DizVentura II

Segunda-feira, Dezembro 22, 2003

Reportagem com a atriz Cleyde Yáconis

Atriz completa 80 anos, coleciona prêmios em 2003 e mantém-se avessa aos holofotes

Cleyde Yáconis se esquiva como pode dos holofotes. É arisca às entrevistas, detesta publicidade e não se anima muito a falar de si.- Você acha que em 15 minutos resolve? - ela quase suplica ao repórter, depois de ouvir que o jornal quer entrevistá-la para falar de seus 80 anos, 53 deles dedicados ao teatro.

Não, Cleyde, não resolve. Tanto que o papo se estendeu por quase uma hora e meia. Cleyde celebrou seu aniversário mês passado, sem notinha em coluna social, foto em revista de fofoca ou badalação em lugar da moda. Exatamente como queria. Preferiu passar a data na companhia das plantas, dos bichos e de Dadá - "minha irmã negra", como define - em seu sítio em Jordanésia, a 28 quilômetros de São Paulo.

- Não fiz absolutamente nada. Almocei com a minha Dadá, que está na família há 53 anos. Foi uma comida normal, legume, franguinho no forno - conta ela, que não bebe.

Num tempo em que artista de terceiro escalão tem assessor de imprensa, em que basta fazer uma ponta na TV para ser chamado de celebridade e em que anônimos fazem de tudo para expor sua intimidade em reality shows, a grande dama do teatro escolhe o recolhimento e a discrição.

- Nunca procurei a popularidade. Deve ser um sofrimento ser agarrada na rua, não ter o direito de caminhar tranqüila.

Pense num prêmio, e ela já ganhou. Na semana passada, conquistou o Grande Prêmio da Crítica de 2003, conferido pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), pelo conjunto da obra. No dia 15 de dezembro, recebeu, do governo do estado de São Paulo, a Comenda da Independência. Em setembro, levou o Prêmio Nacional Jorge Amado de Literatura e Arte, que este ano foi dedicado ao teatro. Os mais de cem espetáculos que estrelou já lhe renderam, entre outros, o Moliãre, o Saci, o Governador do Estado e a Medalha de Ouro.

Paulista de Pirassununga, a atriz raramente deixa sua chácara em Jordanésia. Quando sai - dirigindo seu carro - é para ir ao teatro.

- Vi "Marília Pêra canta Ary Barroso", "Tio Vânia" e "A morte do caixeiro viajante". E cada vez que vejo Bibi (Ferreira) deliro. Mas assisto aos espetáculos e volto. Odeio comer fora.

A atriz não é mesmo de maiores luxos.

- Não ligo para dinheiro. Não gosto de jóias, não uso maquiagem, não faço unha ou cabelo. É ridículo ficar falando de grife em 2003. O que interessa é que vai faltar água, é se vão resolver o problema da violência, da corrupção.

Seu sítio já mereceu elogios de Miguel Falabella. "Cleyde coleciona árvores. Não conheço nada melhor", escreveu ele.

- Meu pessegueiro está carregado. Minha pitombeira também. Conhece lixia? - pergunta ela.

Diante da negativa, Cleyde continua.

- É uma fruta nobre chinesa. Essa gente luxenta quer primeiro lavar a fruta. Eu esfrego na blusa e como. Os bichinhos eu assopro, para não matar - diz a atriz, que mantém o costume de subir nas árvores. - Não se pode ter medo de estar com 80 anos. Meu geriatra só me diz para ter prudência, sem podar nada.

Grande entre as grandes, como dizia o dramaturgo Mauro Rasi, a atriz começou na profissão por acaso. Trabalhava no guarda-roupas do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) quando a atriz Nídia Lycia, que fazia "Anjo de pedra", de Tennessee Williams, adoeceu. Foi um corre-corre para achar alguém que a substituísse. No meio da confusão, Cleyde perguntou: "Querem que eu faça?". Ela diz que se tivessem jogado uma bomba atômica no camarim não teria provocado tamanho estupor. A mais atônita era sua irmã, Cacilda Becker. De tanto assistir à peça, Cleyde tinha decorado as falas. Agradou tanto que Ziembinski convidou-a para atuar em "Pega fogo", de Jules Renard. Desde então, não parou. Fez espetáculos como "Yerma", "A morte do caixeiro viajante", "Mary Stuart" e "Toda nudez será castigada". Por causa de "Vereda da salvação", de Jorge Andrade, foi presa pela ditadura. Quem a salvou foi Cacilda.

