está falando de si mesmo, e sim da classe artística brasileira. Um dos maiores atores brasileiros em qualquer lista que se faça, Dumont vive de forma quase franciscana num quarto-e-sala no Catete, comprado com sacrifício. - Bem-vindo ao meu humilde tugúrio (cabana) - recepciona ele, na chegada para a entrevista. O acanhado apartamento, único bem acumulado em 27 anos como ator, não combina com o histórico profissional de Dumont, figura presente em 35 filmes. - Só vive bem quem está trabalhando permanentemente na TV - explica. - Se você não faz novela no Brasil, o público não te conhece. Um cabra de 16 anos não vai ter idéia do meu trabalho. Na TV, Dumont trabalhou em produções como "Terra nostra", "Tocaia grande", "Pantanal", "Olho por olho", "Lampião e Maria Bonita", "Guerra sem fim" e "Carmem". Em 2001, foi chamado pelo diretor Jayme Monjardim para atuar em "O clone", mas um problema de saúde - uma bactéria contraída nas filmagens de "A selva" - e o compromisso assumido com "Narradores de Javé" o tiraram da novela de Glória Perez. - Não esnobo TV. "O clone" foi uma novela belíssima. O Jayme sempre me chama. Só ele, é bom que se diga. Em "Narradores de Javé", Dumont faz o papel de um ex-carteiro que caiu em desgraça numa comunidade formada por moradores analfabetos. Para não perder o emprego, Antônio Biá resolveu inventar cartas, com detalhes picantes sobre a vida da população. Até que foi descoberto e execrado. Só que Javé vai ser inundada com a construção de uma barragem e a única forma de evitar as águas é provar que a cidade tem feitos capazes de torná-la patrimônio histórico. E assim Biá é chamado para escrever a "grande história do Vale de Javé". Dumont está magistral como o cínico, debochado, anárquico e chapliniano Biá. Ele improvisou tanto que a diretora Eliane Caffé o chama de co-autor do filme. A certa altura, Biá diz: "O senhor está confundindo habeas corpus com Corpus Christi." Expressões como "Pokémon de Jesus", "rindo que nem jacaré apaixonado (para um homem que experimenta uma dentadura)", "diga nome, sobrenome e pronome", "manicure de lacraia" e "dilúvio bovino" rendem gargalhadas do público. Em outra hora, ele é cercado por moradores e reage com golpes de kung fu. - Durante as filmagens, de manhã, eu e minha irmã, Carla (diretora de arte do filme), fazíamos alguns movimentos de kung fu - conta Eliane. - Víamos o Zé correndo lá em cima, na estrada, sem perceber que ele prestava atenção. Na hora de gravar a cena, ele improvisou e fez os gestos certinhos. No filme, quis explorar a veia cômica dele, que é muito pouco aproveitada. A verdade é que Dumont acabou ficando marcado pelos papéis de migrante nordestino. Tornou-se emblema do retirante cheio de filhos, com o rosto vincado e sofrido. - Eu queria representar a dor e as injustiças de meu povo. Minha cara era uma escultura deste mundo e virou símbolo do operariado. Fui usado como uma peça documental. Era uma maneira de fazer documentário em ficção - diz ele, que surpreende ao falar de suas preferências: - Meu caminho natural de comunicar é o humor chapliniano, de ter que sair de uma determinada situação. Mas sempre aparecem papéis com uma carga dramática, o que nunca foi meu forte. Estou mais para Biá do que para "Morte e vida severina". Dumont nasceu em 1950 na cidadezinha de Belém de Caiçara. Dos 21 filhos de três casamentos de seu pai, Severino, 11 não sobreviveram à infância. - Eu era candidato potencial a morrer, como meus irmãos, mas faltava roupa para o batizado. Minha irmã diz que minha mãe tirou a roupinha da boneca e me botou. O ator, que perdeu a mãe aos 5 anos, morava num casebre