DizVentura II

Terça-feira, Janeiro 20, 2004

Reportagem sobre o baú de Rogério Sganzerla
Luz sobre a herança de Sganzerla - Cineasta deixa obra inédita que inclui roteiros, filmes e um livro sobre sua obsessão maior, Orson Welles

Na hora em que abriu a porta do quarto em que o cineasta Rogério Sganzerla guardava suas coisas, Hernani Heffner tomou um susto:
- Não dava nem para entrar de tão entulhado. Tivemos que tirar uma parte, espalhar e montar o quebra-cabeça - lembra Heffner, responsável pela preservação de filmes da Cinemateca do MAM.

O quebra-cabeça a que ele se refere é a catalogação das mais de 500 latas que Sganzerla mantinha em seu apartamento na Urca. Heffner visitou a casa pela primeira vez no começo de novembro, quando o diretor já estava bastante debilitado pelo câncer que o vitimou no último dia 9. Durante cerca de um mês, ele se debruçou sobre o material, com a ajuda de uma das filhas do cineasta, a musicoterapeuta Sinai. O resultado compensou com sobras o esforço da dupla.

- Há desde negativos originais de filmes terminados, como "Tudo é Brasil", até registros de coisas que ele nunca levou adiante - diz Heffner.

Um dos pontos altos é o filme "Jimi Hendrix". Sganzerla era fã do guitarrista e gravou com uma câmera 16mm o show do americano na Ilha de Wight, na Inglaterra, realizado pouco antes de sua morte, em 1970. Mais tarde, usou as imagens para fazer um longa-metragem que nunca foi lançado. Apenas algumas imagens do show foram usadas no filme "Abismu".

- Vi alguns fotogramas. Acho que a idéia era fazer uma discussão poética-experimental em torno da imagem de Hendrix - detalha Heffner. - A película está muito abaulada (retorcida) e em mau estado, mas acredito que possa ser restaurada.

A atriz Helena Ignez, que foi casada com o diretor nos últimos 35 anos, calcula que 30% da produção de Sganzerla para cinema permanecem inéditos.

Ainda não deu tempo de fazer o levantamento do material escrito que havia no quarto, mas já se sabe que ele deixou cerca de 30 roteiros inéditos. O aposento continha também outra preciosidade em papel: um livro feito nos últimos oito anos sobre sua obsessão maior, o americano Orson Welles.

- A idéia é publicá-lo. Além disso, a crítica e professora de cinema (francesa) Catherine Benamou nos contactou porque vai usar uma parte para abrir o livro que está fazendo sobre Welles - diz Helena.

Mas o principal legado de Sganzerla é o roteiro "Luz nas trevas - Revolta de Luz Vermelha". Trata-se, como o nome indica, da continuação de seu primeiro - e mais famoso - filme, "O bandido da Luz Vermelha". O diretor deixou 600 páginas escritas. O longa vai ser dirigido por Helena, com a assistência de direção de Joel Pizzini.

O quebra-cabeça deixado por Sganzerla inclui outras surpresas. Foram encontradas todas as latas com as filmagens que o diretor fez em Nova York, nos anos 70, com Helena e o músico Jorge Mautner, com participação especial de Gal Costa. Parte das imagens foi aproveitada em "Carnaval na lama".

- O material não foi todo montado. Estive com Jorge Mautner e ele propôs: "Vamos terminar isso." Em seguida, começou a lembrar os diálogos! Podemos lançar em DVD - diz ela.

A relação de achados é vasta.

- Encontramos fragmentos de obras consideradas perdidas, como "Fora do baralho", de 1974, além de registros familiares, do negativo de imagem do filme institucional "O petróleo" e até de um pedaço pequeno de "Carnaval na lama". A única cópia tinha sido levada em 1992 para um festival em Paris e não retornou. Os negativos estão deteriorados, à beira de se perder.

Também foram encontradas 16 fitas mofadas, que estão sendo limpas, e um conjunto de tapes com trilhas mixadas de filmes. Com as fitas de áudio, vai ser possível recuperar o som de alguns filmes. Antes, já tinha sido achado um vídeo chamado "A miss e o dinossauro", um making of que ele fez sobre os filmes da Belair, produtora que criou com Júlio Bressane em 1970.