- Minha irmã tirava todo mundo. Prendiam, ela soltava. Era intocável.

Nesta época, já tinham ficado para trás os dias de "miséria total e absoluta", quando vivia com a mãe e as irmãs, Cacilda e Dirce, num contêiner de automóveis e tinha que catar lixo na feira e furtar comida para sobreviver. O pai abandonou a família quando ela tinha 4 anos. No programa "Grandes damas", do GNT, Cleyde lembra: "Nunca chamei de pai, só de seu Yáconis. Um espancador, um homem cruel."

Este ano, ela destacou-se como a viciada em morfina em "Longa jornada de um dia noite adentro", de Eugene O¿Neill. Em 1976, já tinha sido convidada por Sergio Britto para o papel.

- Vi em Nova York e pensei em fazer com ela. Mas Cleyde é muito fechada, disse que estava ocupada, não se interessou - lembra Britto.

Até que os dois foram convidados para atuar juntos pela primeira vez. Por coincidência, justamente na peça.

- Foi um dos grandes prazeres dos meus últimos anos. É uma atriz muito generosa e sensível, joga-se inteira no papel. Mas ela furou comigo. Prometeu ver minha peça, "Sergio 80", e não viu. Está me devendo - brinca ele.

Cleyde está em busca de um novo texto para encenar em maio do ano que vem.

- Já estou inquieta. Cada semana leio uma peça. Acho que vai ser um autor estrangeiro.

A TV também está nos planos.

- O Sílvio de Abreu me telefonou por ocasião do Prêmio Jorge Amado e cobrei dele: "Quando você vai fazer novela de novo?". Não é apaixonante como teatro, mas gosto de fazer - conta Cleyde, que participou de produções como "Beto Rockfeller", "Os inocentes", "Rainha da sucata", "Sex appeal", "Vamp", "Éramos seis" e "Torre de Babel".

O cinema é que ainda está devendo um grande papel a ela.

- Não considero os filmes que fiz, porque não me renderam artisticamente - diz a atriz, que esteve no elenco de "Na senda do crime", "A madona de cedro", "Parada 88 - O limite de alerta" e "Jogo duro". - Quem sabe não aparece algum convite?

Em 2000, ela rodou, com Dirce Migliaccio, o curta "Célia e Rosita", em homenagem a Célia Biar e Rosita Thomás Lopes.

- Esse curta me satisfez. Passou bem, em apenas dez minutos, o problema da idade das mulheres maduras.

Cleyde foi casada com o ator Stênio Garcia, de quem se separou em 1969. Não teve filhos. Arrepende-se?

- Não! Agradeço a Deus a sabedoria de não ter tido filhos. Sou uma das pessoas que mais gostam de criança, mas estaria arrancando os cabelos de ver meus netos saírem de madrugada. Além disso, posso partir tranqüila, porque não vou deixar ninguém chorando - diz, com a humildade habitual.

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Sexta-feira, Dezembro 12, 2003

Reportagem com os escritores policiais Luiz Alfredo Garcia-Roza e Joaquim Nogueira

Dois tiras acima de qualquer suspeita

Garcia-Roza e Joaquim Nogueira lançam livros e falam em dar férias a seus personagens

Os dois são policiais solitários, éticos, quarentões e de nomes pouco comuns. Um se chama Espinosa - homenagem ao filósofo holandês - mas já teve quem confundisse com Espinhosa. O outro é Venício, mas, para sua irritação, vive sendo chamado de Vinícius. Agora as diferenças: o delegado Espinosa mora no Rio e saiu da imaginação do ex-professor de teoria psicanalítica da UFRJ Luiz Alfredo Garcia-Roza, de 67 anos, que está lançando seu quinto policial, "Perseguido". O inspetor Venício vive em São Paulo e é uma criação do ex-delegado Joaquim Nogueira, de 63 anos, que acaba de lançar seu segundo livro, "Vida pregressa", após os elogios de sua estréia com "Informações sobre a vítima".

