DizVentura II

Segunda-feira, Outubro 13, 2003

Fernando Sabino, 80 anos
Avesso às comemorações, autor de "Encontro marcado" prepara livro de memórias e conserva o lado gaiato

Renato da Costa Bonfim, mais conhecido como Bracinho, convive com os olhares piedosos e as caras espantadas dos passantes. Mais difícil é driblar os funcionários do governo estadual.
- A carrocinha cata-mendigo já me pegou quatro vezes - diz ele, de 27 anos, que nasceu sem os braços e vive nas ruas de Copacabana.

Domingo desses, um senhor, em vez de se afastar, puxou conversa. Ficaram mais de uma hora papeando. O homem se apresentou e quis saber de tudo: quem amparava Bonfim, a origem do defeito físico e até como ele fazia para almoçar. Ao fim da conversa, deu R$ 5 ao rapaz e prometeu ajudá-lo.

- Ele foi atencioso e mostrou uma preocupação sincera de me ajudar. Nunca imaginei que um cara famoso ia falar comigo. Essas pessoas conhecidas não gostam de conversar com a gente. Ele é muito simples - surpreende-se Bonfim.

Ele é Fernando Sabino. Aos 80 anos, que completa amanhã, o autor de "Encontro marcado" conserva o olhar generoso e o espírito curioso que o acompanham desde menino. E a mesma aversão aos holofotes. Tanto que minimiza seu gesto:

- Não estou pensando em salvar a Humanidade, e sim em atender ao apelo do meu coração. A história de Renato me tocou muito - conta ele, que mobilizou amigos para ver como ajudar Bonfim. - Eu ia saindo da igreja no domingo quando vi esse rapaz de short, sentado num caixote. Perguntei se a gente podia conversar e ele me contou sua história. A naturalidade dele impressionou-me estupidamente. Fiquei comovido de chorar.

Sabino tem uma frase que ajuda a entender sua atitude: "Quando você tem um problema muito difícil de resolver, comece por resolver o problema dos outros."

- Eu costumo dizer que ele só é pão-duro com ele mesmo - conta o filho Pedro.

De fato, o escritor mineiro não é de maiores luxos, a ponto de ter como carro um Voyage 1993. Mais hábil narrador dos desacertos da vida cotidiana, um "Kafka de eletricidade positiva", como dizia o poeta Paulo Mendes Campos, Sabino chega aos 80 afiado. Quando lançou o livro "Cartas na mesa", que reúne a correspondência com os amigos Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Mendes Campos, ouviu da filha Veronica:

- Papai, como você era inteligente!

- Pois é, fiquei burro - respondeu de bate-pronto.

- Não é isso, você era muito mais inteligente do que eu pensava - teve que consertar a filha.

Também estranhou quando um vizinho quis comprar seu apartamento na Rua Canning, na fronteira de Ipanema com Copacabana, onde mora desde 1953.

- Ué, eu não morri - diz, com o bom humor habitual.

Não adianta procurá-lo amanhã em sua casa. Se já é difícil falar com o escritor em dias normais - protegido que está por duas secretárias-eletrônicas e pela fiel escudeira Fabiana - que dirá em seu aniversário. Sua editora, a Record, sugeriu uma comemoração e ele pediu:

- Me livra dessa.

Para evitar o assédio, refugiou-se em local ignorado. Estava em dúvida se ia para o sítio de Saquarema ou ficava por aqui mesmo, escondido num hotel. Das coisas que o aborrecem, duas são campeãs: pedidos de entrevista e afirmações de que se tornou recolhido e recluso após o lançamento de "Zélia, uma paixão". Como assim refratário ao convívio social, se pode ser visto indo de ônibus até a livraria de uma amiga no Largo do Machado, caminhando na orla, passeando pelo Centro da cidade, batendo perna por Ipanema ou conversando com garçons, manobristas e porteiros? O que de fato é verdade é que ele se tornou arredio à noite. Mantém o espírito brincalhão até ao justificar suas raras incursões noturnas:

- Meus amigos estão no São João Batista, que fecha às 18h - graceja, numa referência ao cemitério de Botafogo.