Heffner explica que a catalogação vai ser importante para se traçar a filmografia definitiva de Sganzerla.

- A alguns filmes, em geral institucionais, ele não deu publicidade. Outros, renegou - explica Heffner. - Um dia o chamei na Cinemateca do MAM para identificar um copião que tinha o nome dele. Rogério disse: "É ¿Irani¿." Ele recebeu uma encomenda da cidade catarinense de Irani e fez um filme quase experimental.

Só que a prefeitura não teria gostado da ousadia estética de Sganzerla e o projeto foi interrompido.

Cineasta deixa roteiro que retoma saga do Bandido da Luz Vermelha - Mulher do diretor diz que 'Luz nas trevas' será popular e sofisticadoLogo em sua estréia, aos 22 anos, em 1968, o cineasta catarinense Rogério Sganzerla fez um filme que se tornou sucesso de público e crítica: "O Bandido da Luz Vermelha". Uma obra ousada, de narrativa fragmentada, que foi definida pelo diretor como um "faroeste do Terceiro Mundo". O filme contava a história do anti-herói vivido por Paulo Villaça, inspirado em João Acácio da Costa, o Bandido da Luz Vermelha.

Inovador, radical, anárquico, anticonvencional, Sganzerla deixou escritas 600 páginas da continuação de seu filme mais famoso. Batizou o roteiro de "Luz nas trevas - Revolta de Luz Vermelha" e incumbiu a mulher, a atriz Helena Ignez, de dar continuidade ao projeto. O argumento do filme foi premiado pela Agência Nacional de Cinema (Ancine). Nos últimos meses, Helena e o roteirista e diretor Guilherme Marback se debruçaram sobre o texto, seguindo as orientações de Sganzerla. Ele orientou a dupla até sua última internação, 20 dias antes da morte.

- Na última internação, ele só ouvia. Ele me deu esse roteiro e falou para o Guilherme: "Quando eu não estiver mais aqui, a Helena sabe tudo" - emociona-se a atriz.

Sganzerla teve que ser hospitalizado várias vezes desde que descobriu que estava com câncer, em maio de 2003. Helena ficava o tempo todo ao seu lado.

- O médico tinha dito: "Vai ser como se desligasse um interruptor, como se apagasse a luz." Poderia ser a qualquer hora. Queria estar perto do Rogério neste momento - conta ela, dizendo que ele ficou lúcido e com humor até o fim. - Ele falou para a neta: "Não quero choro, só nos cantinhos, bem baixinho."

Helena e Marback reduziram o roteiro para pouco mais de cem páginas. Ela vai agora buscar patrocínio para filmar.

- "Luz nas trevas" é um filme que resulta comercial, seja pela ação, pelo enorme elenco feminino, pelos movimentos perfeitos de câmera ou pela trilha extraordinária, com músicas do cancioneiro brega. É popular e sofisticado, como o primeiro.

No novo roteiro, Luz Vermelha sai da prisão após 30 anos. Ele se tornou religioso, renega o passado e diz: "Fui retirado do meu tempo". Não quer ser chamado pelo antigo apelido, e sim por Luz Divina. Há outro bandido na história, mais jovem, apelidado de Tudo ou Nada.

- É um bandido romântico, galante, o canto alegre da marginalidade. Os dois são profundamente ligados, mas não se encontram. Seria este jovem filho de Luz Vermelha? Uma cópia? - deixa no ar Helena. - Eles adoram roupa, adoram aparecer, têm o que Rogério chamava de "vaidade atômica".

O cenário é novamente São Paulo, "a megalópole cruel", como diz o personagem, e haverá uma referência ao primeiro filme, com flashs em P&B.

Helena não revela nomes, mas diz que vai convidar dois grandes atores para os papéis principais e um dos maiores diretores de fotografia do país.

Outro projeto que tem tudo para sair do papel é o de Tarcísio Vidigal, do Grupo Novo de Cinema e TV. Até o fim do mês, ele começa a captar recursos para restaurar toda a obra do diretor.

- A idéia é lançar a coleção Sganzerla em DVD - diz ele, contando que a Cinemateca Brasileira, que abriga a obra do cineasta, está fazendo um laudo sobre o estado de cada filme.