Numa conversa que começou no escritório de Garcia-Roza e se estendeu para o vizinho bar Villarino, no Centro, os dois escritores trocaram amabilidades. Ao passar em frente à Academia Brasileira de Letras, Garcia-Roza comentou com seu colega de escrita:

- Um dia espero ver você aí.

A convite do GLOBO, os dois autores se encontraram para falar de romance policial brasileiro, violência e as dificuldades da nova profissão - ambos começaram quando já tinham quase 60 anos. Para desânimo dos fãs de Espinosa, Garcia-Roza anuncia que vai dar férias a seu personagem. Nogueira também prevê uma folga, em breve, para Venício.

A violência no Brasil facilita a vida de um autor de romance policial? Ela influenciou na decisão de vocês de se tornarem escritores policiais?

GARCIA-ROZA: Não. Ela já faz tão parte do caldo cultural no qual a gente vive que não é um fator deflagrador. Quando você decide fazer ficção no Brasil, essa violência sai naturalmente. É impossível fazer ficção tomando como referencial o Rio e São Paulo em que você tenha maquiado essas duas cidades de tal modo que não existam desigualdade e violência.

NOGUEIRA: No meu caso, a violência já estava comigo desde o início, quando fui designado para a 39ª DP, a pior possível. O romance inglês tem uma trama mais refinada, que se atém mais ao mistério que vai ser revelado no final. Mas, no Brasil, quem quer escrever um policial verdadeiro, calcado na realidade, tem que falar dessa violência e dessa circunstância social.

Espinosa está chegando ao quinto romance.Venício, ao segundo. Podemos esperar novas aventuras dos dois investigadores?

GARCIA-ROZA: Vou dar férias ao Espinosa. Estou começando a trabalhar um novo livro, sem ele. Não quer dizer que eu o mate. Afinal, ele goza de uma certa simpatia do leitor. Muita gente me pergunta "Quando sai o próximo Espinosa?" e não "Quando sai o próximo livro?". Isso é um sinal de o quanto ele está se impondo ou quase tiranizando o autor. Senti claramente neste quinto livro que os personagens que eu tinha criado estavam se esvaziando. O próximo livro será um romance urbano, que envolve os subterrâneos de Copacabana, e é mais violento que os outros.

NOGUEIRA: Você pode dar uma licença-prêmio para ele. E depois escreve: "O retorno de Espinosa"...

GARCIA-ROZA: Numericamente, eu já estou empatado com o Dashiel Hammett...

NOGUEIRA: Qualitativamente também...

GARCIA-ROZA: Qualitativamente é outra história...

NOGUEIRA: Prevejo que mais à frente eu também vou dar um tempo no Venício. Estou escrevendo o terceiro livro com ele, "À mão armada", mas sinto que vai chegar o momento, e não vai demorar muito, em que vou me exigir sair desse personagem e começar a pensar em outra maneira de criar suspense, já que o que gosto de fazer é dar susto.

Já dá para falar numa escola de romance policial brasileiro, como a inglesa e a americana? Existe um noir brasileiro?

GARCIA-ROZA: Não. Falta massa crítica para formar escola. É preciso que haja mais autores, para que essa quantidade seja decantada. Você tem manifestações esporádicas, individuais. Existe novela policial de brasileiros, mas não uma novela policial brasileira.

NOGUEIRA: Concordo. O que existem são franco-atiradores.

Nogueira é ex-delegado, Garcia-Roza nunca tinha entrado numa delegacia. Mas ambos criaram personagens bem-sucedidos...

NOGUEIRA: Para escrever romance policial não precisa conhecer tanto os meandros. Não é como reportagem. A gente acredita no Espinosa, ele é perfeitamente plausível. As eventuais inexatidões de quem escreve ficção sem ter experiência prática não tiram o valor literário dos livros. Mas, no meu caso, facilitou. Muita gente acha que carreguei demais nas tintas ao descrever a polícia. Mas eu estava lá.

GARCIA-ROZA: Espinosa não nasceu de uma experiência pessoal, mas desde menino eu tinha fascinação por novelas policiais. Sempre achei que elas traziam para o centro da narrativa, sem grandes maquiagens, a questão da morte, a da sexualidade, que são as questões básicas do homem. Fascinava-me essa crueza, essa franqueza, essa quase sem-cerimônia com temas que sempre são abordados disfarçadamente.

