DizVentura II

Domingo, Agosto 17, 2003

A volta do Cine Lemos Brito
Os cartazes anunciam com alarde a sessão: "Não percam". Nem precisava. O público não vê a hora de chegar a quarta-feira. A platéia não será formada por espectadores comuns. Os 583 convidados são presidiários condenados a mais de dez anos de cadeia. É o Cine Lemos Brito que está de volta.
A última sessão de cinema foi há 30 anos. Os projetores quebraram, faltou dinheiro para o conserto e a sala de dois mil lugares limitou-se a abrigar shows e peças. Agora, ela será reinaugurada com o filme "Villa-Lobos, uma vida de paixão", de Zelito Viana. O espaço foi construído em 1830, dentro da penitenciária Lemos Brito. Era um auditório que, mais tarde, passou a exibir filmes.
- Tem a arquitetura das salas da década de ouro do cinema. É igual ao antigo Carioca da Praça Saens Peña - surpreende-se Viana.
Apesar de castigado por infiltrações - quando chove a frente do palco fica alagada - o espaço, que tem o nome oficial de Auditorium Cel. Meira Lima, conserva sua imponência.
- Dá para dividir e fazer um multiplex: Lemos Brito 1, 2 e 3 - brinca Carmen Vargas, superintendente do audiovisual da Secretaria Estadual de Cultura, que está à frente do projeto.
A idéia partir de Tácito Chagas Ribeiro, chefe da seção de educação da Lemos Brito.
- Desde que bati os olhos aqui, em 1997, que não me saía da cabeça a idéia de reativar o cinema - diz.
Ele procurou a secretaria e conseguiu apoio para o projeto. Para a sessão de quarta-feira, foram alugados um telão, um projetor e caixas de som. O próximo passo é restaurar os dois projetores da sala. A secretaria programou ainda mais três sessões de filmes nacionais. Após a exibição, haverá debate com Viana e o roteirista Joaquim Assis, seguido de apresentação da Orquestra da Escola de Música Villa-Lobos. O projeto prevê ainda oficinas de cenografia, roteiro, história do cinema brasileiro e formação do ator.
- O filme será importante para desenvolver nos presos o sentimento de brasilidade. O entretenimento faz com que tenhamos novos rumos de vida - diz Ronaldo Monteiro, de 44 anos, condenado a 28 anos por seqüestro. - Fui oficial do Exército por dez anos e só aqui dentro é que ouvi falar de cidadania.
A Lemos Brito faz parte do complexo penitenciário da Frei Caneca, que vai ser demolido para a construção do conjunto residencial Nova Cidade.
- A idéia da Secretaria de Cultura é manter a sala. Vamos propor o tombamento. É um espaço do século 19, cheio de história - diz Carmen.
Tácito confirma:
- Já se apresentaram aqui Zezé Motta, Elke Maravilha, Tony Tornado, Lucélia Santos, Ney Matogrosso, Luiz Gonzaga, Paulinho da Viola e até Roberto Carlos.
A secretária estadual de Cultura, Helena Severo, classifica a reabertura da sala de "extremamente importante".
- Vamos chamar o Adhemar Oliveira ou o Grupo Estação para administrar - brinca.

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