O último texto de Sganzerla foi escrito em novembro para a revista "Cult" deste mês. Ele fala de Oswald de Andrade, mas a definição poderia caber no próprio Sganzerla: "Um homem de espírito permanentemente inspirado, mestre da renovação".



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Segunda-feira, Janeiro 12, 2004

Reportagem sobre a atriz Scarlett Johansson
A encantadora de platéias - Aos 19 anos, Scarlett Johansson, duplamente indicada ao Globo de Ouro, é a maior promessa de sua geração

Sabe aquelas louras peitudas e insinuantes, sorriso estampado na cara, pose estudada, gritinhos histéricos, que infestam as telas de cinema como líder de torcida ou mocinha-assassinada-a-machadadas-por-serial-killer? Esqueça. O rosto do momento foge das comédias adolescentes ou dos filmes de terror juvenil. Scarlett Johansson prefere investir em papéis mais desafiadores e menos óbvios, como a desorientada e solitária Charlotte de "Encontros e desencontros", que estréia no Brasil no próximo dia 23, ou a tímida Griet de "Moça com brinco de pérola", baseado no best-seller de Tracy Chevalier, ainda sem data de lançamento. Os dois papéis lhe renderam uma dupla indicação ao Globo de Ouro - melhor atriz na categoria drama e na categoria musical ou comédia - e o título de musa do cinema independente.

"Evito fazer filmes sobre cheerleaders que se tornam rainhas do baile, ajudam crianças morrendo em Ruanda e se casam com o rei do baile de formatura", já disse a atriz. Não estranhe se você sair da sala de cinema enfeitiçado por Scarlett após "Encontros e desencontros", de Sofia Coppola. É um fenômeno mundial. Ela não tem aquela beleza clássica que seduz ao primeiro olhar, nem a sensualidade à flor da pele que faz o espectador dizer "uau!" a cada aparição, mas a câmera pode se permitir demorados close-ups em seu rosto que o público não vai reclamar - seja por causa da boca carnuda, quase indecente, dos olhos grandes e expressivos ou do jeito ao mesmo tempo ingênuo e sedutor.

Scarlett tem apenas 19 anos, mas sua carreira já dura mais de uma década e inclui filmes como "O homem que não estava lá", "Mundo cão" e "O encantador de cavalos". Começou aos 8, na peça off-Broadway "Sophistry", ao lado de Ethan Hawke. A infância foi marcada por testes fracassados para comerciais. O problema? Sua voz. Leiam o que diziam à época os diretores de publicidade: "Qual o problema, querida? Você está resfriada? Sua garganta está inflamada?". O pesadelo acabou quando sua mãe desistiu de levá-la para testes publicitários e passou a tentar o teatro e o cinema. O que dizem agora os diretores? "Você tem uma grande voz. Profunda, roufenha, sexy."

Sua voz - que já foi comparada à de Lauren Bacall - é sua característica mais marcante, mas os dois filmes que lhe valeram a indicação ao Globo de Ouro são plenos de silêncios. Sua interpretação é feita mais de olhares, piscadelas, movimentos de cabeça, respirações e gestos. Um jornalista escreveu que é raro encontrar outro ator de sua geração que se sinta tão confortável com o silêncio e o espaço.

Em "Encontros e desencontros", ela faz o papel de uma jovem de 20 e poucos anos, casada com um fotógrafo workaholic, que se vê confusa e frustrada na Tóquio do século XXI. No hotel, conhece Bob (Bill Murray), ator cinqüentão, também casado e igualmente fragilizado. Os dois tornam-se amigos e desenvolvem um relacionamento platônico. Em "Moça com brinco de pérola", o cenário é a Holanda do século XVII, mas a situação guarda semelhanças com o belo e delicado filme de Sofia Coppola. Scarlett interpreta a empregada do pintor Vermeer, que se torna, segundo a imaginação da escritora Tracy Chevalier, musa de seu quadro mais famoso. Aqui também ela contracena com um personagem mais velho - vivido pelo ator Colin Firth - e a relação entre os dois é feita de emoções contidas.

Nascida em Nova York e morando atualmente em Los Angeles, Scarlett já faturou um punhado de prêmios. Um dos mais recentes foi o de melhor atriz na competição paralela do Festival de Veneza. Também ganhou uma homenagem no Toronto International Film Festival, conferido à atriz com futuro mais brilhante. Amanhã ela recebe o recém-criado Estrela em Ascensão, no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.