A imagem da polícia brasileira é ruim, mas Espinosa e Venício são incorruptíveis. A vida deles não têm nada de glamourosa. Por que criar personagens com essas características?

NOGUEIRA: Não tem mais cabimento dentro da nossa realidade fazer personagens inteiramente íntegros, heróicos, valentes, que não têm medo de nada, que quebram a cara dos bandidos e ficam com as mulheres mais bonitas. Eu queria que meu personagem fosse imperfeito, que tivesse suas fraquezas, cometesse seus deslizes. O Venício está na polícia, mas se sente meio um peixe fora d'água.

GARCIA-ROZA: O que acho fundamental no homem é a sua postura ética. Tanto o Espinosa como o Venício são éticos. A criação do Espinosa foi no sentido de mostrar que é possível um policial ser ético. Mas sem fazer dele um super-homem, um indivíduo excepcional. Ele é absolutamente normal, é tipicamente um funcionário público, pouco à vontade no que faz. Não é necessariamente honesto, mas é ético. Certas aventuras amorosas dele, de um ponto de vista da moral vigente, poderiam ser consideradas desonestas.

Garcia-Roza, como estão as negociações para seus livros virarem filme?

GARCIA-ROZA: Os direitos de "O silêncio da chuva" voltaram para mim, pois o Murilo (Salles) não conseguiu captar financiamento. "Achados e perdidos" está com o (José) Joffily. "Vento sudoeste", com a Ana Maria Bahiana. E estou em negociações em torno de "Uma janela em Copacabana".

Vocês leram "Sobre meninos e lobos", do americano Dennis Lehane, que virou filme?

GARCIA-ROZA: Gostei da trama e da construção dos personagens.

NOGUEIRA: Achei a escrita um pouco extensa e morosa. Pulei um bocado.

Garcia-Roza escrevia livros teóricos, Nogueira era delegado. Por que os dois viraram escritores policiais?

NOGUEIRA: Desde a adolescência, achava que poderia ser escritor. Mas me casei aos 18 anos e fui sendo envolvido pela vida. Em 1998, quando poderia me aposentar, falei: "Não agüento mais. Vou acabar com essa angústia, sair da polícia e fazer literatura." Queriam que ficasse, poderia ser promovido a diretor de departamento ou chefe de divisão, mas bati o pé. Nem por um segundo me arrependo.

GARCIA-ROZA: Eu fiz um corte com a carreira acadêmica e com o próprio discurso universitário. Escrevia livros teóricos, que são pobres em termos criativos, e resolvi partir para um tipo de escrita em que eu tivesse absoluta liberdade. Mas ao mesmo tempo é angustiante, porque você está só, desamparado, sem a teoria para protegê-lo. Mas não estou nem um pouco arrependido do salto que dei.

Bandidos dão o troco
Novos lançamentos fazem dos criminosos protagonistas

Os detetives e investigadores têm lugar de destaque na literatura, mas agora é a vez de os bandidos darem o troco. De uns tempos para cá, o mercado brasileiro foi invadido por livros em que eles são os protagonistas - seja por sua própria voz, seja através da escrita de outros. Um dos melhores exemplos é "No coração do Comando", do jornalista Julio Ludemir, lançado em 2002, espécie de Romeu e Julieta dos tempos modernos. O livro conta de forma envolvente e arrebatadora a história real do romance entre dois presidiários, Valéria, integrante da facção criminosa Terceiro Comando, e Marquinho, do Comando Vermelho.

- O cidadão comum não tem a menor idéia do que sejam o tráfico, a favela, as instituições policiais, a prisão. É de fundamental importância esse exercício de descoberta da realidade que a literatura está começando a fazer - diz Ludemir. - Não consigo, como leitor, identificar-me com personagens como os detetives particulares clássicos ou os investigadores incorruptíveis. Acho fake.

"Manual prático do ódio", lançado há pouco, tem como pano de fundo a periferia paulistana. Segundo romance de Reginaldo Ferreira da Silva, mais conhecido como Ferréz, autor de "Capão Redondo", o livro é inspirado em histórias reais e mostra, num ritmo acelerado, o dia-a-dia de seis jovens - Lúcio Fé, Aninha, Régis, Celso Capeta, Mágico e Neguinho da Mancha na Mão - que preparam o grande assalto de suas vidas. Ferréz, que continua morando em Capão Redondo, onde trabalha como balconista numa loja de roupas, diz que escreve sobre a realidade que está próxima a ele:

- Esses caras que todo mundo chama de monstro têm uma história, um passado por trás. Esses livros ajudam a entender a psicologia das pessoas que estão do outro lado.