sem portas. Seu pai era um lavrador analfabeto que hoje, aos 86 anos, vive em João Pessoa. Nos anos 30, no quartel, em Recife, perguntaram a ele seu nome. - Ele disse: "Severino do Monte." As pessoas eram chamadas assim: Manoel do Chapadão, fulano da Beira do Rio - conta o ator. - O militar achou que ele não sabia falar direito e, por causa de Santos Dumont e porque o francês era moda na época, disse: "Deve ser Dumont." Autodidata, o ator aprendeu a ler na feira, com folhetos de cordel, "única forma de dramatização que existia", como explica. Seu avô passou, então, a botá-lo para ler as novenas e tirar os terços. - Na época, a forma de ter contato com as letras era através da feira ou da igreja - diz ele, que decorou as paredes de casa com quadros seus que retratam, de forma alegórica, sua história. - Não sou pintor. A pintura me ajudou a organizar as idéias. Aos 21 anos, decidiu ir para Santos, ser marinheiro. Mas, ao chegar em São Paulo - onde tirou a carteira de identidade pela primeira vez - teve que trabalhar para sobreviver. Virou carteiro, a exemplo de seu personagem Biá. Um dia, foi assistir a uma peça de teatro, fez amizades no meio artístico e acabou convidado para atuar no espetáculo "O Morro do Ouro". O cineasta Zelito Viana chamou-o para estrelar "Morte e vida severina" e daí em diante não parou mais - fez filmes como "A hora da estrela", "Gaijin", "O homem que virou suco", "Memórias do cárcere" e "Abril despedaçado". Em breve, poderá ser visto nas telas como um índio aculturado em "Árido movie", de Lírio Ferreira, e como um locutor de rádio em "Onde anda você", de Sérgio Rezende. Dumont conserva as raízes regionais, mas define-se como um cidadão universal. Está sempre antenado com a modernidade, critica a cultura belicista dos Estados Unidos, preocupa-se com a massificação e com a ditadura estética que tomam conta do país e diz que não está interessado em fazer Shakespeare. - A não ser que tenha uma cor local. Eu posso fazer Ricardo III, mas não com a empostação inglesa. Aliás, a Inglaterra não é uma referência de saúde planetária - critica. - O problema é que as montagens ficam sempre por lá, no reino da Dinamarca. Tem que apontar o que tem de podre aqui, para ver o que pode melhorar. Comente aqui: Domingo, Fevereiro 01, 2004
Entrevista com o diretor Fernando Meirelles "Já sei que vão dizer que me vendi para o mercado" - Fernando Meirelles fala das indicações ao Oscar e do novo filme, um thriller com Ralph Fiennes O cineasta Fernando Meirelles diz que gostaria de saber o que pensam agora os críticos que chamaram "Cidade de Deus" de "nocivo" e disseram que é "espetacularização da violência", "chacina fashion" e "estetização da miséria". De alma lavada com as quatro indicações ao Oscar - diretor, montagem (Daniel Rezende), fotografia (César Charlone) e roteiro adaptado (Bráulio Mantovani) - ele está às voltas com a escolha da atriz do novo filme e se dá ao luxo de não querer Nicole Kidman e Kate Winslet no elenco. "É uma questão de idade. A personagem tem 22 anos", diz. Meirelles pode. Como você recebeu as quatro indicações ao Oscar? FERNANDO MEIRELLES: Eu estava no escritório em Londres, em reunião com o ator Danny Huston, que vai trabalhar no meu novo filme (o thriller "O jardineiro fiel", adaptação do livro de John Le Carré) , quando me avisaram que havia uma ligação do Brasil, da minha produtora (a O2) . Eu não estava assistindo ao anúncio do Oscar porque ser indicado era a última coisa que eu esperava. Alguém ia me mostrar a lista depois mesmo... Na verdade, não tinha a mínima idéia de que estava passando o anúncio. Já não tinha sido indicado