Mesmo que não leve os Globos de Ouro, Scarlett já tem trabalho garantido por um bom tempo. Ela rodou quatro filmes em 2003 - vai ser vista em breve também em "The perfect score" e "A love song for Bobby Long", onde interpreta uma jovem que encanta dois homens - para variar - mais velhos, um deles vivido por John Travolta. Está terminando de filmar "A good woman", com Helen Hunt, baseado no livro de Oscar Wilde "Lady Windermere's fan", e vai participar de "Synergy", com Dennis Quaid, de Paul e Chris Weitz. Entre os planos, escrever um roteiro e dirigir um filme.

A atriz vem colecionando elogios. "Ela é hipnótica de assistir, como uma diva do cinema mudo. É profundamente virginal e sensual ao mesmo tempo", disse Peter Webber, diretor de "Moça com brinco de pérola", que acrescentou: "Ela tem os atributos necessários para se tornar o maior talento de sua geração." O ator Colin Firth, o Vermeer do filme, também está entre os admiradores. Ele disse: "Ela tem a criança e o adulto dentro dela. Pode parecer comum ou deslumbrante. Pode ser agressiva e destemida, ou extremamente frágil e vulnerável."

Sofia Coppola, que escreveu o papel de Charlotte tendo Scarlett em mente, elogiou-a: "Nós estávamos no set e ela estava falando de McDonald's, então começamos imediatamente a filmar e ela se sentou e olhou como se estivesse contemplando Proust." Um crítico ressaltou seu jeito ao mesmo tempo misterioso e vulnerável, e escreveu: "Ela é a mais impressionante atriz em muito tempo, parcialmente porque parece ter um segredo que não revela."

A atriz ruboriza-se com os afagos e mantém o pé no chão. Não estrela filmes campeões de bilheteria, mas não se arrepende da escolha por personagens pouco usuais, como disse recentemente: "Um monte de atrizes com quem competi por papéis quando era mais nova desapareceu totalmente." Um risco que ela definitivamente não corre.

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Quarta-feira, Janeiro 07, 2004

Reportagem sobre polêmica no festival de hip hop
Hip hop - Festival Manifesta gera críticas de artistas e provoca a maior divisão da história do movimento no país

Bernardo Araujo e Mauro Ventura

De um lado, o grupo apelidado de G-10 - empresários do high society como Alexandre Accioly, Marcus Buaiz, Pedro Paulo Diniz, Luiz André Calainho e Luciano Huck. Do outro, representantes do chamado hip hop autêntico, nascidos e criados em comunidades pobres - nomes como MV Bill, Celso Athayde, Nega Gizza, Afro X, Gog, Big Richard, LF, Ferréz e Grupo Nação Hip Hop.

Mais do que uma luta de classes, o que está no centro da polêmica é o festival Skol Hip Hop Manifesta, que acontece na sexta-feira e no sábado no Rio e em Florianópolis. Promovido pelo G-10, a um custo de R$ 4,2 milhões, e com um elenco de atrações como os americanos Snoop Dog e Ja Rule, e os brasileiros Thaíde, Marcelo D2, SP-Funk e RZO, o evento coleciona protestos e provocou a maior divisão da história do hip hop brasileiro.

Existe até um "manifesto do hip hop", em contraponto ao Hip Hop Manifesta, circulando pela internet com pesadas críticas ao festival. Assinado pelo Grupo Nação Hip Hop, de Santa Catarina, o texto diz que os "playboys" não conseguiram contratar "os ícones do movimento" e foram "buscar amparo em outros grupos mais fragilizados para tentar diminuir o prejuízo político e o desgaste de suas imagens de bons rapazes".

Entre os que não vão participar do festival estão MV Bill, Racionais MC's, 509 E, Facção Central e Rappin' Hood. Quem está de fora diz ter muitas razões para a recusa: o alto preço do ingresso (R$ 40), que afasta o público carente, a falta de diálogo do G-10 com quem vive do hip hop, o caráter puramente comercial do evento e o medo de ver uma cultura que nasceu à margem ser cooptada pelo sistema.