A literatura do crime ganhou um best-seller com "Abusado", de Caco Barcellos, que conta a trajetória do traficante Marcinho VP - no livro, Julinho VP. Mas é o cárcere que mais tem servido de inspiração à literatura. "Aqui dentro - Páginas de uma memória: Carandiru", organizado pela fotógrafa e documentarista inglesa Maureen Bisilliat, traz imagens e depoimentos reveladores da vida no presídio paulista, já desativado. "Sobrevivente André du Rap (do Massacre do Carandiru)", como o nome indica, mostra a visão de um preso que escapou da matança policial. "Memórias de um sobrevivente", de Luiz Alberto Mendes, é o testemunho impactante de um homem que foi preso aos 19 anos e já está há quase 30 anos na cadeia. E "Diário de um detento: o livro", de Jocenir, também é o relato dos anos vividos num presídio de São Paulo. (M.V.)

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Terça-feira, Dezembro 02, 2003

Matéria com o rapper De Leve
Escrachado
Revelação no rap carioca, o cantor De Leve abre espaço para a sua música atacando tanto estrelas do pop quanto da MPB
Zeca Baleiro é presepeiro, Carlinhos Brown manda mal, Sandy é demodé e CD de Djavan é bom... para jogar frisbee, canta o rapper De Leve. Na música "Pra bombar o seu estéreo", sobra munição também para gente como Max de Castro, KLB, Jorge Vercilo, Gilberto Gil, É o Tchan, DJ Patife e Jota Quest.

Se Erasmo Carlos homenageava os colegas de Jovem Guarda em "Festa de arromba", se Rita Lee ironizava com outros cantores em "Arrombou a festa" e "Arrombou a festa II", se Gabriel O Pensador listava 60 músicos em "Festa da música tupiniquim", De Leve mira em seu rap a nova e a velha geração.

Sem sutileza alguma, De Leve é a maior surpresa do rap carioca. Aos 22 anos, branco, de classe média falida, como se define, filho de pai taxista e mãe manicure, morador da Praia de Icaraí, em Niterói, nascido Ramon Moreno, ele teve três músicas incluídas no seriado "Cidade dos homens", da Rede Globo.

- Meu irmão, que é bombeiro, falava que eu fazia música de maconheiro. Depois que tocou na TV, ficou amarradão. Meu pai não ouvia e agora está até aprendendo a cantar. Tudo muda - entrega.

De Leve faz parte do coletivo Quinto Andar, grupo de DJs, MCs e produtores de Niterói. Um dos alvos favoritos do grupo é a sociedade de consumo. Em "Essa é pros amigos", De Leve canta: "Não faço rap pra rapper nem rima pra repentista/Nem me visto pra catálogo de loja que aparece na revista/O segurança me revista, não acha nada e conquista/Fica mais na pista que mulé feia na entrevista."

A música "Largado" é baseada no comentário de uma ex-namorada.

- Na saída da casa dela, ela me falou: "Meu pai disse que você é legal, mas meio largado. Você podia vir de tênis em vez de chinelo."

Vai ser difícil. A indumentária básica do rapper é camiseta, bermuda e chinelo.

- Ele é o Zeca Pagodinho do rap - compara Elza Cohen, principal produtora de hip hop do Rio, criadora da festa Zoeira e do Festival SuperDemo, de onde saíram Planet Hemp e D2. - É escrachado, informal e faz crítica social com humor.

- Mas o Zeca Pagodinho bebe muito mais do que eu - brinca De Leve.

O escracho é marca registrada do rapper. Ele não está preocupado em fazer média, em posar de bom moço ou ser politicamente correto. Uma letra diz: "Boas maneiras/Que é isso?/Nunca ouvi falar." Ano passado, o Quinto Andar concorreu ao prêmio Hutús - o mais importante do hip hop nacional - na categoria revelação. Perdeu para o paulista Sabotage, assassinado no início deste ano. De Leve apareceu na festa com cabelo moicano, contrastando com os dreadlocks e cortes afros reinantes.

