| DizVentura II |
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Terça-feira, Setembro 30, 2003
Fotos do vôo de hidroavião, feitas pela Marizilda Cruppe
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Texto escrito por Ziraldo em 1999 A vida por quem sempre prestou muita atenção Era uma festa na Urca. Trinta anos se passaram sobre aquela noite. Na casa alegre e iluminada estavam reunidas algumas das pessoas mais interessantes que conheci. Estas pessoas, quase todas, iriam estar intensamente presentes na vida brasileira neste anos que se seguiram. As festas naquela casa duravam todo o tempo, ela era cheia de luz, de alegria e - interessante! - de muita preocupação com os destinos do Brasil. Era este o nosso assunto predileto. Tínhamos passado a tarde daquele dia - era um sábado - jogando futebol de botão. Como havíamos feito, outros 30 anos antes, com os enormes botões arrancados dos casacos de nossos avós, recuperados nos armários da memória. E, com nossos filhos começando a crescer, voltávamos a ser crianças. O campeonato daquele fim de semana tinha sido ganho, se não me engano, pelo Leon Hirszman que, já de noite, na festa, pontificava nas conversas políticas que pontuavam a reunião. Havia quem era pela organização das massas, pela participação da sociedade, pela cooptação dos estudantes, pelo trabalho nas fábricas, pela luta armada, havia quem era pelo esclarecimento, o esclarecimento! De repente, a frase do Gabeira que ficou histórica, dita ali, naquela noite: "No caos está contido o germe de uma nova ordem!" E Milton Temer, de repente chamado de conciliador, retrucando: "Gabeira, você ainda vai estar à minha direita!" E havia muitos risos e muitas crianças. Muitos filhos novinhos, alguns brincando em outra parte da casa, outros pendurados nos braços dos pais. Todos já participando intensamente de nossas vidas e a gente achando que as coisas tinham mudado muito naqueles tempos e nenhum de nós acreditando na crença que nos impunham de que havia o conflito de gerações. Tanto não acreditávamos que, até hoje, os filhos já criados, não conflitamos! No meio daquela festa toda, um menino arredio, tímido, ficava pelos cantos, olho comprido, longe da participação de todo mundo, prestando muita atenção em tudo, apartado. "Vem brincar com os outros. Não fique aí sozinho", alguém convidou. E ele respondeu: "Não. Eu sou Flicts." Ele tinha cinco anos e era Flicts e vocês querem que eu não me comova no momento em que sou convidado para fazer a apresentação de sua primeira coluna, que estréia no próximo sábado no Caderno B? Pois o Flicts cresceu, transformou-se num dos jornalistas mais competentes de sua geração e agora vai assinar sua opinião, sua visão da cidade, da cultura que se faz nesta cidade, sua observação pessoal da vida, do mundo, ele que, desde pequeno, sempre prestou muita atenção... Algum outro apresentador menos avisado diria que haverá aqui uma troca de bastão, como nas tertúlias olímpicas. Não haverá. Até aqui este espaço foi ocupado pelo Zuenir Ventura, o dono da casa acima mencionada. Uma quantidade significativa dos jovens bons jornalistas que atuam na imprensa do Rio faz parte do grande grupo de alunos do Zuenir. Não vou precisar dizer o que acho dele como jornalista, como escritor, como ser humano. Só posso afirmar que suas qualidades vão exigir muita responsabilidade do seu sucessor neste espaço. Não se preocupem, ele - o sucessor - vai tirar de letra (!). Reafirmo que não vai haver passagem de bastão, primeiro porque detesto esta comparação, segundo, porque o Mauro Ventura corre em outra raia, em raia própria. Ele não foi aluno do Zuenir. Preferiu não ser para manter sua independência profissional. Nem afilhado. Tanto o Zuenir como a Mary Ventura (os três juntos têm 35 anos de JORNAL DO BRASIL, a idade do Mauro) se surpreendem quando falam da vocação e da escolha do Mauro. Mas eles queriam o que, criando o filho naquela casa da Urca? Comente aqui:
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