Os ataques partem também da Central Única das Favelas (Cufa), que quer o Ministério Público (MP) na jogada.

- Se o festival estiver sendo financiado com dinheiro de renúncia fiscal, via Lei Rouanet, é eticamente complicado - diz o vereador Edson Santos (PT-RJ). - Usar verba pública para um evento que exclui a cultura que produz o hip hop é muito questionável. Através da Cufa, vamos fazer uma provocação ao MP para que investigue a origem dos recursos.

O empresário Marcus Buaiz pede calma e diz que os patrocinadores - Skol e Oi - não estão investindo no evento via Lei Rouanet. Ele também rebate as críticas à falta de compromisso social do Manifesta.

- A cada ingresso vendido vamos doar um quilo de alimento não perecível. Estamos fazendo uma lista de ONGs e comunidades que lidam com o hip hop e, após o festival, doaremos os alimentos - diz ele, que justifica o preço do ingresso. - Tem um custo muito alto fazer um evento desses. Queria que o Brasil inteiro pudesse assistir, mas não dá. Acho até que não vamos ter lucro neste primeiro ano. Mas queremos investir na marca Hip Hop Manifesta e fazer um evento, a princípio, a cada dois anos, o que vai ajudar a todos os que acreditam no hip hop.

MV Bill vê no Manifesta algo bem mais perigoso do que um simples festival de música.

- Não vou falar em nome do hip hop, até porque ninguém é autorizado a fazer isso no Brasil - diz. - Mas não dá para ser inocente. Esse evento não é apenas um evento, é o inicio de um processo de dominação e exclusão. O primeiro ato é cobrar uma fortuna para entrar e doar farinha para quem não vai poder pagar para ver seus ídolos. Se ninguém consegue ver a violência que está por trás desse discurso, se os movimentos negros e os homens públicos não percebem o que estão cometendo com a história de vida de vários jovens negros de periferias desse país, é porque, infelizmente, a guerra é realmente inevitável.

Sua irmã, a rapper Nega Gizza, está igualmente preocupada. No manifesto, ela diz: "Somos parte do lado que já perdeu tudo. Só sobrou o hip hop. Será que até isso eles vão levar? Então que levem nossas vidas junto."

Para Marcelo D2, a briga é "uma grande besteira".

- Como o festival não tem representatividade? O hip hop brasileiro se baseia no disco "Chronicle", de 1992, do Dr. Dre, com participação do Snoop Dog. O cara inventou o hip hop que a gente faz aqui - diz ele, que não vê nada demais na participação do G-10 no festival: - A gente tem que tentar gerar a maior quantidade possível de dinheiro. É assim que vamos diminuir a miséria e ajudar as nossas comunidades.

O empresário Marcus Buaiz diz que o momento é de investir no hip hop.

- A revista "Business Week" estampou na capa o "senhor hip hop" dos Estados Unidos, Russell Simmons. A reportagem dizia: "Se você quer vender, assine com um rapper ." Desde a época do rock nos anos 60 e 70 não existiu um movimento tão forte - diz. - O Manifesta vai ajudar a romper os preconceitos no Brasil. Muitas empresas que ainda vêem o hip hop como uma coisa negativa vão perder as resistências.

Celso Athayde, organizador do prêmio Hutús, diz que não se pode ter uma visão meramente empresarial da questão.

- Para estes megaempresários, o hip hop é somente mais um negócio de verão. Só que representa nossa vida.

Afro X, do 509 E, faz coro.

- O rap não pode ficar à mercê do capital. Os rappers americanos não estão preocupados com consistência, letra, conteúdo. - diz. - Recusamos participar do festival porque os empresários tinham que estar linkados com o social. É um evento elitizado sobre um movimento de massa.

Elza Cohen, principal produtora de hip hop do Rio, não tem preconceito contra o Manifesta, mas faz ressalvas.

- É mais uma megaprodução visando simplesmente ao lucro e a nada de ideologia. São empresários com visão de mercado investindo no produto que eles acreditam que seja a bola da vez. Quem vai participar deve tirar o maior proveito sem se vender. Deve ser autêntico, passar sua informação para um maior número de pessoas e sugerir aos empresários mais responsabilidade social, como ingressos mais baratos.