- Ficou todo mundo me olhando torto. Se eu tivesse ido de trancinha, não ia ter problema - ironiza ele.

De Leve é o antiestereótipo do rapper, o que já lhe valeu comentários pejorativos, como o de que faz "rap-comédia". O DJ Castro, que também faz parte do Quinto Andar, é testemunha de algumas dessas críticas:

- Quando ele apareceu, eu ouvia muito comentário de que era um playboyzinho fazendo rap. Mas esses caras falam pra caramba contra o sistema e são os que mais compram roupa de marca e ostentam - diz o DJ.

Volta e meia, De Leve é comparado ao americano Eminem. Castro acha que o colega tem mais a ver com o também rapper americano Kool Keith, que "zoa todo mundo".

- De Leve é autêntico e representa um estilo, o rap underground, que muitos apostam que é o futuro - testemunha uma das maiores autoridades no assunto, Celso Athayde, organizador do Hutús.

Um jornal de Campinas disse que ele é a Maria Rita do rap.

- Eu? Não sou nem filho de famoso...

De Leve está lançando nos próximos dias seu novo CD, "O estilo foda-se", pelo selo independente Segundo Mundo, em parceria com a Tomba Records. A distribuição será da multinacional Sony Music. São 14 músicas que fizeram parte de seus dois primeiros discos.

As letras oscilam entre o besteirol completo - "Acabou a dose de uísque e não tem mais nota de cem/Chame o Caipirinha Man!! Caipirinha Man!!" - e as rimas caprichadas - "Essa é dedicada a cada maluco que já foi confundido/com ladrão, e ficou preso na porta-giratória de tão mal vestido/Pra todos aqueles que só mudam de camisa/Mas ninguém percebe porque o pacote são três iguais GG e lisa/praqueles que foram parados na porta das Americanas/Acusados de roubo de suco Del Valle só tendo no bolso um vale."

A falsa acusação nas Lojas Americanas, segundo ele, aconteceu de fato.

- O segurança viu o jeito que eu estava vestido e me tirou para idiota. Só que eu pedi para ver a fita interna de vídeo e disseram que não gravava. Falei que não tinham como provar e fui embora.

Os erros gramaticais nas letras, diz ele, são intencionais.

- A idéia é fazer uma linguagem coloquial - explica De Leve, que largou a Faculdade de Biblioteconomia da UFF. - As duas únicas características marcantes do meu som são o sotaque carioca e o deboche.

Ele começou a ficar conhecido depois que a música "A lenda" passou a circular pela internet. Em pouco tempo, virou um sucesso no underground. A rede foi um aliado de primeira hora.

- Eu ia nos usuários do Napster, perguntava para as pessoas se tinham ouvido, passava as músicas. O importante é conhecer o trabalho. Os artistas que vão na TV falar contra pirataria só fazem isso porque a gravadora obriga.

Uma das bandeiras do Quinto Andar é a livre troca de arquivos na internet. Ou, como diz Castro, a descriminalização da pirataria.

Em seu blog - que não é atualizado desde setembro porque ele esqueceu a senha - De Leve escreve: "Odeio (a gravadora) Trama. É um monte de neguinho filho de famoso fazendo música caô ou neguinho consagrado que eles catam pra fazer mais sucessinho fazendo musiquinha metida a moderna." Para compensar a perda do blog, criou o fotolog.net/deleve. No blog www.matafoca.blogger.com.br, que pede aos leitores que tirem o chapéu ou atirem nos rappers, há quem chame De Leve de "nerd e folgado", e há quem diga que é "original e o melhor rimador do Brasil". Ao site Nomínimo, ele assume: "Meu som é tosco mesmo."

- Não é que eu seja tão diferente assim, é que todo mundo é igual - resume.


Trechos de letras:
"Carlinhos Brown manda mal, Zeca Baleiro é presepeiro/tô legal de ouvir 'Fama' no Rio de Janeiro a janeiro/não canto eles no chuveiro... meu som é pra você..."

"Não preciso de tênis, não tenho o maior pênis/Nem quero, com fama eu também como a Luciana Gimenez/Não uso Nike no pé, na camisa ou no boné/Sem Calvin Klein na cueca nego me acha mané."

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