Há outra razão - o medo das abordagens. Ele tem pavor de se sentar numa mesa e logo vir alguém com o papo: "Fernando, sou seu admirador, você me permite sentar?", diz o sujeito, já sentando. "Aquela crônica que você escreveu, isso aconteceu na minha vida, aliás, ela daria um livro. Por falar nisso, eu tenho uns textos, queria que você desse uma olhada e dissesse..." Sabino anda ocupado, revisando sua extensa obra. Está trabalhando também num livro chamado "A resposta - Memórias póstumas antecipadas não autorizadas", o que ele chama de "autobiografia não autorizada por mim mesmo".

No mesmo domingo em que encontrou o morador de rua Bracinho, o escritor deu mostras de outros dois lados bem conhecidos seus - o gaiato e o galanteador. Ele decidiu caminhar pela praia. Quando chegou no calçadão, viu que uma mocinha jeitosa andava à sua frente. A certa altura, achou que ela tinha deixado cair algo e, gentil, abaixou-se para pegar. Ela viu e disse:

- Cuidado, não apanha, não, que cheira mal!

Ele, todo galante, respondeu:

- Vindo de você só pode cheirar bem.

No que ela achou por bem advertir:

- Mas esse não veio de mim, não, veio do cachorrinho...

Ele tirou a mão rapidinho.

Há poucos dias, foi ovacionado ao tocar bateria num shopping-center em Copacabana
Uma das raras incursões de Fernando Sabino pela vida noturna aconteceu há dias, quando tocou bateria numa banda de jazz no Shopping Cassino Atlântico, em Copacabana. Era um show em homenagem aos seus 80 anos e ele, a contragosto, foi. No fim, diante da ovação, chegou a dizer que era o dia mais alegre de sua vida.

No dia 29 de agosto passado, voltou a Belo Horizonte para assistir ao espetáculo baseado em seu romance "O grande mentecapto", com Marcelo Andrade no papel de Viramundo. Andrade, que também assina a adaptação e direção, ao lado de Patricia Lima, é um dos poucos privilegiados a ter acesso a Sabino. Ele diz:

- Nunca vi alguém ter tanta energia na minha vida.

Na semana retrasada, o autor de "O homem nu" esteve novamente na capital mineira, desta vez para ver "De Minas a Nova York", peça feita por Andrade com alunos de escola pública, em cima de sua obra. Ao jornal mineiro "Hoje em Dia", disse ter gostado da pureza e da despretensão dos atores. Voltou tão entusiasmado que retomou um projeto antigo. Andrade e a atriz Marianne Vicentini tinham encomendado a ele um texto teatral, mas, há três anos, o escritor se desculpava. Depois que viu "De Minas a Nova York", reescreveu em dois dias a peça "Noite única", que tinha feito para ser encenada por Cacilda Becker, e entregou-a à dupla, que vai montá-la ano que vem.

Nos últimos anos, Sabino lançou "Cartas perto do coração", "Livro aberto", "Cartas na mesa" e "Cartas a um jovem escritor e suas respostas". Não quer deixar nada inédito para ser publicado após sua morte.

- Ele diz: "O que não foi publicado é porque não presta" - conta o filho Pedro, que foi nomeado em testamento como agente literário de Sabino.

Na editora Record, ele tem status único. Sua autonomia é tanta que decide quais livros publicar, define a tiragem e faz as capas. Volta e meia algum acadêmico tenta convencê-lo a entrar na Academia Brasileira de Letras. Recusa sempre. Alega que não tem vocação para atividades de caráter social, como associações de classe, sindicatos e agremiações.

Na obra do escritor, um tema recorrente é a busca pela inocência perdida. É fiel ao que ouviu do poeta Mário Quintana: "É preciso conservar a criança que se tem dentro de si." A vontade de recuperar a visão inédita das coisas que só o menino tem não lhe permite ficar indiferente às dores de gente como dois vendedores de livros usados que fazem ponto em Ipanema:

- O Rubem e o Barbudo são discretos e não atrapalham ninguém, mas o rapa recolhe tudo - preocupa-se.

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