uma vez (para filme estrangeiro) . A moça que passou a ligação do Brasil disse: "Eles estão bem animados, querem lhe dar os parabéns." Quando fui atender, caiu a ligação. Liguei de volta e a telefonista da O2 disse: "Parabéns!". Pensei: "Quem sabe o filme foi indicado na categoria montagem?". Quase caí de quatro quando falaram nas quatro indicações. Nessa hora, estavam chegando o John Le Carré, o Ralph Fiennes e uma big shot da (distribuidora) Focus. Íamos assistir a um filme do Spike Jonze, "Eterno pôr-do-sol", para ver a atuação da Kate Winslet. Só que ligou um cara da Miramax e falou que estava com o "The New York Times" e o "Los Angeles Times" na linha. Falei: "Não posso atender, tem gente me esperando." Mas tive que atender. Era um telefonema atrás do outro. Quando chegou a vez de um jornal, acho que o "Washington Post", disse: "Não dá mais." Durante a projeção, tive que sair para atender a outros telefonemas. E fiquei até as 3h respondendo a e-mails. Foi um caos. As indicações funcionam como um cala-boca nos críticos? MEIRELLES: Os caras que foram rigorosos talvez já tenham revisto suas opiniões. Tenho uma lista com as piores críticas. Adoraria que você fizesse uma reportagem com os críticos. Que pegasse, por exemplo, quem disse que o filme ia ser esquecido em três meses e perguntasse: "E aí, por que as pessoas não esqueceram?". A Katia Lund, co-diretora, disse numa entrevista que você assumiu o filme sozinho e não lhe deu o devido crédito. MEIRELLES: Ela me mandou um e-mail absolutamente amável, desejando-me sorte. Disse: "Desculpe-me o tom, não era essa minha intenção, quero sempre estar ao seu lado." Quais são as chances de "Cidade de Deus" no Oscar? MEIRELLES: Para diretor, Peter Jackson (de "O Senhor dos Anéis") é barbada. Eu votaria nele. Um cineasta que fez três filmes daqueles não há dúvidas de que merece ganhar. Quem tem mais chance é o Daniel, na montagem. Dos caras com quem compete, ele é o melhor. Quanto à fotografia, assisti ao filme "Moça com brinco de pérola". É uma imagem mais linda do que a outra, que remete aos quadros de Vermeer. Tem toda a cara de ganhar. E no caso do roteiro o problema é que o nosso é em português. Como as indicações vão influir no cinema brasileiro? MEIRELLES: Um filme brasileiro que funciona puxa os outros. "Central do Brasil" me puxou. A Videofilmes (de Walter e João Moreira Salles) é co-produtora de "Cidade de Deus". Estou fazendo agora o que o Waltinho fez comigo, estou produzindo dois novos diretores. Um é Roberto Moreira. Seu filme, "Contra todos", vai estar no Festival de Berlim. O outro é Philippe Barcinski. O projeto de "Não por acaso" está no Festival de Roterdã, sendo vendido para o mercado. É o que tem mais pessoas interessadas, o dobro do segundo lugar. Ou seja, antes mesmo de começar a rodar, o filme já vai ter sido vendido para vários países. Com isso, ele vai ter dinheiro para filmar. De que forma o filme ajudou a comunidade de Cidade de Deus? MEIRELLES: A única bola fora nesta festa toda é que em janeiro do ano passado sete ministérios estavam em conversações e fazendo promessas de ações em Cidade de Deus. Fiquei feliz ao ver que o filme tinha levantado uma questão e ajudado a gerar algo concreto. Um ano depois, um a um foram se afastando e parece que a Cidade de Deus foi esquecida novamente. Há apenas um aporte de R$ 9 milhões do Criança Esperança, mas que está também esperando uma assinatura da Rosinha Garotinho. Eu lamento isso. É verdade que você não quis Nicole Kidman como atriz de "O jardineiro fiel", para não transformá-lo num filme de estrela? MEIRELLES: A Nicole é mais por causa da