O manifesto que circula pela internet reclama da escolha de Snoop Dogg e Ja Rule, por causa da "mercantilização da mulher e da apologia à violência e às drogas". Mas o texto faz um apelo à paz: "Pedimos calma aos guetos e favelas do Rio e Floripa, apesar da onda de indignação contra o que eles consideram uma invasão de privacidade."

- A enorme contradição é que o festival é feito por pessoas que sempre rejeitaram e marginalizaram o movimento - diz Cláudio Rio, coordenador do Grupo Nação Hip Hop.

Rio conta que tem gente pensando em invadir o festival e criar confusão. Ele é contra.

- Mas é muito duro para as pessoas aceitarem que estão excluídas de um movimento baseado na cultura que elas mesmas vivem e alimentam.

O veterano rapper Thaíde acredita que, em vez de reclamar, o melhor é aproveitar para divulgar o movimento.

- O hip hop está no gueto até hoje. O Brasil inteiro quer conhecer essa cultura e faz parte da nossa tarefa divulgá-la. É hipocrisia não querer que a classe média conheça o hip hop. Assim é que o movimento nunca vai ajudar ninguém. Quando estivermos lotando estádios e vendendo milhões de discos, aí, sim, vamos conseguir ajudar as nossas comunidades.


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Terça-feira, Janeiro 06, 2004

Reportagem sobre os 80 anos de Hélio Pellegrino

Encontro com o poeta da psicanálise - Apelidado de "homem-comício", o mineiro Hélio Pellegrino, que completaria 80 anos hoje, é celebrado em três livros

Hélio, Francisco e Antonia esperaram quase 20 anos para abrir uma carta. Ela foi escrita no dia 3 de setembro de 1980, com a recomendação de só ser lida no ano 2000. Os três anteciparam o pedido em algumas horas e, na tarde de 31 de dezembro de 1999, leram finalmente o texto em que o psicanalista e poeta Hélio Pellegrino, pai de Hélio e avô de Francisco e Antonia, fala sobre o nascimento de seu primeiro neto homem. "A primeira idéia que me ocorreu: quando este homem, que acaba de nascer, tiver vinte anos, verá a virada do século. Você, Francisco, é o futuro. Você é a flecha novíssima, tensa - ou velha de futuro. Eu sou flecha ao crepúsculo, rica de passado, tensa de presente, limitada de futuro. Você me dilata, me renova, me renasce", diz um trecho.

A carta de Pellegrino para o neto Francisco é um dos destaques do livro que Antonia está organizando para a Editora Planeta e que vai ser lançado em março ou abril. Na mesma data, ele ganha uma homenagem da Editora Bem-Te-Vi, nos moldes da que foi feita com Vinicius de Moraes. O "Arquivinho de Hélio Pellegrino" reunirá uma biografia, uma cronologia, fac-símiles de cartas de Mário de Andrade e Otto Lara Resende, um álbum de fotografias e reprodução de um retrato feito por Mary Vieira nos anos 40. O pacote inclui também seis poemas inéditos que ele escreveu para Maria Urbana quando eram noivos. Completando as homenagens ao poeta, há ainda o livro "Meditação de Natal", recém-lançado pela Planeta.

Hélio Pellegrino faria 80 anos hoje, se um enfarte não tivesse abreviado sua vida em 1988. Sua morte deixou desnorteados parentes, amigos e admiradores, acostumados que estavam a ter como bússola o intelectual que se transformou "numa referência da vida política e cultural brasileira entre os anos 60 e 80", como escreve o jornalista Paulo Roberto Pires no livro "Hélio Pellegrino - A paixão indignada".

Em seus 64 anos, vividos intensamente, Pellegrino comprou todo tipo de briga - e esteve sempre do lado certo. Como adversários, o fascismo, o Estado Novo, a tortura, a ditadura militar, as más condições carcerárias, as dores e angústias do outro. Como arena, o consultório, as páginas de jornais e revistas, os manifestos, as assembléias, os debates, os palanques, as ruas. Como armas, sua incomparável oratória - que lhe valeu o apelido de homem-comício - sua indignação permanente, sua lucidez, seu humor, sua generosidade, sua obstinação e a ira santa de que falava seu primo, o crítico teatral Sábato Magaldi.