idade dela. A personagem principal, Tessa, tem 22 anos. Você tem tido reuniões e visto peças, fitas VHS, DVDs, filmes e fotos, para escolher os atores do filme. Quem, afinal, viverá Tessa? MEIRELLES: Na terça-feira, estou indo a Nova York para conversar com a Kate Winslet. Mas também acho ela um pouco velha para o papel. Teve dois filhos, está meio matrona. Minha candidata favorita é Eva Green, que fez o novo filme de Bertolucci. Ela está na Espanha com Ridley Scott, filmando "Kingdom of Heaven", sobre as cruzadas. Mas tem outras no páreo, como a Natalie Portman e a Sienna Miller. Também se falou na Naomi Watts (de "Cidade dos sonhos"). MEIRELLES: Eu a vi em "21 gramas" e fiquei impressionado. Ela está maravilhosa. Eu toparia, mas a gente a perdeu. Ela vai fazer "King Kong". Alguma brasileira? MEIRELLES: Não há muitas atrizes brasileiras que falem um bom inglês e pudessem viver a Tessa. Liguei para a Luana Piovani, mas ela já está comprometida com o filme do Bruno Barreto. Como surgiu a idéia de filmar o livro de John Le Carré? MEIRELLES: Depois de "Cidade de Deus", recebi muitos roteiros. Histórias passadas na Escócia, na Rússia, na Itália dos anos 50, na época da Segunda Guerra, embaixo d´água. Comédias, policiais e muitos roteiros sobre traficantes. Mas sempre falava não, porque minha prioridade era meu projeto pessoal, "Intolerância", que estou escrevendo com o Bráulio e vai ter diálogos em sete línguas. Quando estive em Londres com Bráulio, encontrei um amigo que falou do projeto de adaptação do livro. Um produtor inglês me mandou o roteiro, vi que era muito bom, percebi que não tinha como rodar "Intolerância" antes do fim de 2004 e resolvi fazer. É uma produção independente inglesa. Do que trata o filme? Você está escrevendo um diário on line, no site Cinema em Cena (www.cinemaemcena.com.br), sobre as filmagens. MEIRELLES: É uma história de amor que fala de um diplomata que se apaixona pela mulher depois que ela morre. Tem como pano de fundo a indústria farmacêutica. Mostra como se ganha dinheiro com a doença dos outros. Lá no site eu falo que gostaria de incluir a importante ação do Brasil em sua briga a favor da quebra de patentes para alguns medicamentos. Pensei até em colocar o José Serra no filme, mas não quero ficar fazendo campanha para ninguém. Quando começam as filmagens? MEIRELLES: Teremos uma semana de filmagens em março e outra no fim de abril, no Canadá e em Londres. Depois, iremos para o Quênia. Ele vai ser lançado no começo do ano que vem. Qual sua expectativa? MEIRELLES: Não é filme de festival. É filme para ser lançado diretamente no circuito comercial. Existem bons filmes de mercado e a expectativa é esta. É um thriller que pode dar uma boa bilheteria, mas não acho que estoura. Mas com as indicações a expectativa em torno de seu próximo trabalho aumentou muito... MEIRELLES: Estou tentando não pensar na expectativa. Mas seja qual for o resultado do filme, sei que vai tomar porrada no Brasil. Independentemente de ser bom ou ruim, vão dizer: "É hollywoodiano. Logo no segundo trabalho já está fazendo um filme com astros." Já sei que vão dizer que me vendi para o mercado. Você pode escrever a crítica antes mesmo de ele ficar pronto. E os próximos planos? MEIRELLES: Concretamente, as indicações não vão fazer muita diferença até 2008. Comprometi-me a dar palpites num roteiro sobre Pompéia. Se eu gostar, tenho a opção de dirigir. E quero fazer depois algo em português, no Brasil, mais íntimo, com dois atores numa casa. Já tem uma coisinha começada, mas ainda é cedo para falar. Comente aqui:
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