O livro organizado por Antonia, neta mais velha de Pellegrino, vai dar conta de algumas das principais facetas do avô: a lírica, a ensaística, a política, a religiosa, a psicanalítica. A obra está dividida em três partes. A primeira, "Hélio", autobiográfica, reúne textos que ele escreveu sobre ele mesmo, sobre a filha Maria Clara, sobre a morte do pai, sobre o neto Francisco. O segundo capítulo, "Outro", junta escritos referentes a personalidades como Clarice Lispector, Paulo Emílio Salles Gomes, Tristão de Athayde, Mário de Andrade, Che Guevara. A última parte, "Encontro", traz ensaios e notas sobre política e psicanálise.

- No início de 2003, dei-me conta de que ele faria 80 anos em janeiro. A data não poderia passar em branco - explica Antonia, de 24 anos, formada em ciências sociais, que se diz "maravilhada" com o acervo de Pellegrino que encontrou na Casa de Ruy Barbosa. - Percebo que amigos da minha idade, mesmo os que lêem e escrevem, não têm muita noção de sua importância. Quis, então, organizar um livro que mostrasse a multiplicidade de dimensões de meu avô.

Não é fácil resumir num livro - que dizer numa reportagem - a complexidade de uma figura como Hélio Pellegrino, chamado de "poeta da psicanálise" pelo jornalista José Castello. Em sua militância política, participou de passeatas, ajudou a fundar o PT, liderou greves, negociou a libertação de estudantes detidos pelo regime militar e acabou preso pela ditadura.

No ambiente psicanalítico, combateu a atuação da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro (SPRJ), que tinha em seus quadros o médico Amílcar Lobo, acusado de envolvimento com a tortura. Acabou expulso da sociedade, junto com o colega Eduardo Mascarenhas. Também aproximou a psicanálise dos pobres com sua Clínica Social.

E, como intelectual, "ninguém como ele sabia falar e escrever a palavra mais certa para abalar a iniqüidade e despertar o sentimento fraterno", como disse o crítico Antonio Candido.

Hélio Pellegrino foi um escritor sem livros, como ironizava o crítico José Guilherme Merquior. A clientela numerosa - quem não queria se consultar com ele? - o ritmo de trabalho extenuante, os numerosos convites para participar de comissões, debates e conferências, e a falta de organização como poeta e escritor atrapalharam os planos editoriais. Otto Lara Resende brincava dizendo que o amigo sofria de "bibliofobia" - aversão aos livros. A coletânea de artigos "A burrice do demônio" só foi lançada após sua morte, assim como os poemas de "Minérios domados". Em vida, ele viu publicado apenas um livreto reunindo "Poema do príncipe exilado" e "Deixa que eu te ame", em 1947.

- Há uma geração sem nada dele para ler. O último livro publicado, "Minérios domados", é de 1993 - diz Paulo Roberto Pires, editor da Planeta e responsável pela biografia do poeta que vai sair no "Arquivinho de Hélio Pellegrino", da Bem-Te-Vi.

O "Arquivinho" é uma espécie de livro-pasta que tem como objetivo "dessacralizar" o autor. É como se o leitor mexesse no baú do escritor.

- Ele aproxima as pessoas da obra e do personagem, já que o material é tratado com invenção gráfica e espírito lúdico. E pretende também ser didático, pois estimula o leitor a buscar a obra do autor - explica a escritora Lélia Coelho Frota, organizadora da coleção, anunciando que o próximo homenageado será Otto Lara Resende.

Um dos quatro geniais mineiros do Apocalipse, ao lado de Fernando Sabino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos, Pellegrino era, segundo as palavras de Pires, um mestre em administrar contrários. Ele conciliava marxismo e cristianismo, e sonhava com a transformação espiritual e social. Sua busca obsessiva por abrandar o sofrimento do próximo pode ser resumida na frase: "Nascemos para o encontro com o outro." No livro "Meditação de Natal", ilustrado por delicadas aquarelas de Odilon Moraes e Mauricio Paraguassu, pode-se ler: "Só consigo ganhar-me, perdendo-me, só amealho riqueza, doando-a." Assim era Pellegrino, poeta e psicanalista para quem, "antes e acima de tudo", o que importava era o outro.


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